Como não detonar seu próprio parto

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Nos seis anos em que trabalho como Doula, pude perceber um fenômeno bastante comum, que atinge as mulheres de forma geral, e semelhantemente as gestantes, a autossabotagem (ainda não me acostumei a esse novo acordo ortográfico, mas juro que escreve assim mesmo rsrs).
Trata-se de comportamentos que conduzem a direção oposta das suas necessidades e desejos. Empecilhos e problemas criados por si mesma (de maneira consciente ou inconsciente) que atrapalham ou até mesmo impedem de atingir um objetivo.
Quando o assunto é parto a autossabotagem rola solta! E se não bastassem os desafios externos que precisamos enfrentar para conseguir um parto digno no Brasil, criamos desafios internos só pra tornar a coisa mais emocionante(contém ironia).
Então pra te ajudar a romper esse ciclo, quero te contar algumas maneiras simples de não detonar o seu próprio parto.

Não diga que vai tentar

“Eu vou tentar parto normal, mas seja o que Deus quiser” “Vou tentar mas na hora o médico diz o que é o melhor” “Vou tentar né?! Não custa, se não conseguir é porque não era pra ser”
E assim você já começa afundando qualquer possibilidade de realmente conseguir parir.

Dados do estudo nascer no Brasil indicam que 70% das brasileiras desejam um parto normal no início da gravidez, mas não encontram apoio em sua preferência pelo parto normal, e nos serviços privados, apenas 15% das mulheres em sua primeira gestação conseguem. Não basta tentar, não basta querer. Se você escolhe um parto normal no Brasil, está comprando uma briga com um sistema que lucra a cada mulher que desiste. E se você já entra nessa luta disposta a perder, se nem você mesma acredita que é possível, que consegue e é capaz de parir, quem mais vai fazer isso por você?!

Não diga que vai tentar, acredite, se informe e lute com todas as suas forças pra viver o parto que deseja. E se mesmo assim esse caminho terminar em uma cesárea, você vai ver que cada segundo valeu a pena, e terá a paz de saber que fez tudo o que estava ao seu alcance.

Não espalhe a DPP aos quatro ventos

Mal você descobre a gravidez, já começa a postar foto da barriga com a # de quantas semanas nas redes sociais. Conta pra todo mundo a DPP (data provável do parto) e se brincar, faz até contagem regressiva pra que ela chegue. Mas esquece de um pequeno detalhe, a DPP como o nome já diz, é provável, não é prazo de validade! Ela indica apenas a data em que a gestação completa 40 semanas, está sujeita a erros, e menos de 5% dos bebês nascem na data prevista. Uma gestação saudável e bem acompanhada pode ir até 42 semanas ou mais, e só o que você ganha espalhando essa informação, falando em bom Pernambuquês, é aperreio! Ou seja, aborrecimento, perturbação, problema! Além de lidar com a sua própria ansiedade, tão natural em final de gestação, você vai precisar lidar com a ansiedade alheia. Pense bem, será mesmo que vale a pena?
Eu sei, você sonhou em postar fotos da barriga, as pessoas perguntam pra quando é o bebê, tudo é novidade e pode ser difícil saber como lidar. A dica que eu te dou, é simplesmente encarar a data das 42 semanas como DPP. Claro que isso não vale para sua equipe, ou para quem estiver diretamente envolvido no parto, mas para os amigos, conhecidos, e pessoas que não precisam saber todos os detalhes da sua vida, informe a data em que completa 42 semanas. Assim, você se preserva caso a gestação vá além das 40 semanas. Quanto as fotos nas redes sociais, poste sim, sempre que quiser! Apenas não precisa informar as semanas na legenda, afinal, você terá esse registro pela data da publicação, e deixar os amigos curiosos brincando de adivinhar quantas semanas, pode ser até mais divertido.

Oi pessoal estou grávida! De quantas semanas acham que estou?

Não faça ultrassonografia todo mês

Eu sei, você ama o exame de ultrassom! É muito bom ver seu bebê, e você quer ter certeza de que está tudo bem. Problemas da vida moderna, que nossas avós certamente jamais cogitaram se preocupar. Mas de acordo com as evidências existentes (evidências de nível A, ou seja, maior qualidade dos estudos), a ultrassonografia de rotina nas gestantes de risco habitual, não traz benefícios a mãe ou ao recém-nascido. A recomendação é realizar um exame de ultrassom entre 11 e 14 semanas de gestação, onde ocorre a datação da idade gestacional, detecção de suspeita de má formação/cromossomopatia, e o diagnóstico de gestação gemelar ou única. Quanto ao segundo e terceiro trimestre, não há evidências de que a realização de ultrassom de rotina melhore desfechos da gravidez. Então ele deve ser solicitado apenas se houver indicação clínica para tal.
Se a sua gravidez não é de alto risco, pedir ao obstetra para fazer ultrassom todo mês, vai servir apenas pra procurar cabelo em ovo, e se o profissional não te explica isso, ou solicita o tempo todo por rotina foge! Ele não trabalha baseado em evidências. E como quem procura acha, provavelmente vai acabar encontrando um pretexto para te levar a uma cesárea desnecessária.

Encare a realidade do sistema

Até o Cebolinha sabe que planos infalíveis não costumam acabar bem…

Não adianta vir com plano infalível, e achar que vai conseguir parir com plantonista de maternidade que tem 85% de cesáreas. Não adianta insistir em um parto normal, com um profissional que opera 90% das pacientes, só porque ele é gente boa e atende você ou sua família a muitos anos. Não adianta achar que vai viver um parto 100% natural com um profissional intervencionista que tem fama de cometer violência obstétrica.
Sim você é especial, mas não tanto a ponto de fazer o sistema deixar de ser o que é. Se um determinado profissional/serviço ignora as evidências científicas, as recomendações da OMS e do ministério da saúde, o que te leva a crer que só com você vai ser diferente?! Busque informação, grupos de apoio, uma doula, converse com mulheres da sua região sobre suas experiências de parto, e procure os profissionais e serviços que melhor se alinhem as suas expectativas. E caso eles não existam na sua região, é ainda mais importante que você esteja consciente do que pode enfrentar, para que possa pensar em estratégias de proteção, e como fazer valer os seus direitos.

Não lute contra a sua própria natureza

Chegam as 37,38 semanas, nada do bebê nascer e a mulher já começa a procurar problema onde não tem. “O que eu faço pra entrar em trabalho de parto?” Está entre as perguntas que eu mais recebo como doula. Começa então a maratona de chás, e óleos, caminhadas e exercícios, comer tâmaras, pimenta ou qualquer outro alimento que falem que ajuda até sair pelo nariz e tudo isso para quê? Nada! Se a mulher tiver que entrar em trabalho de parto, vai entrar independente do que tenha feito, e se não entrar já começa a produzir frustração. E quando você chega nesse ponto, só existem dois caminhos possíveis, parar de tentar, respirar fundo e respeitar o seu próprio tempo, ou desacreditar do seu corpo, do seu processo, da sua capacidade de parir. Na grande maioria das vezes, o que acontece é a segunda opção, que pode acabar levando a mulher para uma cesárea que poderia ter sido evitada.

Cházinho é ótimo, mas o bebê vem quando estiver pronto.

Seguir essas dicas, pode te ajudar na construção desse caminho até o parto que deseja, mas vale ressaltar, que como já dito, a autossabotagem é um processo muitas vezes inconsciente. Portanto é importante, que você busque um acompanhamento terapêutico se tiver a oportunidade. Cuidar da sua saúde mental, é a melhor maneira de vencer a autossabotagem no parto, e na vida.

E se você desejar a minha ajuda pra mandar pra longe a autossabotagem, com muita informação, e outras dicas práticas sobre gravidez parto e amamentação. Clica no link aqui embaixo, que eu te ajudo a parir linda, empoderada, e mandando beijinho no ombro pro sistema!

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Referências:

O Ciclo da Auto Sabotagem https://www.academia.edu/download/60935807/0-Ciclo-Da-Auto-Sabotagem-Stanley-Rosner-Patricia-Hermes-pdf20191017-6268-15cedv5.pdf

Nascer no Brasil: Pesquisa revela numero excessivo de cesarianas https://portal.fiocruz.br/noticia/nascer-no-brasil-pesquisa-revela-numero-excessivo-de-cesarianas

Quem espera, espera-Cartilha UNICEF https://www.unicef.org/brazil/media/3751/file/Quem_espera_espera.pdf

Exames de Rotina do Pré Natal https://portaldeboaspraticas.iff.fiocruz.br/atencao-mulher/exames-de-rotina-do-pre-natal/

 

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