Desmistificando o Parto

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Num mundo em que falar sobre sexo ainda deixa algumas pessoas ruborizadas, onde as telenovelas e filmes ou romantizam o nascimento ou reproduzem violência obstétrica de forma naturalizada e a figura da cegonha ainda aparece – inclusive em campanhas e projetos relacionados ao ciclo gravídico-puerperal – como aquela que entrega os bebês, não é de surpreender que concepção, gravidez e parto estejam cercados por muita desinformação e…MITOS.

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Imagem Prefeitura do Rio de Janeiro

A incerteza, a impaciência de ver o rosto do bebê, a ignorância combinada com as inúmeras experiências contadas por outras mães fazem com que, especialmente as primíparas (as que vão parir pela primeira vez), acreditem fortemente em alguns desses mitos sobre o parto. E muitos deles são amplamente utilizados para empurrar uma cirurgia cesariana às gestantes ou submetê-las à violência obstétrica. Triste, né…

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Doulando no Pós parto imediato de Priscila Braga e Gabriel

Então, bora desmistificar alguns desses mitos sobre o parto! Separando os mitos da realidade a gente evita cair nas ciladas mais comuns que acabam por estragar uma experiência que tem tudo pra ser maravilhosa, como vocês podem ver pela carinha super feliz da moça poderosa na foto acima!

Mito 1: Parir é insuportavelmente doloroso

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Sobre a Dor                                                                                                                                                           Imagem UnsPlash

O mito mais comum sobre o parto e que faz muitas mulheres desistirem de parir, optando por marcarem uma cirurgia cesariana eletiva para sequer entrar em trabalho de parto é a dor. Não vou dizer que não dá pra parir sem sentir nada, nadica, nenhuma dor até porque existem até alguns relatos de parto orgásmico, inclusive. Mas, no geral, doí sim.  Porém, precisamos lembrar que cada pessoa tem uma percepção diferente da dor, é claro. A maior parte da dor do trabalho de parto é bastante tolerável, porque foi a natureza quem cuidou disso, faz parte da fisiologia do parto.

A sua dor é produzida pelo e para o seu próprio corpo. 

Mas, se você não confia nos esforços da natureza ou se acha que seus limites pra dor são muito baixos, lembre-se que você pode contar com vários métodos não-farmacológicos para alívio da dor, como os descritos nesse texto maravilhoso da Ketib Kelian. E você pode também fazer uso de analgesia (se acompanhada por uma boa equipe uma peridural bem indicada pode ser a alternativa final entre parir ou não parir) e ninguém vai te achar menas mãe por isso. Aliás, não existe mãezímetro para nada, que fique claro, obrigada, de nada.

Mito 2:  A mulher deve dar a luz deitada.

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Na vertical, por favor!                                                                                                                                      Imagem Canva

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A sociedade em geral assumiu a ideia de que as mulheres não devem se mover durante o trabalho de parto e devem parir em posição de litotomia (posição ginecológica, deitada com as pernas elevadas por apoios com ou sem estribos). Na verdade, não só podemos nos mover durante todo o trabalho de parto, como deveríamos fazê-lo sempre que sentirmos essa vontade.

A própria OMS recomenda a deambulação, o andar durante o trabalho de parto e que cada mulher decida livremente a posição que adotará durante o período expulsivo. A livre escolha da posição favorece a dilatação, as contrações, melhora a oxigenação para o bebê, reduz a dor, reduz o risco de laceração ao empurrar e, acima de tudo, ajuda a mulher a não se sentir doente, mas sim saudável e ativa.

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Deambulando Imagem Via evelinedias.com

Além disso, se posições verticais forem adotadas durante o trabalho de parto, a gravidade dá aquela forcinha para o bebê descer mais facilmente e os vasos sanguíneos que transportam sangue oxigenado não são comprimidos (como na posição dorsal ou deitada), diminuindo o risco de sofrimento fetal.

Por que, então, ainda disseminam esse mito do “deitar pra parir”? Por que imobilizam mulheres e as forçam a dar a luz dessa maneira?

Por duas razões: porque em movimento, o monitoramento contínuo da freqüência cardíaca do bebê é difícil. No entanto, as evidências científicas dizem que o uso do monitor fetal em partos de baixo risco é, por si só, um fator medicalizador no parto, pois aumenta as intervenções sem melhorar os resultados, razão pela qual a OMS recomenda o uso de procedimentos mais simples e menos invasivos sempre que possível, de modo que o monitoramento (que pode ser intermitente) não deve ser uma desculpa para imobilizar as mulheres. A segunda razão é porque a posição de litotomia favorece o controle das parturientes e a intervenção (desnecessária) da assistência médica, como a episiotomia, por exemplo, e coloca o profissional de saúde como o executor do parto e a mulher numa posição passiva, retirando dela o protagonismo do ato. Logo, queridas leitoras: dar à luz deitada é meus ovários! Escolham a posição que for a mais adequada pra vocês!

Mito 3: A bolsa rompeu, o bebê vai nascer imediatamente

O saco amniótico – também chamado de membrana ou bolsa de águas – é um saco que envolve seu bebê no útero durante a gestação. O saco contém o líquido amniótico que protege o bebê e dá a ele espaço para se movimentar, protegendo-o também de infecções. As paredes do saco amniótico são feitas por 2 membranas chamadas chorion e amnion. As 2 membranas estão presas em um único saco. Quando esse saco se rompe, é chamado de ruptura de membranas.

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Saco Amniótico                                                    Imagem PregMed.Org

Nas novelas, em geral, quando a bolsa rompe as pessoas se desesperam e o bebê nasce logo em seguida. Na vida real não é bem assim…rs. As membranas podem se romper antes de você entrar em trabalho de parto ou em algum momento durante o trabalho de parto. Em cerca de 1 em cada 10 mulheres, as membranas se rompem várias horas antes do início do trabalho de parto. Ou podem não se romper e o bebê nascer empelicado (estima-se que isso ocorra 1 vez a cada 80 mil nascimentos). E, embora raro, a bolsa de águas pode se romper até mesmo dias antes do início do trabalho de parto. Fato é que o rompimento da bolsa de águas não significa necessariamente um nascimento rápido. Quer saber mais sobre isso, se deleite com o texto super didático da  Karine Gaffuri aqui ó.

Mito 4: Não se deve comer ou beber nada durante o trabalho de parto.

Balela! Durante o trabalho de parto, é aconselhável se hidratar constantemente com água ou bebidas energéticas e sucos e comer moderadamente, porque o corpo precisa da energia dos alimentos para lidar com todo o trabalho físico que envolve o ato de parir. Os músculos, em qualquer circunstância, trabalham melhor se bem hidratados e com uma boa quantidade de carboidratos no corpo.

NHAC!                                                                                                                                                                   Imagem PopSugar.com

Este mito de restringir ou proibir a mulher de se alimentar está relacionado à anestesia. Antigamente, era comum a aplicação da anestesia geral para a realização de uma cesariana e os médicos recomendavam a suspensão da ingestão de qualquer alimento ou bebida, porque a pessoa perde o controle do sistema nervoso autônomo e dos esfíncteres quando totalmente anestesiada. Além disso, devido ao entorpecimento, os alimentos podem ser devolvidos e existe realmente o risco de aspiração ou afogamento. Porém hoje, a anestesia geral raramente é utilizada para realizar uma cesariana, a epidural é a escolha de praxe e ela entorpece apenas a parte inferior do corpo, não afetando o controle da deglutição.

Como aqui a gente trabalha com evidências científicas e informação sem tutela, deem uma lida nessa revisão da Cochrane, que conclui que

“Uma vez que as evidências não mostram benefícios ou malefícios, não existe justificativa para a restrição de líquidos ou alimentos no trabalho de parto para mulheres com baixo risco de complicações.”

Mito 5: Falta de dilatação ou passagem

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Imagem beingtheparent.com

Esse mito é trend topic nos grupos de apoio ao parto. Quem nunca ouviu uma mulher dizer que não pariu porque não dilatou?! Esse “diagnóstico” é geralmente usado para declarar uma mulher inapta para parir e levá-la a uma cirurgia cesariana. Basta a mulher estacionar numa determinada medida de dilatação, às vezes na fase latente inclusive, com 4 ou 5cm de dilatação para justificarem uma cirurgia cesariana com ‘não há descendência fetal ou alteração cervical (com contrações adequadas) por mais de 2 horas’.

Gente…Qualquer pessoa que passou algum tempo com mulheres em trabalho de parto pode atestar o fato de que as mulheres podem levar desde 4 horas até alguns dias de trabalho de parto e ainda assim alcançar um nascimento seguro, saudável e vaginal sem complicações ou intervenções. Na verdade, a mulher que vai parir pela primeira vez em média experimentará 18 horas de trabalho de parto. Inclusive a Organização MUndial de Saúde acabou de rever algumas orientações sobre a assistência obstétrica, conforme reportagem do Jornal O Globo, de 16/02/18, e entre elas está o fim daquele papo de a mulher ter que dilatar obrigatoriamente 1cm por hora.

“As pessoas são únicas, e algumas mulheres podem ter um tempo maior que outras e ainda assim terem um parto considerado normal”, afirmou Olufemi Oladapo, do Departamento de Saúde Reprodutiva da OMS.

 

É claro que existe a Desproporção Céfalo Pélvica, que é quando a pelve materna não permite a passagem da cabeça fetal. Porém uma DCP real só é diagnosticada durante o trabalho de parto. Não é possível diagnosticá-la antes da dilatação praticamente completa.

Então, vamos parar de colocar culpa nos ombros das mulheres, ou melhor no colo do útero das mulheres para justificar indevidamente e a torto e a direito esse alto índice de cesarianas que temos aqui no Brasil, ok?! Mais, muito mais sobre essa tal “falta de passagem” nesse texto aqui da minha conterrânea Suzzane Miranda.

Mito 6: Pra parir é preciso raspar os pelos pubianos e fazer enema

Durante um enema, um cateter é inserido em seu reto e um líquido de sabão ou soro fisiológico é injetado para esvaziar os intestinos de qualquer fezes. Tá achando o procedimento um pouco embaraçoso e desconfortável? E é. E muito! Enemas não são necessários do ponto de vista médico, mas são uma prática padrão em grande parte dos hospitais no Brasil, infelizmente.

Muitas mulheres se preocupam com a possibilidade de fazer cocô durante o trabalho de parto. E é bem possível que isso ocorra porque à medida que o bebê desce pelo canal de parto, o intestino é esmagado e o conteúdo dele geralmente é expelido. E ok, gente. Da série: todo mundo faz coco, ué. E quem dá assistência ao parto sabe disso e já está acostumado. Tem sempre uma gaze ou paninho ali por perto pra isso e a maioria das mulheres às vezes nem percebe que evacuou e nem que alguém limpou.

“Bebês saem e as pessoas fazem cocô na mesa de parto” Imagem Gif Buzzfeed – Grey’s Anatomy

Tricotomia ou raspagem dos pelos pubianos. Papo bem íntimo, né. Tem mulher que curte se depilar e tem mulher que não. Mas todo mundo sabe e conhece bem aquele peso da sociedade patriarcal que relaciona indevidamente pelos e sujeira, né…pois é, parece que a assistência obstétrica não fugiu muito dessa ideia e perpetua a tricotomia e limpeza da região pubiana da mulher que vai parir (tacá-lhe bezuntar a mulher com iodo) como procedimento de rotina. Polêmicas e pautas feministas à parte, a questão, dentro do âmbito do parto é: quais, se é que existem, os benefícios desse procedimento?

A Organização Mundial de Saúde (OMS) diz que não é indicado raspar os pelos pubianos ou administrar um enema antes do parto. Na verdade, estudos mostram que a depilação aumenta o risco de infecções na área perineal (espaço entre o ânus e os órgãos genitais), porque destrói os mecanismos naturais de defesa e causa lesões que podem infectar. Além disso, a depilação pode causar queimação e coceira no pós – parto, aquele período tranquilo (#sqn) que tudo que você não quer é um incômodo a mais .

Em Março de 2017 o Ministério da Saúde lançou diretrizes para diminuir procedimentos desnecessários na assistência ao parto e, entre outros, estão:

  • O enema (lavagem intestinal) não deve ser realizado de forma rotineira durante o trabalho de parto;
  • A tricotomia (raspagem dos pelos) pubiana e perineal não deve ser feita de forma rotineira durante o trabalho de parto

Deixo aqui abaixo os links que embasaram minhas reflexões para você checar, se aprofundar nas questões que mais te intrigaram e desmistificar os mitos do parto:

Sobre Parto Orgásmico – https://www.youtube.com/watch?v=93t0LPUZ05k

Sobre Métodos Não Farmacológicos para Alívio da Dor – http://blog.casadadoula.com.br/2018/02/06/metodos-naturais-para-alivio-da-dor-do-parto/

Recomendações da OMS no Atendimento ao Parto Normal – http://www.mimo-natura.pt/op/document/?co=11&h=b3d09

https://oglobo.globo.com/sociedade/saude/mulheres-devem-ter-mais-tempo-para-parto-ter-menos-intervencoes-medicas-diz-oms-22401000

Biologia dos anexos embrionários ou membranas – https://www.portaleducacao.com.br/conteudo/artigos/biologia/corion-e-amnion/66293

Sobre ruptura de membranas ou bolsa rota – http://blog.casadadoula.com.br/2018/02/05/bolsa-rota-minha-bolsa-rompeu-e-agora/

Conclusão da Cochrane sobre comer e beber durante o trabalho de parto – http://www.cochrane.org/pt/CD003930/comer-e-beber-durante-o-trabalho-de-parto

Sobre Falta de Passagem ou Dilatação – http://blog.casadadoula.com.br/2018/02/03/falta-de-passagem-para-o-parto-normal/

Conclusão da Cochrane sobre Enema – http://www.cochrane.org/CD000330/PREG_enemas-during-labour

Diretrizes do MS para diminuir procedimentos desnecessários na assistência ao parto – http://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2017-03/governo-lanca-diretrizes-para-reduzir-procedimentos-desnecessarios-no-parto

Então, é isso, bora desmistificar e seguir propagando informações com base em evidências científicas e recomendações dos órgãos oficiais de saúde. Compartilhem à vontade e me acompanhem também por aqui.

Um abraço,

Gabriella Santoro

 

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4 respostas para “Desmistificando o Parto”

  1. Texto extremamente esclarecedor em alguns pontos que eu achava procedimentos “de rotina” rsrs.. tenho pensado em engravidar e eu e meu marido temos lido muito sobre esse assunto. E pesquisando eu encontrei o blog, e está sendo fantástico desconstruir alguns conceitos sobre parto. Parabéns a todos os envolvidos!

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