Quem teve cesárea pode ter parto normal

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Sim, você pode! É possível ter um VBAC (Vaginal Birth After Cesarean ou parto vaginal após cesárea, na sigla em inglês)! Depois que um bebê nasce por cesariana, a mãe costuma ouvir que “uma vez cesárea, sempre cesárea”. A medicina baseada em evidências científicas vem descortinando mitos como este e isso não é [mais] uma verdade absoluta. Mulheres saudáveis que desejam ter outro filho após passar por uma ou mais cesáreas podem (e devem) buscar um parto normal.

As gestações após cesarianas costumam ser classificadas como de alto risco para um monitoramento mais cauteloso da mãe e da criança, mas isso não quer dizer que o novo parto tem que ser cirúrgico. Lembrando que não existe gravidez sem risco, existem apenas as de risco habitual e as de alto risco.

Conheça cinco razões para acreditar que ter um parto normal após cesárea é possível, sim!

1. Você é a protagonista do seu parto 

Os benefícios de um parto normal para a mãe e o bebê superam os riscos de uma nova cesariana. Foto: ebonycurtis_/Instagram

A primeira coisa que você precisa fazer para garantir um parto feliz é confiar no seu corpo e em você mesma. Não existe nada que nos dê mais energia para buscar algo do que acreditar no que você está buscando. Se informe, faça um pré-natal de qualidade com uma equipe que você confia, descubra seus medos para poder lutar contra eles e vencê-los!

Ninguém pode garantir que o parto seguinte a uma cesárea será um parto normal maravilhoso. Ninguém. Nem médico, nem doula, nem hospital, nem parteira. Quem disser que garante, está mentindo. Existem coisas que acontecem durante a gravidez e o trabalho de parto que podem alterar o rumo dos seus planos. São os momentos do divino, do mistério. E nós não podemos controlar o futuro. Por isso que é importante saber quais são as reais indicações de cesárea e em que momentos ela pode ser sua aliada. 

Uma mulher empoderada que passa por uma experiência satisfatória de parto normal após cesárea é uma mulher que desabrocha, que explode numa espécie de descoberta da sua própria potencialidade. Uma mulher que vai para uma cesárea necessária depois de ter se preparado para ter um parto normal, é uma mulher que celebra o nascimento do filho, que honra a cirurgia bem indicada.

2. Por que as pessoas costumam ter medo de parto normal após cesárea? 

Cesariana em T invertido. Foto: Biblioteca Canva

Antigamente, bem antigamente, até as cesarianas eletivas eram feitas na vertical, com corte em formato de T invertido. Em alguns países, como Japão e China, ainda se utiliza este modelo. No Brasil, o procedimento ficou reservado para situações emergenciais extremas, como parto de prematuros com placenta prévia ou em casos de descolamento de placenta, por exemplo. Esse tipo de corte traz mais riscos às futuras gestações e partos.

Com o corte da cirurgia sendo feito na região inferior do útero, os riscos para uma nova gestação bastante diminuíram. O local tem melhor cicatrização e quanto maior a distância da cirurgia para o novo parto, menores os riscos.

Um parto normal após cesárea continua sendo um parto normal. Quando a mulher e a criança são respeitadas – o que deveria acontecer sempre, mas, infelizmente, não é a realidade da assistência em saúde no Brasil – os benefícios são enormes. Entre eles, podemos citar menor risco de morte materna e neonatal, menor tempo de recuperação da mãe, recuperação mais fisiológica e natural, menor incidência de problemas respiratórios e doenças no pulmão, menor risco de alergias, prematuridade iatrogênica. 

Além disso, o trabalho de parto normal pode ajudar a melhorar a experiência com a amamentação e aumentar a sensação de satisfação com o parto. É a chance de curar o que não ficou bem resolvido na gestação anterior.

3. O que os números de te dizem? 

Partos normais após cesáreas são seguros e possíveis. Foto: @hermaris.anchoreddiary/Instagram
Partos normais após cesáreas são seguros e possíveis. Foto: @hermaris.anchoreddiary/Instagram

Uma das complicações que mais assustam as mulheres com cesárea anterior é a ruptura uterina, uma complicação obstétrica rara. O rompimento de uma ou mais paredes do útero também pode acontecer durante a gravidez, embora seja mais comum após o início do trabalho de parto. 

As chances de complicações como a ruptura uterina durante o trabalho de parto são muito baixas. Estima-se que o risco fique entre 0,2% e 0,6%. Caso o trabalho de parto aconteça após a segunda cesárea, o risco oscila para 1,8%. Após a terceira cesárea, no entanto, as chances permanecem as mesmas, não aumentam. Em mulheres sem cesárea prévia, esse número gira em torno de 0,02%

O uso de ocitocina ou de misoprostol durante o trabalho de parto pode intensificar as contrações e diminuir o intervalo, o que aumenta a possibilidade de rompimento. As prostaglandinas, inclusive, são contra indicadas. A realização da manobras de Kristeller (quando alguém da equipe médica exerce pressão no fundo do útero), outras cicatrizes no útero e choques e traumas externos na barriga também podem causar uma ruptura uterina. 

Mesmo sendo uma condição grave, os riscos de uma ruptura uterina são incrivelmente baixos e não superam os benefícios do trabalho de parto e do nascimento por via vaginal. Em caso de ruptura, deve ser realizada uma cesárea de emergência, que é bem indicada e bem-vinda. Ou seja, “o máximo” que pode acontecer com quem tenta um parto normal após cesárea prévia é precisar de uma cesárea com indicação real. 

Repetir cesarianas em sequência também pode ser um risco. O aumento no número de cirurgias pode causar problemas na implantação ou na saída das placentas em gestações futuras. O risco de placenta prévia total ou parcial quando a placenta se implanta na saída do colo do útero e dificulta ou impede a saída do bebê antes dela, sobe 10 vezes e passa de 0,5% para 5% em mulheres com cesáreas anteriores.

Já os casos de placenta acreta, quando ela se fixa em uma aderência na parede uterina, passa de 3,3% em mulheres sem cesáreas prévias para 11% com uma cesárea anterior, sobe para 40% com duas cesáreas anteriores e para 61% após três ou mais cirurgias. A retirada de uma placenta acreta pode levar a lesões abdominais, aumenta o risco de hemorragia e de histerectomia (retirada do útero).

4. Sua equipe pode fazer toda diferença 

Dorothy é uma das heroínas mais fabulosas da literatura infanto-juvenil. Toda a força está dentro dela, dentro de você!

Se você está em busca de um parto normal após uma cesárea, procure um equipe que acredite e incentive o seu VBAC. Estar ao lado de quem está atualizado, te apoia e respeita as tuas decisões é um tijolinho amarelo a mais na estrada que levará a menina Doroty ao Mágico de Oz. Dorothy neste no caso é você, tcharam! Mas, acredite, o médico não é o mágico e não existe mágica quando o assunto é parto. Desculpa aí pelo spoiller. 

Nessa estrada, você é a Dorothy e a equipe que vai estar ao seu lado são os amigos dela, o leão, o espantalho, o menino de lata. Eles precisam estar ao seu lado para lutar contra as adversidades e não contra você nas adversidades. Ou seja, procure alguém que te explique os riscos e benefícios do trabalho de parto após uma cesariana e não um obstetra que te aterrorize com informações ultrapassadas ou mitos. 

Na hora de pesquisar a equipe, leve em conta a atualização deles em relação às evidências científicas, quais os hospitais que estão disponíveis, como será feito o atendimento, qual a disponibilidade e o preço dessa equipe. Uma equipe dedicada exclusivamente a você, seja um parto domiciliar ou hospitalar, pode sim tornar tudo mais suave, mas não é definitivo. Lembre-se, você é a dona do seu parto, mas eventos adversos podem acontecer. Você confia na equipe que escolheu?

Se você pretende parir com plantonista, seja no SUS ou em hospital particular, procure conhecer as unidades de saúde da sua cidade. Visite, se ambiente, descubra as rotas mais fáceis para chegar, converse com outras mulheres que tiveram bebês lá, vá ao berçário, pergunte quais são os cuidados com o bebê após o nascimento. Se tiver mais de uma opção de hospital, maternidade ou casa de saúde, coloque os prós e os contras de cada uma na balança.

Seja qual for a sua escolha, leve consigo o seu plano de parto. Nele você pode expor suas referências, seus desejos, suas vontades. Um plano de parto realista e objetivo é mais fácil de ser seguido, principalmente se o trabalho de parto estiver acontecendo com uma equipe de plantão que você nunca viu na vida.

5. Histórias bem-sucedidas podem inspirar a sua! 

Mônica e Marina se conhecendo após um VBAC transformador. Foto cedida e autorizada pela família

Se você só conhece histórias de mulheres que tiveram cesáreas eletivas após a primeira cesariana, você terá mais dificuldades de se visualizar num parto normal após cesárea. Histórias de superação não vão garantir o seu VBAC, mas podem te encher de inspiração para lutar pelo seu.

Na minha vivência de doula e/ou da época de gestante, conheci muitos casos lindos. Compartilho com vocês três deles, dois domiciliares e um hospitalar.

Laura Nascimento já era mãe de Flora quando Bela veio ao mundo. A pequena chegou pouco depois da gravidez completar 36 semanas e com intervalo de 1 ano e 11 meses da irmã mais velha. A primeira chegou por cesariana e a caçula nasceu de parto natural domiciliar planejado

Para Laura, a experiência foi transformadora. “Meu maior medo era o rompimento do útero. E de não aguentar o trabalho de parto e ir para o hospital por conta disso. Na última consulta com o obstetra, ele falou que não faria normal nem me deixaria entrar em trabalho de parto por conta dos riscos de rompimento pelo curto prazo entre uma gestação e outra. Eu estava com com 35 semanas e ele marcou a cesárea”. Com medo, Laura procurou a parteira que estava acompanhando seu pré-natal, que a aconselhou a se informar das probabilidades e riscos. “Descobri que eles são baixíssimos e raros, menos de 1%”, relembra, aliviada. “Dias depois, com 36 semanas, Belinha veio pelas mãos da parteira aqui em casa num trabalho de parto super rápido e suave. Pelo momento forte e transformador em minha vida, hoje digo que queria que o trabalho de parto tivesse durado mais… sou grata eternamente às parteiras que conduziram com tanto amor o momento mais marcante de minha vida.”, conta.

Outra história que sempre me emociona é a da doula canceriana Malu Moraes, que também faz parte aqui da Casa da Doula. O primeiro filho nasceu de uma cesariana eletiva baseada no terrorismo e agendada pelo médico com a desculpa de que não haveria profissionais para atender a adolescente de 15 anos, caso o bebê nascesse durante o carnaval. A família, desesperada, cedeu. Passados 9 anos, Malu engravidou novamente e dessa vez procurou informações e forças para driblar o sistema e lutar por um parto respeitoso. “Em relação ao meu VBAC me sinto muito maravilhosa, muito poderosa! Não simplesmente por ter parido, mas por ter construído o caminho por uma boa assistência. Eu me senti respeitada, forte e acolhida”.

Malu sempre diz que a informação trouxe segurança nas escolhas. Se precisasse passar por uma cesariana novamente, ela afirma que estaria muito mais tranquila do que da primeira vez. “Por que ter medo do que é normal? Eu não tinha medo do parto e mesmo sem querer uma cesárea, eu sabia que ela poderia ser bem vinda. Eu confiava nas minhas escolhas e não estava ali cega. Eu sabia que os medos que me colocavam não era ter um parto normal após cesárea e sim ter uma nova gravidez após a cirurgia. Eu sabia que o parto normal continuava a melhor opção”. 

A jornada até o nascimento de Murilo não foi fácil, mas o bebê cancerianinho nasceu em casa, num parto assistido por equipe de parteiras e doulas. “A minha insegurança era o PD porque por mais que eu quisesse, não queria energia negativa da família (e eu moro com todo mundo nas casas coladas). Minha mãe e eu somos ligadas e ela me encheu de insegurança dizendo que sonhava que eu morreria no PD. Eu tive um trabalho pra ressignificar isso, colocar meus limites, separar o dos outros e o meu e comprei mesmo a luta pelo PD. Cheguei no dia pra dizer que ia ser PD”.

De acordo com o painel de monitoramento de nascidos vivos do Ministério da Saúde, no ano que Murilo nasceu, apenas 19.661 crianças nasceram em casa no Brasil. A maior parte delas, em partos não-planejados, seja por falta de assistência na cidade ou por que eram bebês apressados demais e não deu tempo de chegar no hospital. No caso de Murilo, o parto foi planejado para ser em casa, o que é seguro e recomendado para gestações de risco habitual. Ainda segundo o mapa do governo federal, Murilo foi o único bebê a nascer em casa no Recife em julho de 2017. 

Mônica Pereira é mãe de Mayara e Marina e teve um parto normal 16 anos após a primeira cesárea. Ela confessa que sentiu medo, mas não desistiu. “Tinha medo de ter que passar por outra cesariana, do bebê ter algum problema ou de nascer prematuro, do meu corpo não saber entrar em trabalhos e parto”, conta. No relato de parto postado nas redes sociais, Mônica afirma que sempre conta como foi o parto para que outras mulheres se inspirem e saibam que é possível superar as barreiras que as impedem de tentar.

A experiência do parto humanizado ajudou Mônica a ressignificar o que tinha vivido na primeira gestação.  “Eu carregava um sentimento de frustração muito grande em relação ao parto da minha primeira filha. Por saber que eu podia parir naturalmente e ter sido levada à uma série de violências. Então sempre levei esse parto para as rodas, todas sempre me ajudaram muito e me encorajaram para essa minha experiência de cura”. 

Relembrando o parto, ela diz que foi tudo diferente do que havia imaginado, mas exatamente como ela sonhava, com respeito e acolhimento. “Nosso amor chegou cheia de saúde e luz, foi tudo lindo e emocionante. Tivemos a melhor experiência que poderia ter. Com respeito, amor e cuidados, sem analgesia, sem intervenções desnecessárias. Pari em um hospital público e só tive alegria. Todas as mulheres e bebês merecem um parto e nascimento respeitosos. NÓS CONSEGUIMOS!” 

Se você conhece outras histórias de superação, quer conhecer meu trabalho ou saber mais sobre gestação, parto e pós-parto, me segue pelo @luizafalcaodoula no Instagram ou clique aqui para ter acesso a informações exclusivas.  

Referências:

 

A prova de trabalho de a via de parto em primíparas com uma cesárea anterior

http://www.scielo.br/pdf/ramb/v53n2/13.pdf

Risk of Uterine Rupture during Labor among Women with a Prior Cesarean Delivery

https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJM200107053450101

Painel de monitoramento de nascidos vivos no Brasil do Ministério da Saúde

http://svs.aids.gov.br/dantps/centrais-de-conteudos/paineis-de-monitoramento/natalidade/nascidos-vivos/

Vaginal birth after caesarean for women with three or more prior caesareans: assessing safety and success

https://obgyn.onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1111/j.1471-0528.2010.02498.x

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