Humanização do parto para preservação

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Há quem diga que a humanização do parto é moda, que as mulheres comuns querem imitar as celebridades. Já ouvi também numa reunião de corpo clínico hospitalar que parto humanizado é ficar fazendo “carinho” nas gestantes em trabalho de parto e médicos não têm tempo pra isso. Outros que dizem que ter o bebê numa casa de parto ou domiciliar é uma loucura, que o parto pode virar uma emergência a qualquer momento. Enfim, falas diversas carregadas de preconceito.

Rafa Brites em trabalho de parto humanizado

Mas, por que é tão importante humanizar a assistência ao parto? Por que a ciência e as políticas públicas de saúde promovem a humanização do parto? Por que as mulheres buscam cada vez mais receber seus filhos de forma digna, respeitosa e cada vez mais natural?

Para a Organização Mundial de Saúde, “Humanizar o parto é um conjunto de condutas e procedimentos que promovem o parto e nascimento saudáveis, pois respeita o processo natural e evita condutas desnecessárias ou de risco para a mãe e o bebê”.

A pesquisa “Nascer no Brasil” relata que a maioria das mulheres (66%) declara a preferência pelo parto natural no início do pré-natal. Ou seja, intimamente as mulheres já sabem que esta é a melhor forma de nascer. Já considerando o risco gestacional, esta mesma pesquisa trouxe que ¼ das gestantes foi considerada de risco. Então, nada justifica a taxa de cesarianas ser tão alta no Brasil (46% no setor público e 88% no setor privado).

As evidências demonstram que o modelo medicalizado do nascimento repercutiu em desfechos obstétricos e neonatais insatisfatórios, com o aumento da taxa de cesariana desnecessária e aumento na taxa de nascimentos prematuros. Além de serem potencialmente prejudiciais, as intervenções médicas desnecessárias podem causar um impacto à saúde humana que vai além do que é visível aos olhos.

Microbirth Documentary

Através dos anos, a ciência também evoluiu microscopicamente. Com a pesquisa do sequenciamento genético, hoje sabemos que o indivíduo é habitado por milhares de microorganismos (microbiota) que são capazes de interagir beneficamente com os diversos sistemas através do nosso próprio genoma. O microbioma invade o corpo humano no momento do parto, quando o bebê entra em contato com a microbiota da vagina da mãe durante o parto normal, colonizados por probióticos. A biodiversidade desses microorganismos cresce rapidamente com o aleitamento materno, mais de 700 espécies só no colostro (1º leite).

Entretanto, o sistema imunológico desenvolvido ao nascimento pelo microbioma humano sofre alterações genéticas se fatores ambientais interferirem no seu equilíbrio, o que explica a humanidade estar enfrentando concomitantemente uma epidemia de doenças como asma, obesidade, diabetes, alergias. As pesquisas demonstram que perdemos 1/3 das bactérias do nosso microbioma relacionado à forma como nascemos nas últimas três décadas (aumento do parto cesárea), o que não permitiu o desenvolvimento completo do nosso sistema imunológico.

As mudanças epigenéticas (modificações no genoma que são hereditárias) ocorrem no DNA das células quando fatores ambientais afetam o modo como os genes são codificados (sem alterar o código genético).  Nascer por parto vaginal expõe o feto a um certo nível de estresse favorável à ativação do sistema imunológico. Essa ativação não acontece quando o parto cesárea é realizado antes do trabalho de parto começar. Além disso, os bebês são colonizados por bactérias hospitalares, tornando-os mais susceptíveis às infecções bacterianas desde o momento do nascimento.

Parto Cesárea – Google Imagens

Estamos diante de uma mudança na qual a alteração na expressão genética causada pela interferência na fisiologia do parto poderá ter um impacto que altere o curso da humanidade.  Na realidade não temos conhecimento de todas as consequências, mas sabemos que interferir na natureza pode causar danos irreversíveis.

Estudos vêm sendo realizados para minimizar os efeitos negativos dos partos hospitalares, com a utilização da secreção vaginal materna para a colonização dos bebês, mas por enquanto nada conclusivo. O que se sabe é que é benéfico preparar o organismo antes de engravidar com hábitos saudáveis como reduzir o estresse, parar de fumar, alimentar-se de probióticos. Durante a gestação e o parto, é recomendado evitar o uso de antibióticos desnecessários. Além disso, parir em casa e realizar aleitamento materno exclusivo demonstrou o desenvolvimento da melhor microbiota nos bebês. Após o nascimento é essencial o contato pele a pele,  não dar banho no bebê nas primeiras 24 horas assim como evitar produtos como sabão nas primeiras quatro semanas de vida.

Nesse sentido, humanizar o parto é promover um nascimento saudável e respeitar a natureza humana. Nascer de forma natural é proporcionar saúde por prazo indeterminado. Além de todos os benefícios já conhecidos do parto normal tanto para a mulher quanto para o bebê, preservar a espécie humana tornou-se um deles.

Parto na Água – Google Imagens

Referências

  • Organização Mundial da Saúde (OMS) – humanização do parto:

http://www.who.int/reproductivehealth/publications/intrapartum-care-guidelines/en/

  • Microbioma humano:

https://bioma4me.com.br/microbioma-entenda/

  • Filme Microbirth:

http://microbirth.com/the-film/

  • Pesquisa: Nascer no Brasil:

http://www6.ensp.fiocruz.br/nascerbrasil/resultados-esperados/

  • Epigenética:

https://medicalxpress.com/news/2014-07-cesarean-section-epigenetic.html

https://medicalxpress.com/news/2009-06-genetic-caesarean-section-disease.html#nRlv

  • Dicas sobre como melhorar o microbioma:

http://www.aleitamento.com/humanizacao-parto/conteudo.asp?cod=1984

 

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