O corpo dá os toques: a linha púrpura e a dilatação no trabalho de parto

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No meio do toque, tinha uma contração, tinha uma contração no meio do toque. Quando o toque é aquele exame vaginal para avaliar a abertura/dilatação do colo do útero, esse é o toque mais indesejado dentre todos os tipos de toques que podem haver em um parto. Apesar de servir para avaliar o estágio do apagamento do colo do útero, a sua consistência e o posicionamento da cabeça do bebê, é um exame muito desconfortável, física e emocionalmente para a mulher, criando tensões psicológicas e musculares, que não são nada favoráveis ao ato de parir. A avaliação da mundialmente anônima “linha púrpura” pode ser uma aliada e tanto na hora de fugir desses toques.

A linha Linha Púrpura pode ser roxa, arroxeada ou vermelho-escura. Foro: Dani Siqueira/Parteira Sincera

Desde que a Organização Mundial de Saúde mudou, em 2018, os parâmetros para avaliar se a mulher está evoluindo bem no trabalho de parto, se a dilatação está progredindo, as mulheres começaram a respirar parcialmente aliviadas. O exame cervical (toque), que antes deveria ser realizado a cada hora e apresentar diferença de pelo menos um centímetro, agora se recomenda que seja realizado com intervalo de pelo menos 4 horas entre as aferições, que devem ser realizadas pelo mínimo de profissionais possível. Além de dar mais conforto à parturiente, a nova regra quer diminuir o risco de infecção. Mas será que adiar o toque é suficiente?

Mãos ao alto!

Se todas as playlists de parto tivessem que incluir uma música realmente representativa sobre o sentimento das mulheres em relação ao toque vaginal e às intervenções e interferências feitas nos corpos delas para avaliar a progressão do trabalho de parto, a música “Será”, de Legião Urbana, venceria todas as disputas. Pausa poética pra dissertar sobre essa música:

“Tire suas mãos de mim, que eu não pertenço a você. Não é me dominando assim que você vai me entender. Eu posso estar sozinho, mas eu sei muito bem onde estou. Você pode até duvidar. Acho que isso não é amor. Será só imaginação? Será que nada vai acontecer? Será que é tudo isso em vão? Será que vamos conseguir vencer?”

É ou não é a melhor música pra partolândia ou para aquela hora que dá vontade de gritar: alto lá, tire essas mãos daí. Mas, e se o toque vaginal não fosse a única forma de avaliar se a mulher está ou não com dilatação? Seria perfeito! Na verdade, é perfeito, porque essa forma existe. Aplausos!!!

Apure os sentidos

Observar a evolução do trabalho de parto sem intervir é o melhor cenário. Foto: Agência Senado

A principal forma não invasiva para avaliar a progressão do trabalho de parto no intervalo entre os toques ou no caso de a mulher pedir para não receber o exame cervical de rotina, é a avaliação de outros sintomas apresentados pela mulher. A mudança no ritmo da movimentação, a escolha de movimentos mais específicos, a vocalização, o Polígono de Michaelis (aquela elevação entre os ossos do sacro) são sinais que ela está chegando à partolândia.

Linha púrpura

A linha púrpura avança junto com o trabalho de parto

Como o nome sugere, é uma sinalização vermelho-escura arroxeada que aparece entre as nádegas das mulheres durante o trabalho de parto e vai se intensificado, seja na cor ou no tamanho, quando a mulher chega na fase ativa. É uma espécie de “marca d’água” do lado de fora do corpo que indica algo que está acontecendo do lado de dentro. É a perfeição da máquina humana, do corpo feminino desenhado ao longo dos milênios para parir crianças naturalmente.

A linha púrpura começa próxima ao ânus (perianal) e vai subindo à medida que a dilatação cervical progride, no sentido da fissura interglútea (entre as nádegas) em direção à junção sacro-coccígea. A medida em centímetros da linha púrpura seria um espelho de quanto o colo do útero já dilatou. À medida que a apresentação fetal avança e o bebê vai passando pela pelve materna, a linha vai se descolorindo. Geralmente ela desaparece ao fim do trabalho de parto.

De acordo com uma pesquisa realizada por em um centro de parto normal de um hospital público de São Paulo entre junho de 2009 e janeiro de 2010, 56% das mulheres avaliadas apresentaram “linha púrpura” durante a fase ativa do trabalho de parto e houve correlação estatística significativa entre as medidas da dilatação e da “linha púrpura”. Esse percentual é de 75,3% em um outro estudo realizado em 2014 no Irã. Outro levantamento feito em 2017 em Santa Catarina mostrou um percentual de aparecimento da linha púrpura acima de 85%.

exame de toque
Linha Púrpura. Fonte: picbon.com

Em 22% das mulheres do estudo Paulista, a “linha púrpura” perdeu cor em pelo menos uma avaliação; mas não houve associação estatisticamente significante entre a presença da descoloração e a descida da cabeça fetal na bacia materna. O estudo realizado mostrou que 67,5% das mulheres brancas apresentaram a linha púrpura enquanto 47,2% das pardas e negras tiveram a mesma evolução. Para 81% das mulheres participantes da pesquisa a avaliação da linha púrpura não causou nenhum desconforto. Já para 96% das parturientes, a avaliação da linha púrpura causou muito menos desconforto que o exame de toque vaginal.

Para saber se a gestante tem ou não linha púrpura e se ela está alterando de cor, tonalidade e tamanho, a única coisa que é necessária é olhar a mulher, estar ao lado dela durante a progressão do trabalho de parto, prestar atenção aos sinais. A equipe médica, e de enfermagem, ou a parteira, podem fazer essa avaliação de maneira técnica, medindo o tamanho. O acompanhante e a doula, no entanto, terão mais proximidade com essa mulher durante as contrações e também vão poder observar se a linha está mais ou menos intensa.

Referências

Utilização da “linha púrpura” como método clínico auxiliar para avaliação da fase ativa do trabalho de parto http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1519-38292011000300012&script=sci_abstract&tlng=pt

Utilização da linha púrpura como método diagnóstico da dilatação cervical e altura da apresentação fetal em gestantes em tralho de parto https://www.riuni.unisul.br/bitstream/handle/12345/2753/Disserta%C3%A7%C3%A3o%20-%20Final%20-%20sem%20artigo.pdf?sequence=1&isAllowed=y

The Diagnostic Accuracy of Purple Line in Prediction of Labor Progress in Omolbanin Hospital, Iran https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4329935/

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