Como Me Tornei Doula

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    Muito prazer, sou Rayra Rocha, e hoje, quero te contar um pouco da minha história, e falar como uma pessoinha de 3 kg e 53 cm revolucionou meu mundo, e transformou uma universitária alienada que não podia ver sangue, em uma Doula consciente, e muito apaixonada pelo que faz.

Alienação conveniente

Eu nasci através de uma cesárea, bem como meus irmãos e primos. Cresci encarando a cirurgia como algo natural. Sonhava em um dia ser mãe, mas eu não seria uma mãe como as outras. Imagina se eu ia lá sentir dor pra ter um bebê, e sofrer pra amamentar com tanta tecnologia!? De jeito nenhum! Cesárea eletiva sim obrigada! Se possível com anestesia geral pra garantir, tenho horror a sangue não quero ver nada! E pode tacar logo uma mamadeira na boca da criança que é mais prático e não tenho tempo a perder.
Não tinha nenhum interesse em buscar informações, nem em ser mãe tão cedo, era conveniente me alienar. Na verdade, o que eu sentia era medo. Da dor, de falhar, não dar conta, de não estar preparada pra receber um bebê. Medo que me proporcionava uma zona de conforto, pois escondida nele eu não precisava lidar com o novo. Gostava da vida que levava, e da pessoa que eu era. Queria me anestesiar emocionalmente pois na verdade, o meu maior medo era sentir. Porque lá no fundo eu sabia, que essa experiência, esse sentir, mudaria minha vida pra sempre, e assim foi.

O despertar

Por mais que buscasse me distanciar, os assuntos que mais me atraíam na faculdade eram aqueles relacionados a gravidez e à maternidade. Um dia, estudando depressão pós parto, li um artigo sobre parto humanizado que uma professora indicou. Passei a estudar o tema, e cada vez mais me encantar por todo esse universo. Comecei a perceber o parto por um novo olhar, e compreendi que amamentar é muito mais que apenas alimentar o bebê.  Assim, aos poucos, a ideia da cesárea se apagava, e o parto humanizado ganhava força em meus pensamentos.

Então me descobri grávida, e entendi que o melhor pra mim já não importava mais. Eu não me preocupava se ia sentir dor ou não, se o mais confortável seria parto normal, cesárea, ou tele transporte. Queria o melhor, mais confortável, e saudável pra ela! Por ela, eu moveria o mundo e enfrentaria qualquer coisa! E nessa busca de dar a ela a melhor recepção possível, pude perceber que o melhor pra ela, era também o melhor pra mim.

O que fazer comigo?

Ela nasceu. Em um parto domiciliar intenso e transformador. Me apresentou uma nova versão de mim que durante algum tempo tentei negar, mas que não cabia mais na vida de antes. Eu já não era a mesma, e já não gostava tanto de quem fui. E agora? O que fazer comigo? Decidi me dar um tempo pra processar tudo isso.
A essa altura, já estava viciada em estudar parto, e violência obstétrica e não perdia uma oportunidade de falar do assunto com outras mulheres. Virei “a chata que só posta coisas de parto” e comecei a receber mensagens de amigas e gestantes interessadas no assunto. Muitas delas, tinham uma pergunta em comum:
-Você é doula não é?
Não, eu não era doula, e achava muito curioso pensarem isso, pois ainda não me via dessa forma.

Enfim Doula

Comecei a pensar com carinho na possibilidade, e percebi que meu desejo de contribuir pra que outras mulheres pudessem viver o parto e a amamentação de forma leve, e livre de violência, fazia todo sentido com a minha jornada, e poderia sim virar profissão. Ser doula, era algo que cabia perfeitamente na vida dessa nova pessoa que me tornei.
Decidi fazer a formação de Doulas, e foi durante o curso, ao doular o meu primeiro parto, que pude entender que foi pra isso que nasci! Estar ali, presente pra aquela gestante, perceber que estava na hora certa, no lugar certo. Participar de um momento tão íntimo e especial da vida de alguém e ter o privilégio de ajudar a torná-lo mais acolhedor, foi uma das experiências mais marcantes e significativas que vivi. E a partir daí, Doular se tornou não apenas a minha paixão, mas também a minha missão.

Hoje, tenho a benção de através de atendimentos presenciais e online, utilizando informação e acolhimento, facilitar o caminho de transformação de muitas mulheres. Mulheres que muitas vezes, assim como eu, começam a gestação cheias de medos e receios, mas descobrem em si uma coragem até então desconhecida, e se percebem capazes de enfrentar qualquer desafio pelo bem estar da vidinha que carregam. Mulheres que a cada encontro de preparação para o parto, destroem seus gigantes, descobrem um pouco mais da perfeição do seu corpo, e compreendem o quanto são dignas e merecedoras de um parto respeitoso. Que a cada contração, movimento ou vocalização, me ensinam mais sobre plenitude, inteireza, e sobre o poder que há na entrega. E o mais bonito é perceber, que eu apenas forneço as ferramentas. Ofereço a informação, o apoio, os recursos de alívio da dor, cuido para que se sintam acolhidas e protegidas no momento do parto. Mas o mérito, afinal, é todo delas, que aceitam o mapa, se permitem seguir viagem e constroem para si um novo destino.

 

Referências:

Evidencias qualitativas sobre o acompanhamento por doulas no trabalho de parto e no parto

https://www.scielosp.org/article/csc/2012.v17n10/2783-2794/

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