O que é desmame e como você pode fazer

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O desmame é um processo de introduzir alimentos outros que não o leite para o bebê e ocorre para todos os mamíferos, a mãe pode ter uma papel mais ativa ou não. A Organização Mundial da Saúde e a UNICEF recomendam que a amamentação exclusiva ocorra até os 6 meses de idade e que seja continuado até os 2 anos. 

Há poucos estudos sobre desmame, seja com ratos, com macacos ou com humanos, mas esse tópico está sobre debate a muito tempo. Aristoteles, por exemplo, dizia que a amamentação deveria durar entre 12 a 18 meses, ou até o momento que a mestruação da mãe voltasse. Apesar de estar em debate por tanto tempo e da recomendação clara da OMS, esse processo ainda traz bastante angústia para as mãe. 

Decifrando pistas: como determinar o tempo ideal?

Algumas formas de se calcular o tempo ideal de amamentação para humanos

Díade mãe e bebê de macaco-prego. Foto por Mariana Dutra Fogaça @migamigrei

seria tentar achar um padrão nos nossos parentes próximos os macacos e olhar para os nossos antepassados. Holly Smith estudando 21 espécies de macacos tentando identificar relações entre o tempo de amamentação (fato dado) com variáveis que pudessem ser uma pista: 1) desenvolvimento de dentes (e talvez autonomia para comer), 2) idade de independência reprodutiva, 3) tamanho corporio quando adulto e 4) maturidade do sistema imunológico (considerando que o leite além de nutrir também protege). Os resultados mostram que o desmame para estas espécies acontece quando o primeiro molar nasce, o que nos humanos acontecesse entre 5.5 a 6 anos (1). Esses primatas não humanos desmamam quando atingem ⅓ do peso do adulto o que em humanos seria entre 5-7 anos (2). Se pensarmos na relação entre tempo de gestação e tamanho do adulto o humano amamentaria até 4.5 anos (3).  Esses macacos amamentam até o bebê ter a metade da idade para atingir a maturidade sexual, o que seria entre 6-7 anos (4). 

Outra fonte de pistas para entendermos a amamentação e o desmame é desvendarmos a história dos nossos antepassados. Análises de dentes de fósseis das espécies Australopithecus africanus e Paranthropus robustus mostram que eles amamentavam exclusivamente por 6-9 meses e suplementavam com amamentação até os 6 anos. A relação de leite e demais alimentos deveria variar conforme a disponibilidade local. Lembre-se olhar para nossos parentes próximos e antepassados não irá nos dar uma resposta direta de como seria o ideal, ou seja, não analisamos o comportamento deles para fazer igual, mas para entender o papel da amamentação e do desmame e assim, identificar o ideal para a nossa espécie. 

A terceira forma de acessar conhecimento sobre processos humanos é olhar como outras de humanos modernos lidam com o processo. As mães das sociedades zulu tradicionalmente amamentam seus bebês até 12 a 18 meses, altura em que seria prevista uma nova gravidez. Jea os hebreus antigos completaram o desmame em cerca de três anos. E a maioria das crianças nas sociedades tradicionais é completamente desmamada entre dois e quatro anos de idade.

Nem tudo é tão claro assim: variações no tempo de desmame

E o tempo ideal parece não ser fácil de determinar nem para as mães não humanas. Diferentes mães de macacos-pregos no Piauí, por exemplo, podem desmamar seus filhotes entre 10 e 20 meses! Essa diferença está relacionada com a posição hierárquica da mãe, se é mãe de primeira viagem e o tipo de vínculo com o filhote, mostrando que a amamentação e o desmame não é um  processo pré estabelecido pela espécie (necessidades fisiológicas), e que sofre grande influência do ambiente social.

Amamentar é mais do que nutrir

Por uma perspectiva evolutiva, o corpo e o comportamento atual são resultados de pressões que acabaram por selecionar o mais adequado para o ambiente, dessa forma, nossas características e nosso comportamento funcionam de maneira tal a otimizar o consumo de energia e maximizar a sobrevida, no caso da mãe e do bebê. Dessa forma, espera se que a díade mãe-bebê encontre uma duração ideal da amamentação. O importante é apontar que esse tempo ideal não é para a espécie, mas para o indivíduo.

Por exemplo, se uma díade mãe e bebê vivem em um lugar com disponibilidade de alimentos, contudo estes são muito duros, difíceis de acessar, e demandam muito tempo de mastigação e/ou de habilidade manuais, imagina-se que a mãe possa acessar esses recursos mas seu bebê não e portanto, seria ideal que a mãe amamentasse seu bebê por mais tempo. Já em uma sociedade com disponibilidade muito grande de comida, sendo essa de fácil acesso e ingestão pelo bebê, seria ideal que se amamentasse por menos tempo, considerando quão desgastante é para a mãe manter a produção de leite. 

O ambiente que nós vivemos hoje em dia é mais complexo e fatores além da disponibilidade de alimentos tem papel fundamental na otimização de comportamento. O engajamento, a duração e o desmame é regulada por fatores biológicos, psicológicos, socioeconômicos, éticos e culturais. Assim, a amamentação e o desmame não é apenas uma relação entre a díade mãe e bebê, ela é um fator social. Ela pode variar dependendo da estrutura da família, do equilíbrio entre o apego ideal na díade mãe-bebê, necessidades da mãe (como indivíduo e como parte da sociedade – voltar ao mercado de trabalho). 

Mas e hoje em dia? Sociedade moderna e problemas maiores que nutrição

Bebê fofíssimo. Foto por @pixabay

No Brasil, 95% das mães iniciam a amamentação, mas a duração é baixa. E apesar do enfoque ser na díade mãe-bebê os fatores que levam ao desmame em geral é relacionado a falta de apoio da família e da sociedade. O tempo do desmame é determinado preferência social por alimentação artificial, falta de informação sobre importância da amamentação, problemas com a amamentação no primeiro mês de vida (presença de mamilos rachados – condição atribuída à alta prevalência de más técnicas de amamentação). Além disso, alguns determinantes nunca foram descritos em estudos brasileiros, por exemplo, mãe que limita o número de mamadas noturnas na mama e a apreciação do parceiro pela amamentação. As mulheres que relataram que seus parceiros demonstraram apreço pela amamentação tiveram um risco 38% menor de apresentar o resultado. Esse achado reforça o papel do pai ou parceiro como facilitador no início e na manutenção da amamentação, incentivando e apoiando a mãe. Além das questões sociais, outros fatores, como a presença das avós maternas, a falta de apoio dos parceiros, a mãe adolescente, a realização de menos de seis consultas pré-natais e o uso de mamadeira / chupeta também contribuem para a não continuidade. amamentação e, portanto, a introdução de outros tipos de alimentos.

Mas e qual o problema? Afinal na sociedade ocidental moderna temos alimentos disponíveis e que podem ser acessados pelos bebês; mas será mesmo que amamentar é apenas nutrir?

Amamentar é mais do que nutrir.

Amamentação é saúde pública, mas também é decisão individual

E isso coloca o assunto como necessidade social de discussão, em necessidade de políticas públicas que disponibilizem informação para as futuras mães sobre os aspectos da amamentação, sobre as vantagens fisiológicas e emocionais, sobre técnicas de amamentação, programas que abertos a rede de apoio da mãe, para que estes também se informem e tenham um papel ativo de apoio. Programas que garatam o direito da mãe a voltar ao mercado de trabalho. Porque a saúde dos nossos bebês é a saúde da nossa sociedade.

Mas que entendamos também a mãe como um indivíduo, e respeitemos a decisão, que só dela de amamentar e por quanto tempo. Que entendamos que uma mãe feliz é uma boa mãe.

PARA SABER MAIS:

Dugdale. Evolution and infant feeding. Lancet 1986; 1: 8482 :670–673

Bortolinia, Vitolo, Bauermann, Leonor e Santos. 2013. Consumo precoce de leite de vaca entre crianças brasileiras: resultados de uma pesquisa nacional Jornal de Pediatria Volume 89, Issue 6, November–December 2013, Pages 608-613

Susin, Giugliani, Kummer 2005. Influence of grandmothers on breastfeeding practices Rev Saude Publica, 39, pp. 141-147 CrossRefView Record in Scopus

Santo, Oliveira, Giugliani. 2007. Factors associated with low incidence of exclusive breastfeeding for the first 6 months Birth, 34, pp. 212-219 

Falceto, Fernandes, Baratojo, Giugliani. 2008. Factors associated with father involvement in infant care Rev Saude Publica, 42, pp. 1034-1040 

 

 

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