Um guia completo sobre os profissionais da assistência ao parto

  • Hoje em dia se fala muito sobre parto humanizado, é um dos assuntos mais em pauta nas rodas de gestantes. Entretanto, pouco se fala sobre o que ele é exatamente. O parto em alguns hospitais é vendido como um produto:

Venha parir no hospital X, pois temos salas com banheira e banqueta! (Mas ainda fazemos episiotomia e todo pacote de intervenções – história verídica!)

Pra exemplificar, olhe este diálogo que tive com uma amiga

(Eu) – “E aí Fulana, já pensou sobre seu parto?”
(Amiga) – “Eu penso em tentar o parto normal, mas não quero nada desse negócio de humanizado não!”
(Eu com cara de espanto) -“Mas você sabe o que é parto humanizado?”

E com toda paciência do mundo explico o que seria esse “tal parto humanizado”. Eu, que naquela altura do campeonato, já tinha uma doula e falava aos quatro cantos como ela era maravilhosa e ainda iria contratar uma equipe para o parto, via na expressão dela o quanto ela estava me achando uma doida por ter plano de saúde e querer um parto domiciliar.

Mas afinal, o que é necessário para um parto humanizado? (Imagem do Google)

– Precisa ser na banheira ou chuveiro?
NÃO.

– Precisa ser em casa?
NÃO, o local de nascimento deve ser de livre escolha e onde a parturiente se sentir mais segura, como preconiza a OMS.

– Precisa praticar yoga, pilates ou qualquer outro exercício?
NÃO, exercícios são ótimos para qualquer pessoa e em qualquer fase da vida, porém não é pré-requisito.

– Precisa ser vegana?
NÃO.

– Precisa ter doula?
Vou contar minha experiência pessoal: eu tive uma doula e ela foi essencial para o meu empoderamento para o parto. Mas uma gestante pode parir sem uma doula? Claro, afinal o parto é dela. 😉

– Mas tem analgesia?
Se você desejar, por que não?

Parto humanizado não se trata de um parto e sua características

Mas sim de respeitar a seguinte tríade:

  1. Medicina baseada em evidências: não é a medicina baseada em achismos ou estudos desatualizados. Um profissional que presta assistência ao parto (vamos falar sobre eles mais a frente) precisa estar em constante atualização.
  2. Protagonismo da mulher: respeitar suas decisões, acolher seus medos, acreditar que o parto é um evento fisiológico e que ela é capaz de parir. Respeitar a lei do acompanhante, recriar um ambiente seguro e acolhedor, onde a mulher possa se entregar a partolândia.
  3. Respeito ao recém-nascido: promover o contato pele a pele entre mãe e bebê na primeira hora de vida, facilitando assim a amamentação e criação do vínculo entre os dois. Caso o bebê nasça bem e sem complicações, o profissional de saúde pode realizar o primeiro atendimento ao bebê no colo da mãe tranquilamente. Seu cordão umbilical deverá ser cortado apenas quando parar de pulsar, assim o bebê receberá todo seu sangue.

Humanizar a assistência ao parto significa respeitar o protagonismo da mulher, a fisiologia do parto, o tempo do trabalho de parto, os sentimentos da mulher e de toda a família envolvida com o nascimento daquele bebê, a saúde da mãe e do bebê em todos os momentos, pautado sempre na medicina baseada em evidências (com condutas e procedimentos cujos benefícios sejam cientificamente comprovados). A mulher deverá parir onde sentir mais segura, seja em casa, no hospital ou casa de parto.

Novas diretrizes da OMS para parto

A Organização Mundial da Saúde (OMS) emitiu em 15 de fevereiro de 2018 as novas diretrizes para estabelecer padrões globais de atendimento para as gestantes e reduzir intervenções médicas desnecessárias, onde colocou em cheque procedimentos que foram realizamos durante décadas. Para a OMS, muitas mulheres preferem um parto normal e confiam em seus corpos para dar à luz sem intervenção médica desnecessária. E mesmo quando há alguma intervenção necessária, é preciso informar as mulheres e deixar que elas decidam o que fazer.

Quem é quem no cenário do parto

Equipe prestando assistência ao nascimento.
Créditos: Inspired Photography (Flickr)

Mas e quanto aos profissionais que estão capacitados para prestar assistência ao parto, você sabe quem são? Existem vários profissionais ligados à gestação e ao parto, mas nem toda gestante é atendida por todos eles, até porque existem diferentes modelos de atendimento obstétrico.

  • Médico obstetra: é o profissional mais conhecido que presta assistência ao parto. Pode atuar em hospitais, clínicas ou em domicílio. Também é o responsável pelo pré-natal da gestante, mas nem sempre participa de todo o trabalho de parto, deixando este acompanhamento muitas vezes com as enfermeiras obstetra.
  • Médico pediatra neonatologista: realiza o primeiro atendimento ao bebê logo no nascimento (peso, medidas, primeiros exames e alguns cuidados quando necessário). A grande maioria dos bebês nasce super bem e os primeiros procedimentos podem ser realizados no colo de sua mãe.
  • Médico anestesista: profissional encarregado de administrar anestesia, caso seja necessário, tanto em partos normais quanto em cesáreas.
  • Enfermeira obstetra: profissional formada em enfermagem com especialização em obstetrícia. Está apta para assistir somente ao parto normal. Nas casas de parto ela é a responsável por prestar assistência a mãe e ao recém-nascido (se necessário, é realizada uma transferência para um hospital de referência). É capacitada para realizar pré-natal de risco habitual/baixo risco e atender a partos domiciliares. Uma prática que está muito comum hoje em dia é o acompanhamento da evolução do trabalho de parto até o momento da internação no hospital (avaliação do bem-estar da mãe e bebê através de exames como ausculta fetal, progressão de dilatação do colo do útero, progressão da posição e descida do bebê, pressão arterial materna e outros), afim de evitar possíveis intervenções desnecessárias.
  • Obstetriz: sua função é a mesma da enfermeira obstetra. O que difere é sua formação, pois a obstetriz se forma pelo curso de Obstetrícia (o único no Brasil é oferecido pela USP em São Paulo/SP).
  • Parteira tradicional: são mulheres que aprenderam seu ofício na prática. Geralmente são mais velhas e experientes, responsáveis por partos domiciliares em áreas rurais de difícil acesso.  São mais atuantes mais nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste.
  • Enfermeira: estão presentes nos partos hospitalares e auxiliam os médicos, fornecendo materiais, realizando procedimentos conforme demanda entre outras funções.
  • Auxiliar de enfermagem: atua dentro do hospital e auxilia médicos e enfermeiros.
  • Instrumentador cirúrgico: atuam especialmente durante a cesárea e são responsáveis pela preparação e entrega dos instrumentos ao médico conforme solicitado.
  • Doula: Antes do parto ela orienta o casal sobre o que esperar do parto e pós-parto, explica os procedimentos comuns e ajuda a mulher a se preparar, física e emocionalmente para o parto. Durante o trabalho parto ela dá todo suporte físico e emocional que a mulher precisa, utilizando de métodos não-farmacológicos para alívio da dor, diferentes posições, técnicas de respiração, relaxamento, palavras de incentivo. Após o parto ela faz visitas à nova família, oferecendo apoio para o período de pós-parto, especialmente em relação à amamentação e cuidados com o bebê.

Aqui estamos falando de uma assistência multidisciplinar, onde cada profissional tem sua responsabilidade e competências, esse seria o cenário ideal para o parto. A assistência pré-natal compreende um conjunto de procedimentos que objetiva prevenir, diagnosticar e tratar eventos indesejáveis à gestação, ao parto e ao recém-nascido.

 

Leia mais em:

Comunicado da OMS sobre as novas diretrizes para o parto

Revisão sistemática sobre parto domiciliar, por Thaís Peloggia Cursino

Estudando parto domiciliar, por Melania Amorim

Estudando episiotomia, por Melania Amorim

Uma resposta para “Um guia completo sobre os profissionais da assistência ao parto”

  1. O erro da matéria está em que enfermeiros auxiliam médicos e que técnicos de enfermagem auxiliam médicos.

    O enfermeiro faz seu trabalho junto ao médico e qualquer outro profissional de ensino superior e o técnico de enfermagem responde ao enfermeiro, que é o líder da equipe formada por técnicos.

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