Bolsa rota – Minha bolsa rompeu! E agora?

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Fonte: http://www.promovidaamae.com.br/o-que-e-bolsa-rota/#prettyPhoto

Você sabe o que significa ruptura de membranas? E o termo “bolsa rota”, você já ouviu? Não? Mas provavelmente você já deve ter visto acontecer em uma cena de novela ou filme: a gestante bela e formosa nos seus afazeres e de repente… PLOFT! Um rio se faz nos seus pés e começa a correria, com o bebê nascendo em questão de minutos. Bom, nesse momento eu dou um pause nessa cena pra te dizer que, nesse caso, raramente a vida imita a arte! Esse trabalho de parto pode iniciar na sequência sim, mas também pode levar até mesmo alguns dias para acontecer. E se você quer entender porque e o que fazer nessa hora: bingo! Esse post é pra você!

Primeiro vamos entender qual a função da bolsa amniótica: é uma membrana que envolve o feto durante toda a gestação, preenchida pelo líquido amniótico, protegendo-o de possíveis impactos. Também favorece as trocas do bebê – sim, ele faz suas eliminações nesse líquido, que é constantemente renovado.

Mas será que é mesmo a bolsa que rompeu?

A ruptura é muito mais comum durante o decorrer do trabalho de parto, mas em cerca de 10% dos casos pode ser o fator que o antecede. Também existem os casos onde a bolsa rompe e a gestante ainda levará algumas horas para sentir o início das contrações. Pode ser bem evidente (o aguaceiro é nítido e inconfundível) mas também pode ser discreta, a ponto inclusive de causar certa dúvida. Isso acontece porque a bolsa pode romper em duas regiões: no alto (fundo) do útero ou embaixo, próximo ao colo uterino. Pra facilitar, olhe aí a figura:

Fonte: http://infogen.org.mx/ruptura-o-rotura-prematura-de-membranas/

Assim, se for uma ruptura alta (o que na imagem corresponderia à região mais próxima aos pés do bebê), a saída do líquido será em pouca quantidade, geralmente associada à contração uterina. Nesses casos a mulher pode ficar em dúvida se foi mesmo a bolsa que rompeu, podendo confundir esse líquido com um possível aumento da secreção vaginal, o que é bem comum no final da gestação. A orientação nesses casos é fazer um teste simples: após esvaziar bem a bexiga, peço para a gestante forrar o chão com um pouco de papel higiênico, agachar sobre o papel e tossir várias vezes. O aumento da pressão abdominal fará parte do líquido escoar para fora, constatando nesse caso a ruptura das membranas.

Já se for uma ruptura baixa (próximo de onde está a cabeça do bebê), a quantidade de líquido será maior, até mesmo em função de a gravidade favorecer a saída desse líquido. Nesses casos é muito comum a gestante contar que ouviu um “barulho estranho” vindo da vagina, semelhante a um abrir de garrafa – confesso que queria ouvir, ainda não tive a honra! – e  quando foi levantar pra ver o que era, parecia não controlar um possível xixi – que não era xixi, afinal. Também é importante avaliar a cor desse líquido nesse momento: quanto mais clarinho estiver, parecido com água mesmo, melhor. Líquido amniótico acastanhado ou esverdeado sugere presença de mecônio – o bebê fez cocô ali – e é interessante que nesse momento o bebê seja avaliado. Não é motivo para pânico, o mecônio pode ser única e simplesmente um sinal de amadurecimento intestinal, se ele está mantendo batimentos cardíacos bons. Por isso da necessidade da avaliação clínica.

 

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Ok, é a bolsa. E agora, o que fazer?

Quanto mais avançada a gestação, menor o intervalo entre a ruptura das membranas e o trabalho de parto. Após as 37 semanas, mais de 90% das mulheres com ruptura prematura das membranas iniciam o trabalho de parto em 24 h; com 32 a 34 semanas, esse intervalo é em média de 4 dias.

A conduta vai depender principalmente do tempo de gestação, mas já adianto que não é, quando isolada, indicação de cesariana:

– Gestações com 34 semanas ou menos: o trabalho de parto é adiado ao máximo, com repouso absoluto e medicação para inibir as contrações uterinas e possível aplicação de antibiótico para evitar infecções – falo disso novamente mais adiante, ok? Se for inferior a 32 semanas, também há aplicação de corticoides para acelerar o amadurecimento dos pulmões do bebê. Nesse caso, é possível que a gestante fique internada para ser monitorada.

– Gestações a partir de 34 semanas: pode-se aguardar a evolução do parto naturalmente ou iniciar a indução com medicamentos caso a gestante apresente febre, aumento da frequência cardíaca ou qualquer outro sinal que sugira uma infecção.

– Caso a gestação esteja acima de 37 semanas (e esse post é direcionado a você!), onde o bebê é considerado “pronto” e a mãe opte por esperar o trabalho de parto espontâneo, alguns cuidados são sugeridos – no caso de líquido amniótico claro/incolor:

  • Verificar a temperatura corporal a cada 4 horas;
  • Aumentar a ingestão de água para repor o líquido que está saindo (nesse dia é água mesmo, ok? Não é chá, nem café, nem suco);
  • Ficar atenta aos movimentos do bebê – se está mexendo seis vezes ou mais em um intervalo de uma hora, após as refeições, tudo certo. Se quiser saber mais, clique aqui;
  • Evitar exames de toque vaginal, reduzindo as chances de infecção – sim, você pode recusar o exame, ele é muito comum em ambiente hospitalar inclusive. Caso seja necessário, que seja feito com luvas estéreis;
  • Relaxar o máximo possível, para que as contrações – que gostam de agitar um corpo bem descansado – possam aparecer e desencadear o trabalho de parto. A doula nessa hora pode usar técnicas de relaxamento e visualização, massagens, para manter a gestante tranquila e favorecer o processo naturalmente.

O que é melhor: esperar o trabalho de parto natural ou induzir?

E se decido esperar, quanto tempo é considerado seguro? Essas são perguntas que não tem resposta absoluta, mas vamos aos fatos.

Entre todos os riscos nos casos de ruptura, certamente o mais temido é o risco de infecção neonatal ou materna. Referências atuais do Ministério da Saúde (clique aqui para acessar o Manual de Diretrizes para o Parto Normal, de 2017) apontam que o risco de infecção neonatal grave é de 1%, comparado com 0,5% para mulheres com membranas intactas ao início do trabalho de parto. Estudos da base de dados Cochrane mostram que independente da opção adotada (esperar ou induzir), não há aumento do risco de infecção para o bebê, sendo que nos casos onde houve a indução, houve menor taxa de internação dos bebês em uti neonatal. Para as mulheres que optaram pela indução, o índice de infecção materna foi menor, sem aumentar o número de cesarianas.

Assim, o ideal é que a mãe tenha informação suficiente sobre essas possibilidades, para que possa escolher qual caminho seguir, já que não há diferenças clínicas significativas entre eles.

Quanto tempo pode demorar?

Para se ter uma ideia do tempo médio: até 5 horas de bolsa rota, 50% das mulheres com gestação a termo (37 semanas ou mais) entram em trabalho de parto espontâneo; com 24 horas de bolsa rota, 70%; com 48 horas, 85% e em até 72 horas, 95% das mulheres.

A questão do tempo seguro para esperar entra na mesma questão: quanto mais tempo de bolsa rota, maior a chance de infecção. Mas não existe consenso: o Ministério da Saúde fala em induzir o parto após 24 horas da ruptura. Durante esse período o manual aconselha que a gestante fique internada e seja observada (com todos os cuidados que citei lá em cima) ou que evite relações sexuais caso decida esperar o trabalho de parto espontâneo em domicílio, realizando uma avaliação clínica a cada 24 horas ou a qualquer sinal de redução dos movimentos fetais do bebê (também com os mesmos cuidados já citados). Percebe comigo a ansiedade que isso pode causar né? Nessa hora a família ter essas informações também, para que não gerem mais pânico e apreensão na gestante é fundamental – e mesmo com todo esse know how é comum a gente ter de trabalhar essa questão com a família nesses casos.

Na visão acadêmica, quanto mais tempo esse bebê deixa de estar no ambiente fechado e estéril que era a bolsa íntegra, maior o risco de infecção. É nessa hora também que uma equipe ciente das evidências faz toda a diferença, monitorando mãe e bebê e mantendo a boa evolução do trabalho de parto, sem determinar um número específico de horas, enquanto estiverem bem clinicamente.

Sim, porque pode demorar! Pode demorar para o trabalho de parto engrenar espontaneamente, pode demorar mesmo induzindo (e pode acontecer do trabalho de parto começar a partir da ruptura também, um alívio pro coração!). Então a receita de sucesso é: monitoramento e atenção – de preferência com uma equipe que tenha paciência, independentemente do ambiente que estiver – em casa ou no hospital; manter a tranquilidade (use e abuse da informação e dos recursos que sua doula pode te oferecer; e do apoio da família, se sua opção foi contar a eles e tê-los ao seu lado) e esperar, que até hoje nenhum bebê se esqueceu de nascer, né minha gente?

Que você se fortaleça com essas informações e até a próxima!

 

Acompanhe no Facebok: https://www.facebook.com/doulakarinegaffuri/

 

Quer saber mais?

 

Ruptura das membranas antes do trabalho de parto (amniorrexe prematura) –https://bionascimento.com/wp-content/uploads/2015/08/pcap023.pdf

PROM (Premature Rupture of the Membranes, ruptura prematura das membranas) –

http://www.msdmanuals.com/pt-br/casa/problemas-de-sa%C3%BAde-feminina/complica%C3%A7%C3%B5es-do-trabalho-de-parto-e-do-parto/prom-premature-rupture-of-the-membranes,-ruptura-prematura-das-membranas

Avaliação de testes diagnósticos na rotura prematura de membranas –https://repositorio.ufsc.br/bitstream/handle/123456789/113655/254258.pdf?sequence=1

Diretrizes nacionais de assistência ao parto normal –http://conitec.gov.br/images/Protocolos/Diretrizes/Diretrizes_PartoNormal_VersaoReduzida_FINAL.pdf

Ruptura prematura das membranas – https://baseadoemevidencia.wordpress.com/2012/09/05/ruptura-prematura-das-membranas/

Eu não tive dilatação – Por Ana Cris Duarte –

http://crisdoula.com/eu-nao-tive-dilatacao-por-ana-cris-duarte/

A bolsa estourou!http://partohumanizadob.blogspot.com.br/2003/05/bolsa-estourou.html

Ruptura prematura das membranas – http://www.msdmanuals.com/pt-br/profissional/ginecologia-e-obstetr%C3%ADcia/anormalidades-e-complica%C3%A7%C3%B5es-do-trabalho-de-parto-e-do-parto/ruptura-prematura-das-membranas

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3 respostas para “Bolsa rota – Minha bolsa rompeu! E agora?”

    1. Obrigada, Gabriella!!!! Fico muito feliz em poder ajudar! Não sei se é a realidade de todas as doulas, mas bolsa rota prévia ao trabalho de parto é comum por aqui. Fico feliz em poder ajudar! Gratidão pelo feedback!

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