Parto normal, nem pensar!?

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Você é daquelas mulheres que quando falam de gravidez e nascimento visualiza imediatamente uma cesariana, porque é a “melhor opção” e “Deus me livre parto normal”? Que parto normal é coisa de gente doida, porque a tecnologia está aí para ajudar e não tem mais necessidade de sentir dor para ter o bebê nos braços!?

Talvez essa ideia que se tem sobre a cesariana ser melhor que parto normal, seja pelos relatos de muitas mulheres que foram violentadas, tiveram informações negligenciadas ou sequer ouviram falar sobre Medicina Baseadas e Evidências (MBE).

“MBE se traduz pela prática da medicina em um contexto em que a experiência clínica é integrada com a capacidade de analisar criticamente e aplicar de forma racional a informação científica de forma a melhorar a qualidade da assistência médica.”

Está cientificamente provado que parto vaginal é a via de nascimento mais saudável para mulher e bebê, e isso acredito que você já saiba. Mas não é só pela recuperação. Durante todo o trabalho de parto e parto o corpo da mulher libera substâncias hormonais para benefício de mãe e bebê.

Ah! Mas demora muito! Dói muito! Não sabe se vai ter passagem. Seu médico diz que cesariana é melhor, por que não tem mais necessidade da mulher sentir tanta dor. Sua mãe e avó tiveram cesariana, então você não tem para aonde fugir.(????)

Quando e como acontece o parto?

É, para quem sente que não tem paciência de esperar entrar em trabalho de parto e fica insegura por não saber se o bebê vai nascer no trabalho, na condução, no mercado, na rua… tenho boas notícias pra você.

Diferente do que vemos nas novelas, o parto não acontece de uma hora para outra. É um grande processo. O corpo dá sinais de que o trabalho de parto vai começar semanas antes de realmente começar. Não é assim, de uma hora

para outra. Além disso, a mulher pode levar a gestação até 42 semanas, quiçá 43/44 (medo). Então fique tranquila.

Mesmo que as contrações de parto estejam acontecendo, também não quer dizer que o bebê vá nascer dali a pouco. Existem algumas variáveis: Intensidade de contração, ritmo de contração, saber se são contrações efetivas ou contrações de preparação para o parto (prodromos).

Trabalho de parto ativo “É simplesmente um modo conveniente de se descrever um trabalho de parto e um parto normais e o modo como uma parturiente se comporta quando segue seus próprios instintos e a lógica fisiológica do seu corpo. É uma maneira de dizer que ela realmente está no controle do seu corpo durante o processo do parto, e que não é o objeto de uma “condução ativa” do parto pela equipe obstétrica.”

Mas se eu não tiver passagem?

Passagem
Passagem

O corpo da mulher se prepara para gerar bebês e eles se adaptam ao seu corpo, no tamanho e peso. Eles crescem e se desenvolvem ali, no ventre. Se preparam para a saída, e quando estão prontos, as contrações de parto fazem o trabalho de empurrá-lo para fora, como uma grande ordem de despelo; deslocando ossos e músculos para que aquele serzinho faça sua passagem. Porém, dependendo da posição que o bebê fique durante o trabalho de parto, pode facilitar ou dificultar a saída do bebê, ou até mesmo impedir. Mas só da para saber se o bebê está numa posição favorável quando a mulher atingir os 10cm de dilatação. Ou seja, a mulher precisa passar por todo o trabalho de parto para parir, ou saber se precisará de uma cirurgia. Mas calma, muita coisa pode-se fazer para ajudar ao bebê a encontrar o caminho da luz.

Mas e aquela história de quem mulher grande e largas têm mais facilidade para parir que as baixas e magras? Você vai me perguntar. Pois é, não faz o menor sentido segundo a Medicina Baseada em Evidências.

Mulheres magras, baixas, altas, pesadas, leves, brancas, negras, amarelas, vermelhas, marrons… são capazes de parir!

Ah, mas parto normal dói demais!

Olha, realmente as contrações do trabalho de parto são bastante doloridas, mas elas não começam assim, sabia?

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No início ela vem como uma leve cólica intermitente que pode variar em intervalo de 30 a 40min, com duração de 30seg. Como uma onda. Depois essas contrações vão ficando mais frequentes e mais doloridas, mas sempre com intervalos para você se preparar para cada fase.

Quando a mulher atinge o trabalho de parto ativo, e as contrações estão mais doloridas e frequentes, com duração entre 40 e 50 segundos (eu disse segundooos), ou até 1min30seg, métodos não-farmacológicos de alívio de dor podem/devem ser usados: massagem, água quente, aromaterapia, bola suíça, agachamentos, posições diferenciadas, técnicas de respiração, música e tantas outras coisas, que fazem com que a mulher sinta força e confiança em continuar o grande trabalho. Muitas vezes esses métodos são usados até antes da fase ativa. As doulas têm papel muito importante nesse cenário.

Mas para que todo esse processe seja atravessado com equilíbrio e disposição, é necessário que a mulher se alimente, beba água, se movimente, faça escolhas conscientes de tudo o que possa ajudar naquele momento. A presença do acompanhante faz toda a diferença. Ter alguém na sala de parto com você, acreditando que vai dar tudo certo, estimulando que você siga, dando a mão, ou aquele abraço, para que você se sinta acolhida… isso é fundamental.

Quem dirige o parto?

Durante a gestação é sempre importante que você e seu companheiro busquem estudar sobre o assunto “parto”. Quando se fala de parto humanizado, não quer dizer que seja parto em casa e na banheira (também pode ser assim, mas não só isso). Parto humanizado é aquele que resgata o protagonismo da mulher. E para que a mulher se sinta , e seja, protagonista do seu parto, é necessário que conhece o roteiro teórico de como funciona. Lembra da MBE que falei lá em cima? Então, é ela que diz sobre o que é benefício e prejuízo para a saúde da mulher no parto: ambiente calmo, pessoas de confiança da mulher, alimentação, movimentos variados e repetidos, música, doula, métodos de alívio de dor sem e com medicação, uso chuveiro… fala o que seja violências obstétricas e tantas informações de qualidade para que a mulher faça uma lista de tudo o que deseja e não deseja no seu parto e nos cuidados com o bebê. O nome dessa lista é Plano de Parto.

O Plano de Parto é um documento reconhecido legalmente, em alguns estados no Brasil, que protege a mulher de violência e traça planos para que a experiência de nascimento seja a melhor possível. No Rio de Janeiro, tem a Lei estadual nº 7191, que “assegura a toda gestante, o direito de receber assistência humanizada durante o parto na rede pública de saúde no Estado do Rio de Janeiro”, por exemplo.

O que é violência obstétrica?

Violência Obstétrica é toda ação do profissional da saúde da mulher que tenha qualquer ação que constranja, coaja, humilhe, manipule ou retenha informação segura à mulher.. que agrida física e/ou emocionalmente a gestante:

– Impedir que tenha acompanhante dura na estada no hospital: segundo a lei federal LEI Nº 11.108, DE 7 DE ABRIL DE 2005., toda mulher tem direito a um acompanhante durante todo o período de trabalho de parto, parto e pós-parto imediato.

– Não poder se alimentar durante o trabalho de parto

– Impedir a mulher de se expressar durante as dores das contrações (sejam vocalizações ou gritos)

– Impedir movimentos, como caminhadas, uso de bola suíça, agachamentos

– O corte na vagina, com ou sem autorização da mulher

– Empurrar barriga para “facilitar” o nascimento

– Impedir que a mulher decida a posição de parir e quando fazer força. Entre tantas outras coisas

Todos esses itens são ações que causam muita dor, física e emocionalmente falando.

Você pode parir!

Parece impossível ter um parto humanizado? Não amiga, o parto normal,

Você pode parir, sim!

segundo os princípios da humanização (baseado em evidências científicas) são como você leu lá em cima. Todos aqueles relatos de medo e horror que você ouviu até aqui, foram situações de violência, falta de informação e negligencia.

Lembra da sua mãe e avó que passaram por cesariana? Muito provavelmente não tiveram acesso a essas informações e passaram pela cirurgia (ou violência obstétrica) não terem saberem nem metade do que está aqui.

O parto dói? Dói! Mas quando entendemos que dor não é sofrimento, tudo muda de sentido.

O parto é seu. As escolhas são suas!

 

Referências:

  • PARTO ATIVO – Janete Balaskas
  • PARTO NORMAL OU CESÁREA? – Simone Grilo Diniz e Ana Cristina Duarte
  • MEDICINA BASEADA EM EVIDÊNCIAS: A ARTE DE APLICAR O CONHECIMENTO CIENTÍFICO NA PRÁTICA CLÍNICA
    http://www.scielo.br/pdf/ramb/v46n3/3089.pdf
  • VIOLÊNCIA OBSTÉTRICA NO BRASIL: UMA REVISÃO NARRATIVA 

http://www.scielo.br/pdf/psoc/v29/1807-0310-psoc-29-e155043.pdf

http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2004-2006/2005/Lei/L11108.htm

  • LEI Nº 7191 DE 06 DE JANEIRO 2016. SOBRE O DIREITO AO PARTO HUMANIZADO NA REDE PÚBLICA DE SAÚDE NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO E DÁ OUTRAS PROVIDÊNCIAS

http://alerjln1.alerj.rj.gov.br/CONTLEI.NSF/e9589b9aabd9cac8032564fe0065abb4/a01e1d414bdb967a83257f3300580ec7?OpenDocument

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