Onde e como encontrar o que é melhor para o bebê?

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Foto por @willpower nappy.co

Em meados da década de 20, a comunidade médica da sociedade industrial começou a defender a existência de uma maneira ideal de se criar um filho baseado em evidências científicas (“by the book”). Essa corrente foi tão forte que em 1920, o governo dos Estados Unidos publicou um livro chamado “Infante care” (cuidado da infância – tradução livre), que nada mais era do que um protocolo destinados às mães de todas as classes sociais – em teoria, claro. 

Afinal, é muito complicado assumir que mães de diferente classes sociais tenham acesso às mesmas coisas. Por exemplo:
O livro orientava a introdução de suplemento alimentar (o famoso leite de latinha ou caixinha)

Porém, enquanto o leite materno é de graça um suplemento pode custar mais de 200 reais por 400 gramas!

Da mesma forma que o livro não levava em consideração diferenças sociais, os autores também ignoraram variações culturais. Mesmo hoje em dia, que devido a globalização e abertura comercial encontramos com mais facilidades alimentos que são comuns, digamos no japão, nas nossas prateleiras ainda seria difícil encontrarmos óleo de fígado, cuja a introdução na dieta do bebê foi sugerido pelo livro. 

Esse cientificismo continua até os dias atuais e o mercado de livros que prometem acabarem com seus questionamentos, e te ajudar a criar um ser humano livre de traumas e apto a “vencer”  movimenta muito dinheiro; por exemplo o livro intitulado “O que esperar quando se está esperando” vendeu 249k exemplares somente em 2014!

Cientificismo, é uma postura filosófica que acredita que apenas a ciência pode fundamentar o conhecimento do mundo.

E pode ser usado para desvalorizar o conhecimento construído por outras formas, como oralidade. Além disso, há uma tendência em se acreditar na ciência como um um ser todo poderoso detentor da verdade absoluta. Se você acha que já ouviu isso em outro lugar, você não está e enganado/a/e.

Foto por @shanicemkenzie nappy.co

Agora, imagino que se você chegou até esse texto, seja porque nesse momento tem questionamentos e que, entre uma troca de fralda e um embalo pra dormir, você esteja procurando por fontes confiáveis para tomar uma decisão, a melhor decisão. 

 

Mas será mesmo que a ciência tem resposta para todos os tormentos que criar alguém pode trazer? Bem, a ciência é fundamental para compreensão e melhoramento na nossa qualidade de vida, contudo, ela não é um oráculo, nem a Janet (caso você assista “The Good Place”, caso não assista…recomendo!); a ciência é uma ferramenta. E o uso que é feito dela pode ajudar ou…bem…pode atrapalhar. 

Oi???

Parto natural? Parto humanizado? Com bola? Na banheira? Amamentar? Suplemento alimentar? Chupeta? Dar ou não doce? AHHHH!!

O que a ciência fala sobre tudo isso? E como ela chega a suas conclusões?

Como a ciência obtêm respostas

Bem, a ciência aborda todas essas questões e muitas outras por diversas perspectivas e depois tentamos juntar os resultados e chegar a uma conclusão que se aproxime em representar a realidade para a maioria da população. 

Veja bem, “se aproxime”, “representar”, “maioria”. 

Sim, a ciência biológica não é exata. 

Não há uma resposta para uma questão, e por mais próximo que cheguemos a uma resposta ainda prevemos que haverá uma parcela da população que não será representada por ela. Por exemplo, há bastante concordância em o que se considera uma pressão normal: 12×8. Houve anos de pesquisa, um bom número de pessoas estudadas. Mas ainda assim, há pessoas que tem todas suas funções vitais em bom estado com uma leitura de pressão de 10×6. Pra essa pessoa a pressão normal é 10×6. Viu? Não temos uma resposta.

Agora se pergunte novamente:

Parto natural? Parto humanizado? Com bola? Na banheira? Amamentar? Suplemento alimentar? Chupeta? Dar ou não doce? 

Foto por @dazzyjam nappy.co

O que não significa que não podemos usar a ciência para nos guiar. Apenas precisamos fazer isso com muita cautela. Queremos que a ciência nos auxilie e não que dite regras – sejamos honestas não precisamos de mais um dando “opinião” não é mesmo?

Isso ainda é mais perigoso quando falamos do mercado se apropriando da ciência e falando em nome dela, e é isso que acontece em muita da literatura disponível. Dizeres como “pesquisas científicas comprovam”, ou a exibição de porcentagens com decimais – “10,8% dos bebês” podem ser nada mais do que palavras vazias.

Pior do que sem significado, ou contexto esse uso da ciência pode trazer malefícios. Um estudo com 354 mães na Inglaterra mostrou que quanto mais elas liam e se informavam sobre a maneira mágica de se criar um bebê, maiores as chances de terem depressão pós parto. 

Mas e as nossas questões? 

Parto natural? Parto humanizado? Com bola? Na banheira? Amamentar? Suplemento alimentar? Chupeta? Dar ou não doce? 

Isso significa que você está sozinha nessa jornada? 

Não, você não está. Veja, você pode comprar os livros que quiser, e se manter informada sobre as mais novas pesquisas; eu particularmente adoro! Apenas lembre se sempre que verdade cor de rosa não existe – e nem azul, a amarela ou a verde.  A ciência e os estudos devem nos orientar mas como já dizia, uma grande amiga que admiro, a doula Samara: “atendimento individualizado, considerando todos os aspectos daquela pessoa, é o que vai dar o melhor tom”, use a ciência a seu favor.

Essa experiência (maternidade/paternidade) é sua. E só sua.

Para saber mais:

Harries & Brown, 2017. The association between use of infant parenting books that promote strict routines, and maternal depression, self-efficacy, and parenting confidence. Early Child Development and Care. 189 (8). https://doi.org/10.1080/03004430.2017.1378650

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