Mulher de Fases

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Olá, sou Danielle, uma canceriana que fica quietinha na carapaça para que ninguém repare, mas que coloca todo mundo debaixo das grandes pinças pra cuidar com todo amor. Eu sempre fui a irmã que protege, a amiga que escuta, a  que resolve problemas, a que cuida de todo mundo e eu amo poder fazer isso. Sou casada há 5 anos e temos dois frutos do nosso amor, a Maria Júlia que tem 1 ano e 6 meses e estou grávida de 5 semanas, pouco tempo, mas já vivendo um amor intenso e tecendo planos malucos pro futuro. Sou formada em biomedicina e farmácia, e tenho minha própria empresa, o Laboratório Ideal, que foi o primeiro sonho de vida idealizado e realizado. Trabalham comigo minhas irmãs e meu marido, o que me dá muita confiança e torna o dia-a-dia mais leve e gratificante. Também sou professora há 9 anos, dando aula para o curso de farmácia, na área de análises clínicas. Gosto de aprender, de ler sobre vários assuntos. E gosto muito de ensinar e é ensinando que se aprende mais.

O meu despertar para a humanização

Eu era uma dessas pessoas que não entendia nada do mundo do parto, e achava que tudo o que eu havia ouvido falar, era o normal, “padrão”. E minha saída da bolha foi com minha amiga, que conseguiu um VBAC, com diabetes gestacional e 7 dias de bolsa rota. O vídeo do parto dela me hipnotizou, parecia uma luz no fim do túnel. Comecei a pesquisar, entrar em grupos que falavam de parto e ver que haviam outras possibilidades.

Fonte: Alessandra Ferreira

Foi então que li o nome doula, aquela que serve, é quem cuida especificamente do bem estar físico e emocional daquela mãe que está dando à luz, enquanto o médico está ocupado com os aspectos técnicos. E vi que era algo que eu poderia fazer, porque não participar de momentos mágicos como o dela?

Alguns anos depois, minha irmã mais nova e eu engravidamos, com pouco mais de 2 meses de diferença. Li tudo o que eu podia, absorvi muita informação. Procuramos uma doula pra nos acompanhar e receber o acalento e informações que faltavam. O parto dela foi o primeiro que assisti. O tampão saiu na madrugada e passamos o dia na expectativa. Acupuntura para ajudar a engrenar as contrações. Açaí pra dar energia e muita diversão com contrações no meio da rua e todo mundo olhando a gente com aquele olhar incrédulo de que ela estava em TP andando na rua. Noite adentro, as contrações foram se intensificando, chegamos no hospital com 6cm de dilatação. Muita massagem, banho quente, agachamento. Vejo a linha púrpura, idêntica a foto que eu vi a primeira vez. Uau.. Chegamos aos 10cm e a bebê ainda alta. Quando, após um banho e muito pedido de cesárea, ela pede pra deitar, e assim, a bolsa estoura. Ela muda completamente o semblante. Vira um bicho que está dando luz a cria. De cócoras na banheira, os puxos fazem ela vocalizar de uma forma que eu fico impressionada com a natureza tão sábia. Mas a bebê saía e voltava, saía e voltava. Ela senta na banqueta e eu a apóio por trás. Alguns puxos depois, vem ao mundo minha sobrinha, Alice, olhando pra mãe que está em êxtase. Eu desabo num choro de felicidade inexplicável. “É isso que eu quero pra mim!”, pensei alto! Sai de lá maravilhada com tudo, mesmo após quase 24 horas sem dormir. Como era tudo tão parecido com o que eu já havia lido. Como foi tudo tão perfeito. Eu pude ampará-la no momento que ela mais precisava, me fez me sentir nas nuvens. Um êxtase total.

Fonte: Alessandra Nunes

A minha mudança interior

Chegou a minha vez, o meu momento. Um parto, lindo e rápido, quase sem dor e tão diferente da minha irmã. Acordo com cólicas as 05:30 da manhã de domingo. Resolvo tomar um banho e elas intensificam.. vou terminar de arrumar as malas! E eu sem saber se vou ou não pro hospital, porque ainda acho que vai demorar demais, tenho um sinal: vômito. Chamo marido e vamos.. Playlist de parto no carro, sol no rosto.. “Tu vens, tu vens, eu já escuto os teus sinais”.. contração.. liga pra mãe, avisa.. contração.. chego no hospital as 08:30, com 6cm de dilatação. Encontro minha irmã do meio, que veio fotografar o parto e encontro também minha doula. Cardiotoco e um pouco mais já não consigo mais conversar e meu humor muda sem que eu perceba. Obstetra pede pra fazer um toque, e antes disso, a bolsa estoura. 9cm, pode descer pra sala de parto! Sala esta que eu nem consegui usar todos os artefatos, porque 30 minutos depois, já estava na banqueta, com minha bebê nos braços. Como cada parto é realmente diferente um do outro. Ahhh, como será esse meu próximo??

Ser Rede de Apoio

Durante a gestação, conhecemos mulheres incríveis através das doulas que montaram um grupo das doulandas que tinham a DPP próxima. Éramos um grupo de apoio e acabamos nos tornando amigas. E vi como todas nós tínhamos as mesmas dúvidas, os mesmos medos e receios, porém nos amparávamos. Estudávamos, íamos atras de informação, de bons pediatras, de ajudar no problema alheio. E essa vivência me deu mais vontade ainda de poder ajudar outras mulheres, porque se nós tínhamos a informação e buscávamos o que não entendiamos, já foi tão difícil passar pelo puerpério, e quem não tem essa rede de apoio?

Do nosso grupo, quase todas tiveram problema com amamentação, e ao meu ver, mais difícil que parir é amamentar. Percebi o quanto as mulheres tinham problemas com amamentação, por desinformação, por achismos, por ouvir falar. Busquei um curso para minha formação e uma forma onde eu pudesse empoderar o máximo de mulheres ao meu redor. Hoje, sou doula e consultora de amamentação e cada dia mais apaixonada por esse universo que é ter e criar filhos.

Fonte: Danielle Nunes

Doular também é ser doulada

Após minha formação de doula, resolvi atender aqui em Brasília as mulheres que me procurassem, porque eu queria pegar mais experiência também. E antes de engravidar, pude acompanhar dois partos. O primeiro foi super rápido e tranquilo, muito parecido com meu parto, o que me trouxe conforto e muitas boas lembranças e aquele sentimento de que seria tudo muito fácil sempre. O segundo, dois dias depois, ao meu ver, um parto difícil, lento, com muitas barreiras. Um parto que me fazia pensar que eu não daria conta de dar suporte pra ela, que eu estava cansada e falhando na minha missão. Na famosa hora da covardia, eu não conseguia acalmá-la, e nada do que eu falava conseguia trazer aquela mulher ao desejo inicial dela.. A enfermeira, com um olhar empático e doce, a acalmou. E eu pude ver o que eu poderia ter feito. Como é bom observar e aprender. Descanso.. E voltamos a ativa.

Quase 20 horas depois do Inicio do TP, vêm ao mundo, de parto totalmente natural na casa de parto, uma bebê de 41 semanas completas de gestação. Mas sai do parto ainda com um sentimento diferente do anterior.  E passei dias remoendo aquilo, aquele cansaço, o que eu poderia ter feito diferente, as frases dela de que não ia dar conta, todas as posições que tentamos, o que faltou? E conversando com uma amiga, ela me pergunta: “mas será que a sua visão de que foi um parto difícil não foi diferente da visão dela?”. E na visita de pós parto, pude ver quão maravilhada ela estava e a gratidão de eu ter estado ao lado dela, porque foi melhor do que ela esperava. E percebi que fiquei muito concentrada no que poderia ter feito mais, mas esqueci da parte importante, do apoio, do olho no olho, das frases de apoio! E é disso que ela lembra.. É esse sentimento de gratidão que me move, que me enche o coração de alegria. Que fez me enxergar tanta coisa na minha vida, que me fez crescer como doula e como pessoa, por ver que cada pessoa tem algo pra te dar e necessita de algo, que precisamos renascer dia a dia. E por isso, vejo como é tao importante ter uma doula no parto, porque a gente completa o que falta para a gestante e recebe o que nos falta. É uma doação perfeita.

Referências:

Percepções das mulheres sobre o apoio de Doula:  https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC1804309/

Utilização da “linha púrpura” como método clínico auxiliar para avaliação da fase ativa do trabalho de parto:   http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/livredocencia/100/tde-30062011-155136/en.php

 

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