Como encontrei a doula que habita em mim?

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Está sendo um objetivo cada vez mais comum as pessoas procurarem uma vida mais saudável, próximo a natureza, retomando as tradições ancestrais tanto na alimentação, físico, emocional como no apoio a gestação, parto e pós parto. Como descreve a parteira mexicana Naoli: “A descoberta do mais básico e ancestral sempre nos leva para experiências internas de simplicidade, paz e felicidade mais profundas” (VINAVER, 2015). E nessa procura, reconquistando seu lugar junto a gestante, está a Doula. Contarei o que me motivou a se essa profissional.

Contexto Familiar

Sou a Gracieli, tenho 31 anos, nasci e vivo em Cotia, cidade da grande São Paulo. Cresci em um núcleo familiar formado por muitas mulheres, então gravidez, maternidade, cesárea agendada ou sem real indicação e cuidados com os bebês ou crianças sempre foram comuns na minha adolescência. Na época desses nascimentos nunca havia ouvido falar de humanização, parto respeitoso ou benefícios fisiológicos do parto normal. Mas algo que sempre permaneceu em meus pensamentos era que o parto normal seria a minha forma de parir quando chegasse a minha vez, pois era como minhas avós e as indígenas – personificação do poder da natureza – pariram..

Bióloga de formação, sempre acreditei que a natureza tem poder, é sabia e aprendi que apenas as melhores espécies habitam esse planeta. Sendo assim, a espécie humana existe porque nossa genética é ainda favorável para a sobrevivência e ela permanecerá enquanto novos indivíduos nascerem.

Encontro com a humanização

Depois de muitos anos da minha adolescência, passando os canais de TV a procura de algum programa interessante, deparei-me com o documentário “O Renascimento do Parto” (2013) de Érica de Paula e Eduardo Chauvet, que aborda sobre a realidade obstétrica no Brasil e no mundo com um enfoque para a humanização. Esse filme abriu os meus olhos para uma situação deprimente que nunca havia pensado ou me interessado antes, mesmo com tantos nascimentos por cesárea na família. Como dizem alguns, fui picada pelo bichinho da humanização e um desejo de mudança – mesmo que para alguns familiares, cresceu em mim. Minha vontade era gritar pra todo mundo esse conhecimento que havia descoberto. Em março de 2017 fiz o curso de Doula e descobri que esse papel é feito a milhares de anos, pelas mulheres da família, uma vez que os partos eram em casa, cercada de pessoas conhecidas, confiáveis e empáticas à gestante.
Como diferencial, continuei os estudos para ser consultora em amamentação. Ao final desses estudos, sem iniciar meus trabalhos como doula, descobri minha gravidez. Fui a última da família a engravidar e a primeira a buscar uma assistência “diferenciada” das demais.
Retomada do tradicional

Estar grávida, depois de descobrir um cenário tão lindo, rico de conhecimento científico (que biólogo gosta), simplicidade, acolhedor, transformador e enriquecedor que é a humanização, só me deixou mais confiante, poderosa, dona de mim e determinada a ter uma gestação e parto como sempre imaginei: recordando minhas ancestrais. Busquei manter minha rotina de atividades físicas, alimentação mais natural possível, sem levar em consideração as crendices das pessoas desinformadas e cercar-me de profissionais que acreditavam no mesmo que eu, davam segurança e me apoiavam.
Poder da natureza em mim

Foto: Francine Pires

No início de 2018, de cócoras, eu pari uma menina – em um hospital no interior paulista – cercada de pessoas que sabem os benefícios de parir com o mínimo de intervenções e, no meu caso, naturalmente. Ela veio direto pro meu colo, aconcheguei-a entre meus seios e braços. Toquei em seu cordão umbilical, senti o cheiro do nascimento em seus cabelos. Nesse dia, experimentei o poder da natureza, superei a dor, me entreguei e acreditei nele, que a milhares de anos molda as mulheres para esse acontecimento perfeito. Desde então ele vem relembrar sua presença, em todas as outras fases da maternidade, principalmente amamentação e criação com apego.

Iniciando o trabalho como doula

Nesse mesmo ano, motivada e entusiasmada pela experiência recém vivida, desejosa de contá-la para todos, comecei meus trabalhos como doula e consultora em amamentação juntamente com uma amiga obstetriz. Orientar as gestantes e casais com conhecimento e informação de qualidade, que nos foi ensinado a acreditar estar restrita somente aos profissionais da saúde, é gratificante. Trabalhar na consultoria em amamentação tem sido meu carro chefe como doula, uma vez que amamentar, mesmo sendo um instinto natural, é um processo que precisa ser aprendido e ensinado para mãe e bebê.

Desde então venho experimentando transformações, desafios, emoções, reconstruções e crescimento que me capacitam a entender o universo da maternidade de forma empática, respeitosa, acolhedora e atenciosa. Como doula quero transformar o mundo, uma gestante e bebê por vez, mostrando a ela que o simples, tradicional, antigo e natural traz inúmeros benefícios. Então ser doula é uma das melhores formas de começar uma mudança como diz Michel Odent: “Para mudar o mundo é preciso mudar a forma de nascer”.
Quer saber mais sobre o meu trabalho como Doula e Consultora em amamentação? Clique aqui e deixe seu contato.

Referencias:

A técnica do rebozo revelada – Naoli Vinaver, Ed. Ema Livros, 2ª edição, São Paulo, 2015.

Doulas como dispositivos para humanização do parto hospitalar: do voluntariado à mercantilização

http://www.scielo.br/pdf/sdeb/v42n117/0103-1104-sdeb-42-117-0420.pdf

Indicações reais e fictícias de cesariana https://estudamelania.blogspot.com/2012/08/indicacoes-reais-e-ficticias-de.html

A evolução do nascimento humano http://labs.icb.ufmg.br/lbem/aulas/grad/evol/humevol/evol-nasc-humano.html

Modelo obstétrico brasileiro ignora evidências científicas e recomendações da OMS na assistência ao parto http://comciencia.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1519-76542013000800002&lng=pt&nrm=isso

Guia alimentar para crianças brasileiras menores de 2 anos http://189.28.128.100/dab/docs/portaldab/publicacoes/guia_da_crianca_2019.pdf

 

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