Relato de Parto da Thais, nascimento do Rafael

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Meu nome é Thaís, tenho 29 anos e vim compartilhar minha experiência. Quero começar meu relato agradecendo a todas que compartilharam sua história, através de vocês encontrei coragem e conhecimento para não desistir do meu parto normal. Meu primeiro filho nasceu há 6 anos em hospital particular através de uma cesárea necessária (placenta prévia). Na época, muito desinformada de todos os meus direitos e dos procedimentos que seriam feitos, sofri uma lista de procedimentos que nem imaginava ser violência obstétrica.

Eu costumava controlar minha menstruação por um aplicativo e estava há dois anos sem tomar anticoncepcional, no 4º dia de atraso da minha menstruação, eu já sabia que estava grávida. Sem plano de saúde e pouquíssimo acostumada em usar o SUS, me apavorei e corri para uma consulta particular com um GO conhecido por ser o menos cesarista da cidade. Na consulta ele me explicou que não precisaria fazer exame de sangue porque o exame de urina tinha uma margem de erro minúscula, prescreveu algumas vitaminas e me orientou a voltar em 2 semanas para fazer o USG. No retorno, ele me informou que eu estava de 7 semanas e com um descolamento de placenta. Me prescreveu progesterona, orientou a fazer repouso e não fazer sexo. Apavorada, fiz tudo o que ele pediu, até ter uma dor de cabeça horrível no segundo dia de medicação. Li a bula e procurei mais orientações online, apenas para descobrir que não tinha comprovação científica que a progesterona evita aborto (ou repouso e abstinência), assim como todos os efeitos colaterais que o hormônio causava. Já não quis mais voltar na consulta, já me apavorei ainda mais por não saber a quem recorrer, até descobrir que uma amiga é enfermeira responsável por um posto de saúde da cidade e que me convidou para ir ao posto fazer o pré-natal com ela, desconstruindo toda minha visão de SUS “falho e ineficaz”.

Como minhas primeiras consultas foram no particular, eu não tive as anotações do início da gestação na minha Carteira da Gestante e por esse motivo, comecei já na 32ª semana a sofrer pressão para escolher pela cesárea. Minha primeira USG registrada na carteira era da 23ª semana e indicava uma IG de 24 semanas e 3 dias. Minha DPP, segundo a DUM era para 14/03, mas cada ultrassom indicava uma data e chegaram a registrar a data de 27/02 para um provável nascimento. Ninguém queria arriscar.

Já que eu tenho a sorte de ter uma amiga linda, doula e feminista, a Samara Barth, com quem compartilho muitas ideias e opiniões, corri pedir sua companhia em minha busca pelo VBAC dentro de um plantão do SUS. Queríamos enfrentar o sistema, já que em nossa cidade (Itapetininga), o conservadorismo pesa forte, ainda mais sobre as mulheres. O comum é odiar tudo que é do governo, odiar o SUS e abominar o parto normal. Se alguém tem condição, essa pessoa paga para ter uma cesárea. Se tem plano de saúde, opta pela cesárea. Se não tem condições, implora por uma cesárea no hospital público mesmo.

Na 38ª semana, fui à maternidade com um encaminhamento do médico do posto para fazer uma cardiotocografia e já estreei minha primeira ida ao lugar com o mesmo GO que paguei para a primeira consulta, o cidadão estava completamente mau-humorado e ficou ainda mais contrariado quando neguei o exame de toque. Pediu para eu voltar a cada dois dias para repetir o exame, já que minha carteira de gestante informava que comecei tardiamente o pré-natal. E assim começou a tortura dos exames de toque e cardiotoco, que na minha visão, não tinham necessidade, já que eu estava apenas de 38 semanas. Na 39ª semana, após fazer o exame de toque e notar que estava perdendo o tampão mucoso, o médico plantonista já me informa antes mesmo de eu sentar que ia me internar para fazer minha cesárea porque não tinha como confiar na minha IG por conta do ultrassom tardio. Outra vez, fui eu negar atendimento e dizer que de forma alguma eu ia ser internada. Corri que nem louca com o plano de parto na mão (aquele que eu sempre esquecia de protocolar, hahaha) para a administração do hospital, com medo de não escapar de outra tentativa de internação. Chegando em casa, implorei para Deus e todas as tâmaras, canelas, chás, faxinas e sexo para meu bebê dar um sinal!

Assim, no dia 15/03 com 40+1, senti uma leve cólica pela manhã que disparou todos os meus sinais. Pensei que poderiam ser pródromos, então partiu faxina! Limpei a casa inteira (na medida do possível) e fui tomar um banho fresquinho, porque o calor estava infernal. E foi aí que percebi que minhas dores eram contrações e toda vez que sentava a dor piorava terrivelmente. Mandei mensagem para minha ami-doula, contando sobre as contrações e que estavam completamente irregulares. Ela pediu para eu voltar pro banho e foi quando descobri que eu + contrações + banho quente era uma combinação horrorosa, hahaha. Partiu hospital verificar o andamento do parto então. Nesse momento lembrei de todos os relatos que li e confirmei: andar de carro em trabalho de parto não é legal MESMO. Falei para meu marido: quando chegar lá, vou pedir pelo amor dos deuses para fazerem uma cesárea, eu não vou aguentar! Mas ele não ia me deixar desistir. As dores aumentaram e cheguei no hospital já suada e descabelada, querendo me encontrar com o bisturi!!! Meus pais com a maior cara de pânico e pena de mim, foi a parte que entendi como não é legal você ter que consolar mãe e pai sobre suas dores. Não deixem que sintam pena de vocês!

Entrei para fazer a cardiotoco e novamente recordei dos relatos, entendi porque a posição litotômica não é a mais indicada. As dores aumentavam de intensidade terrivelmente e eu já não queria nem sentar mais. O problema é que no meu medo do parto não vir, eu fiz faxina e somente almocei. Já era 18h e eu estava de estômago vazio, comecei a me sentir fraca e cansada. Me ofereceram janta, mas eu não conseguia comer. Quando o médico chegou para me examinar, já pedi logo uma cesárea, não aguentava mais sentir dor, ficar em pé e aquela fraqueza, mas nem o médico quis me deixar desistir. Pediu pra chamar a Samara e disse que meu bebê estava bem, líquido transparente, colo afinando e apenas 2cm de dilatação! 2 centímetrossss! Eu queria desistir muuuito!

Então, o médico me perguntou se eu queria ficar em observação ou ir embora para casa esperar o parto evoluir, mas eu não queria ir pro carro de forma alguma. Se eu estava em pé, as dores pareciam cólicas menstruais, agora sentada ou deitada, as dores vinham BEM mais fortes. Depois de andar por toda maternidade, decidiram me internar às 20h. Como no hospital público só temos direito a 1 acompanhante, me despedi do maridão e fui com a doula pra sala de pré-parto. E foi aí que a magia começou!

Entramos na sala, conversamos possíveis posições e apagamos as luzes. Passado algum tempo, chegaram mais dois anjos-enfermeiras obstetras chamadas Fernanda e Jaqueline. Eu era a única parindo no hospital naquele momento, então recordo que ficamos nós 4 na sala de pré-parto e eu não sei dizer quanto tempo passou, lembro que elas iam e voltavam. Me lembro que chovia e trovejava forte. A cada dor que eu sentia, eu gritava muito alto e a Samara sempre ao meu lado, me lembrando a cada contração que eu estava mais perto, que eu estava conseguindo e o quanto eu era forte. Me lembro que a Samara passou alguns óleos em mim, que tentou fazer uma massagem, mas eu tinha pavor qe Me lembro também que em certo ponto percebi que as dores não doíam tanto assim e que eu estava conseguindo MESMO, me superando a cada contração e lembrando de todas as pessoas que me disseram que eu não ia conseguir, que os médicos iam judiar de mim, que eu ia ficar sozinha e com medo. Mas eu não fiquei sozinha nem por 1 minuto! Então, já noite a dentro, nem lembro que horas eram, a enfermeira veio realizar o toque e me disse que o bebê já estava MUITO perto e que eu estava com 7cm de dilatação. Foi a hora que o bicho pegou, experimentei todas as posições possíveis, sentei na bola e até deitei. Entre as contrações, eu ficava tão quieta que sentia até sono. Foi aí que comecei a sentir vontade de fazer força. Eu com a orientação da Samara e das enfermeiras, me levantei e urrei que nem uma leoa ensandecida a cada contração que vinha. Eu sentia ele descer, meu quadril se expandir e a cada grito ele descia mais. Até o momento que eu não aguentei mais fazer força. Por mais forte que eu fizesse e mais alto gritasse, uma hora eu parava e ele voltava. Então, a Fernanda perguntou se eu queria tomar ocitocina para ajudar na evolução. Lembro que aceitei e na minha mente não se passaram nem dois minutos entre ela colocar o acesso e o começar o círculo de fogo. E como arde! O Rafael decidiu sair em grande estilo, girando que nem um parafuso, ahahah, direto pro meu colo. Assim que nasceu, notamos que ele tinha feito uma quantidade grande de mecônio (e depois de algumas horas, soubemos que ele engoliu e precisou fazer uma lavagem no estômago, porque começou a vomitar todo o leite que mamou ?).

E assim foi o meu parto normal no plantão do SUS, 6 anos depois de uma cesárea. Nenhuma intervenção desnecessária, sem analgesia, sem laceração, na companhia da minha amiga-doula maravilhosa e mais duas enfermeiras maravilhosas que foram super gentis e me apoiaram em todas minhas decisões, fazendo de tudo para que meu parto fosse o mais respeitado e natural possível. Meu marido veio para cortar o cordão umbilical e acompanhar o Rafael em todo momento. Sua chegada também foi muito respeitada, sem colírios, sem aspiração, sem banho e o tempo inteiro em nossa companhia. Depois desse dia, eu quadrupliquei o tamanho da admiração e respeito que tenho por nós mulheres. Com certeza, um dos melhores momentos da minha vida!

Ps.: entreguem seu plano de parto no hospital que pretendem parir. Acredito que serão tão respeitadas como eu fui.
Ps2: se tiverem condições, contratem uma doula. Elas são anjos com cheiro de laranja e mãos de fada! ❤️
Ps3: o combinado era a doula ficar comigo até o momento do expulsivo, mas eu tive medo que meu marido tivesse a mesma reação de pena que meus pais tiveram e que isso brecasse a evolução do parto, apesar de ele ter apoiado todas as minhas decisões desde o início e não ter me deixado desistir do parto normal em nenhum momento.

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