O olhar do filho mais velho no nascimento de seu irmão

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Ooooohhhhh!!!! Eu tô grávidaaaa!!

Um dia eu acordei e mamãe estava com um termômetro na mão com um sorrisão no rosto dizendo que eu ganharia um irmãozinho. Eu olhava para o termômetro, para a cara dela e não entendia nada e só pensava: como é que só de olhar para esse negócio ela sabe que vou ganhar um irmãozinho?

Os dias foram passando, eu ia para a escola e voltava para brincar com a mamãe depois do almoço. E não era mais a mesma coisa, ela parecia sempre cansada, não conseguia me alcançar mais nas corridas, encostava no sofá e dormia.

Às vezes quando estávamos jantando saía correndo pro banheiro e blunn, colocava a comida toda pra fora. Eu perguntava pra ela que é que tinha acontecido e ela falava que tinha um bebezinho crescendo na barriga dela e que até o corpo entender isso, ele ficava meio maluco mesmo e às vezes ela se sentia mal e vomitava. Confesso que fiquei preocupado. Não sabia que um bebê podia fazer isso com a mamãe. Ainda mais um bebê que eu nem conseguia ver. Que que é isso! Isso não se faz com a mamãe! Hum!

Ampliando o olhar

Giphy

Outro dia fui com a mamãe e o papai num lugar diferente. O papai falou que a gente ia ver uma espécie de filme. Tava até olhando pra ver se achava o moço que vendia pipoca!

Apagaram a luz e deixaram só uma luzinha como se fosse um abajur e então um cara vestido de branco que parecia um médico, passou um gel de cabelo gelado na barriga da mamãe e uma maquininha de supermercado, daquelas que leem os produtos que a gente compra, sabe, e umas formas começaram a passar na TV.

Perguntei pro papai que filme era aquele. Ele sorriu e disse que íamos ver o meu irmãozinho que estava crescendo na barriga da mamãe. No começo não consegui ver nada, só umas manchas. Dai vi um pé, uma cabeça e um corpinho.

De repente começou a fazer um barulho. Que é isso? perguntei. Mamãe disse com um pinguinho no olho: é o coração do seu irmãozinho batendo dentro da mamãe! Opa! Ai arrepiei! Não sabia que dava pra ouvir o coração do bebê dentro da mamãe! E então eu falei: você tem dois corações agora?! E ela disse com mais pinguinhos no olho: É… eu tenho dois corações!

Como nascem os bebês

Foto: Fafá conta histórias

O tempo foi passando.
Enquanto eu esperava o papai me buscar na escola, vi que a mamãe do Dudu tava com um bebê no colo. Perguntei pra ele se aquele bebê era dele. E ele disse que sim, que era a irmãzinha dele que tinha nascido há pouco tempo. Daí eu pensei: caramba! Também tenho um bebê que vai nascer! Será que demora isso? Será que é igual os peixinhos que nascem no aquário lá de casa?

Quando cheguei em casa percebi que a barriga da mamãe tinha crescido tanto que parecia que ela tinha comido uma melancia inteira!

Perguntei se a mamãe ia botar um ovo e o meu bebê ia nascer igual os peixinhos do aquário. Ela achou aquilo engraçado e disse que não, que as pessoas não botam ovos. Os bebês nasciam de um jeito diferente. Ah e por falar nisso trouxe um livrinho novo pra você que fala sobre o nascimento de um bebê, ela falou.

Perguntei pra ela: se o meu irmãozinho tava ali na barriga dela e se eu podia ouvir o coração dele batendo, será que ele podia ouvir a nossa voz? E ela respondeu que sim! Dai eu falei: ah então acho que nós dois vamos gostar desse livro, assim ele já vai aprendendo o caminho pra conhecer a gente aqui fora!

A mamãe foi lendo o livro pra mim e enquanto eu perguntava algumas coisas ela contou que o jeito natural de um bebê nascer é pela vagina. Falou também que para o corpo se abrir dessa forma pode doer bastante e saber de algumas posições e formas de deixar a dor menos doída igual a assoprar um ralado no joelho, sabe, essas dores diminuem. Falou também que quando alguma coisa não vai muito bem há outro jeito do bebê nascer que é pela barriga. O médico corta a barriga e tira o bebê de dentro da mamãe.

Achei tudo aquilo muito interiante! (=interessante)
Não via a hora de conhecer o meu irmãozinho!

Nascendo em casa

Foto: Soprofotografia

A mamãe falou que ela queria muito que o bebê nascesse em casa porque ela não gostava de hospitais. Dai ela comprou um tantão de coisas para deixar tudo pronto.

Ela contou que chegariam quatro pessoas para ajudá-la no nascimento do bebê: duas doulas e duas parteiras. Perguntei se eu conhecia alguma delas e ela disse que sim! Que a tia Lu era doula e ficaria comigo! Eu gostei bastante porque a tia Lu era bem engraçada e divertida e brincava um montão!

A mamãe contou como ia ser tudo: que quando meu bebê desse sinais de que estava querendo conhecer a gente, ela ia chamar essas pessoas, o papai ia encher a banheira, a doula ia cortar o cordão com um maçarico e a gente ia comer chocolate!

A dança dos hormônios

Giphy

Era domingo e a mamãe não parava. Ficava andando de um lado para o outro e às vezes ela se abaixava e parecia que tava cantando. Achei meio esquisito aquilo. Perguntei o que tava acontecendo e ela disse que meu irmãozinho tava querendo conhecer a gente do lado de fora da barriga.

Ah! Fiquei tão feliz! Não via a hora de sentir o cheirinho dele!

O papai tinha pego a banheira toda dobrada e deixado ela cheia. Disse que quando fosse a hora certa ia encher de água quentinha que a mamãe queria que o bebê nascesse dentro da água. Uau! Pensei que seria bem gostoso porque eu adorava ficar brincando na banheirinha enquanto tomava um banho bem quentinho com a mamãe no chuveiro!

Duas moças chegaram: uma era a parteira e a outra era a doula, a tia Lu. Ah! Adorei ver a tia Lu porque sabia que a gente ia se divertir bastante!

Outras pessoas chegaram depois, uma era a doula e a outra, a outra parteira. A doula parecia uma bruxa: tirou um monte de vidrinhos da bolsa, iguais as bolinhas que a mamãe me dá para não ficar doente (homeopatia). Ela preparou umas canecas com essas bolinhas e levou para a mamãe. Levou umas maçãs cortadinhas para ela comer também.

O tempo foi passando

Foto: Johannes Plenio no Pexels

Fui brincar com a tia Lu lá fora. Brincamos de fazer comidinha com massinha e farinha! Brincamos de balançar na rede enquanto ela contava uma história de um barquinho azul que era eu e que ia atravessar um mar de águas misteriosas enquanto chegava uma tempestade! E quando vinha o trovão, ela me  chacoalhava na rede e eu morria de rir até a barriga doer!

Às vezes eu ouvia a mamãe gritando e a tia Lu falava que a mamãe tava com um pouquinho de dor porque a vagina estava abrindo para meu irmãozinho nascer e que estava tudo bem. Que as pessoas que cuidavam da mamãe iam deixar essa dor menos forte. A gente ia ver a mamãe de vez em quando para saber como ela estava. Tinha hora que ela estava sentada numa bola, cantando, outra ela estava no chuveiro e até de ponta cabeça! (Spinning Babies).

Enquanto a gente brincava, a tia Lu e eu tomamos lanche e depois fomos jantar. Ajudei ela a preparar a comida, dessa vez de verdade!
Tava tão quente que quis comer lá fora na rede. Ela leu uma história para mim.

Quando a mamãe desceu do quarto para a sala, a tia Lu me chamou para colocarmos as velas, umas coisinhas que a mamãe tinha ganhado das amigas num outro dia que elas tinham vindo aqui em casa (chá de bençãos) como uma concha e um vasinho com dois bonequinhos dentro. Tinha umas coisas escritas também que a tia pendurou na janela. Ela ligou umas músicas para a mamãe ouvir.

Quando ela entrou na banheira fomos pertinho dela. O papai estava dentro da banheira e me deu a mão para entrar. Eu não quis. Fiquei de fora olhando pertinho da tia Lu.

De repente vi aparecer a cabeça do meu irmãozinho e depois ele nasceu todinho! Uma das parteiras colocou ele no colo da mamãe. Nossa! Senti tudo misturado e comecei a chorar, a tremer e a gritar.

Tia Lu me pegou no colo, me abraçou, falou que sabia que tinha acontecido muito coisa e que ela estava ali comigo, que meu irmãozinho tinha nascido e a mamãe estava bem. O papai veio ficar junto. A outra moça que parecia uma bruxa me deu umas bolinhas para me acalmar (homeopatia). Tia Lu me convidou para ir tomar banho e eu fui.

Depois que o banho acabou, sai correndo porque queria ver meu bebê! Cheguei pertinho da mamãe que estava deitada no sofá com ele e consegui sentir o cheirinho. Ah! Como ele era quentinho! E pequeno!

A mamãe ainda sentiu algumas dores e uma das parteiras pediu para ela se sentar falando que a placenta precisava nascer. Quando a mamãe sentou, pluft! A placenta nasceu!

Depois de um tempo a doula colocou fogo no cordão (fogo para transmutar e levar o calor para dentro do corpo do bebê) enquanto ela e a tia Lu seguravam e daí ele partiu. Tum! Metade com o bebê e metade com a placenta.

A mamãe tava morrendo de fome! Pediu pro papai comprar um lanche de carne. Depois a gente comeu chocolate! Hum! Que delícia!

Um novo começo

Foto: Jah Jean-Noel no Pexels

Eu tava bem cansado e pedi pro papai me levar dar uma volta de carro pra dormir. Pedi pra tia Lu vir comigo. Perguntei pra tia Lu se a mamãe estava com dor. Ela disse que não, que depois que o bebê nascia a dor parava. Perguntei se a mamãe ia ficar de olho no meu irmãozinho. E ela disse que sim, que a mamãe ficaria de olho nele. Ela falou que eu podia descansar que estava tudo bem e fez carinho na minha cabeça e me deu o dedo dela para segurar. Falei que eu ficaria de olho nele também, fechei os olhos e dormir.

Essa foi minha percepção do olhar de uma menininha sobre o nascimento de sua irmã e pinceladas da percepção do meu filho mais velho na jornada do nascimento de sua irmã. Se olharmos juntos, o meu olhar pode melhorar o seu, e o seu olhar, pode melhorar o meu.

Venha fazer parte dessa teia de conexão que expande a cada dia aqui! Juntos podemos melhorar o olhar do mundo!

Referências Bibliográficas

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Two steps plan to prepare your older child from a new brother or sister. Hand in Hand Parenting;

Gogô, de onde vêm os bebês? Autora: Caroline Arcari. Ilustradora: Isabela Santos. ISBN: 978-85-924682-1-7;

Nasce um bebê naturalmente. Autora: Naoli Vinaver. Edição trilíngue: português, espanhol, inglês. ISBN 978-85-67695-01-3. 72 páginas;

Os cuidados imediatos prestados ao recém-nascido e a promoção do vínculo mãe-bebê. Cruz Daniela Carvalho dos Santos, Sumam Natália de Simoni, Spíndola Thelma. (autores). Rev. esc. enferm. USP [Internet]. 2007 Dec [cited 2019 Nov 12] ; 41( 4 ): 690-697;

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