Luto, mudanças e o caminho do coração

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Oi! Eu sou a Jana. Vim aqui para contar minha história, falar sobre meus caminhos e minhas escolhas. Sou doula, mas acredito que seguir essa “missão” não se trata apenas de uma questão de escolha, mas de uma transformação. Então vou contar como me tornei doula.

Quem eu era

Sou formada em Biologia, sempre muito apaixonada por fisiologia. Na faculdade descobri que queria trabalhar com pesquisa e estudar o nosso cérebro. Ao terminar a faculdade, vim pra USP de Ribeirão Preto desenvolver a pesquisa do bacharelado. Logo emendei mestrado e doutorado, pelo programa de Neurociência e Ciências do Comportamento.

A crise dos 30

Em 2016 tinha acabado de voltar de um ano de estágio de pesquisa nos EUA. Foi muito produtivo, tive um ótimo reconhecimento de meu trabalho, e de fato me dediquei muito. Mas a volta para o Brasil me trouxe milhões de incertezas. O final do doutorado já é um período difícil e estressante, e pra mim foi bastante intenso, trazendo à tona diversas inseguranças que já me preocupavam um pouco antes. Pensava nas dificuldades da carreira acadêmica, na carga de trabalho, em como conciliar uma futura maternidade e em como conciliar o casamento, pois eu e meu marido trabalhávamos na mesma área e seria um desafio passar em um concurso juntos. Enfim, eu sempre me imaginava uma mulher que priorizaria carreira em vez de família e filhos, porém passei a me questionar bastante sobre estes aspectos.

Sentindo um novo caminho

Defendi o doutorado e precisava de um período de descanso, pra pensar no que eu realmente buscava. No meio de todos os meus questionamentos, ao meu redor muitas amigas estavam grávidas ou tendo seu primeiro filho, e eu já achava aquele universo lindo. Quando minha melhor amiga engravidou, e nós passamos uma tarde inteira conversando sobre parto, gravidez e violência obstétrica, eu pensei: que incrível poder ajudar outras mulheres nesse caminho, em busca de empoderamento, informação e uma assistência de qualidade. Algo ali me chamou.

Comecei então a estudar e me apaixonei. Admirava quase todo dia a página de um curso de doula, quando um belo dia fiz minha inscrição. Fui pro curso sem ter ideia do quanto aquela experiência iria me modificar. Foram dias intensos, de muito aprendizado. Saí de lá me sentindo extremamente forte e poderosa, e não tem como ser diferente. A gente tem que descobrir a própria força pra poder despertar isso em outra mulher. Sentia que eu era capaz de ir atrás de qualquer sonho e percorrer qualquer caminho. E nada foi por acaso, pois eu precisava me reconectar com essa força interna pra poder passar pelo que viria.

Turma do Módulo I do Curso de Formação de Doulas do Despertar do Parto. Foto: Despertar do Parto.
Turma do Módulo II do Curso de Formação de Doulas do Despertar do Parto. Foto: arquivo pessoal.

Meu momento de luto

Na semana seguinte, de forma extremamente inesperada, meu pai se suicidou. A notícia me deixou sem chão, lembro ainda hoje da sensação, algo inacreditável. Iniciei ali um processo profundo de luto. Perder alguém é difícil, mas perder alguém dessa maneira torna tudo mais complicado de aceitar e lidar, pois por muito tempo ficamos tentando entender os motivos. Passei por um período avassalador de processos internos muito intensos e doloridos. Precisei resgatar em mim mesma coisas que havia perdido ao longo da vida: minha fé, minhas crenças e a conexão comigo mesma.

Eu tinha um mundo despedaçado em minhas mãos, e senti que eu só poderia fazer uma coisa: cuidar de mim. Cuidei da minha saúde, reiniciei a terapia. Fui ampliando minha consciência a respeito de tudo aqui dentro e ao meu redor, numa tentativa de ressignificar toda aquela dor. Durante o período de mais ou menos um ano, vivenciei meu luto das mais diversas formas e intensidades. O caminho que encontrei foi abrir a ferida e deixar sangrar, pelo tempo que fosse. Revirar aqui dentro, colocar tudo pra fora e costurar pra recolocar pra dentro com uma nova cor. Como na foto que eu tirei para ilustrar este post: no meio do caos sempre nasce uma flor, só precisamos estar abertos para encontrá-la.

Depois de toda a transformação vivida no curso e que reverberou por muitos meses, passei a me questionar ainda mais sobre minha vida profissional. Sentia um chamado de exercer algo com um propósito, que me nutrisse, que ajudasse diretamente outras pessoas, ainda mais depois de ver meu pai sempre tão infeliz com seu trabalho. A verdade é que após vivenciar a morte, eu buscava por vida. E trabalhar com gestação, parto e nascimento não poderia ter tanto significado. Ao acompanhar os primeiros partos e as primeiras mulheres, fui modificada pra sempre. Vi o que era executar um trabalho com amor. Via a vida ali, diante dos meus olhos, presenciava a transformação destas mulheres e a minha própria transformação.

Crise profissional, muito prazer!

Se iniciou então uma super crise, pois precisava organizar minha vida profissional. Nesse ponto, talvez o processo mais difícil foi tomar uma decisão: serei somente doula? Mas a cada dia eu me sentia mais tocada pelo mundo da humanização e menos tocada pelo que eu fazia anteriormente. Surgiram muitas dúvidas e muitos medos, mas aos poucos fui aprendendo a ouvir minha intuição e escolher o caminho com base naquilo que falava mais alto. Fui me desapegando do laboratório em que trabalhava, da ideia de ter um salário fixo, da ideia de estabilidade. Já que seria somente doula, eu me dedicaria ao máximo a tudo que poderia. Iniciei o processo de me afirmar como tal, principalmente pra mim mesma. Passei a frequentar todos os grupos de gestantes, fazer contatos, participar de tudo que conseguia: palestras, cursos, eventos. Nessa fase, foi essencial ter tempo sobrando. E o apoio emocional e financeiro do meu marido e da minha mãe também foram muito importantes. Sem contar os amigos, pois frequentemente eu ouvia: você nasceu pra ser doula, e isso só enchia meu coração de alegria.

Aos poucos fui conquistando meus espaços, com paciência pois afinal eu estava mudando completamente de área. Fui chamada pra uma parceria, a Maternescência, onde fiz amizades maravilhosas. Somos 3 doulas e é incrível poder ter outras pessoas pra compartilhar as alegrias e dificuldades. Comecei a colaborar com a mediação de um grupo de gestantes, o GAPP (Grupo Apoiado pelo Parto do Princípio). Passei também a integrar grupos de pesquisa na área de saúde da mulher. Hoje participo de um projeto que avalia como o acompanhamento de uma doula durante o trabalho de parto e parto impacta a liberação hormonal das parturientes e a satisfação com o parto. Ou seja, consigo utilizar toda minha bagagem científica junto com a grande paixão que é a doulagem. Isso é maravilhoso, pois um dos princípios da humanização da assistência é o emprego da medicina baseada em evidências.

Cíntia, Mayara e Eu. Nossa equipe de doulas da Maternescência.

Meu segundo luto, a perda gestacional

Em 2018 já estava em nossos planos tentar engravidar e acabou acontecendo mais rápido do que imaginávamos. Eu estava em estado pleno de felicidade, curtindo cada mudança em meu corpo. Mas ao fazer o primeiro ultrassom com 7 semanas, o embrião estava com um tamanho correspondente a 5 semanas e 6 dias, sem batimentos ainda. Fui orientada a repetir o exame na semana seguinte, pois poderia ter ocorrido uma ovulação tardia. Tentei ficar tranquila e ter muita fé durante essa semana, mas algo me encucava, pois eu sabia exatamente quando tinha engravidado e meu ciclo era muito regular. Ao repetir o ultrassom, o embrião estava do mesmo tamanho, sem batimentos. Ou seja, ele parou de se desenvolver e eu tive um aborto retido, pois não tive nenhum sangramento ou outro sintoma.

Guardo com muito carinho esta foto. Estava grávida de 6 semanas, naquele sono após o almoço, e meus cachorros pareciam querer ficar sempre perto de mim. Foto do marido, Rafael Ruggiero.

Por outra vez eu senti o chão se abrir. Nesse dia e nos dias que seguiram, eu pude sentir na pele todos aqueles sentimentos dos quais eu ouvia falar por outras mulheres. Fiquei completamente perdida e muito triste, lamentando a perda de toda aquela felicidade. Mesmo sabendo que é algo que acontece com bastante frequência no primeiro trimestre  (acomete cerca de 15 a 20 % das gestações), a gente nunca pensa que vai acontecer com a gente. Em um piscar de olhos, todas as expectativas se quebram. Novamente, me permiti viver o processo de luto por inteiro. Conversei com mulheres que passaram por isso, tive uma rede de apoio muito grande. É um processo difícil, e falar sobre ele é essencial.

Com tudo isso, me dei conta de que eu, como doula, sabia muito pouco sobre perda gestacional, sobre procedimentos, sobre riscos e benefícios de cada conduta. Irei dedicar um texto somente a isso, pois acredito que cada experiência vem para nos ensinar algo e, além do meu próprio aprendizado, eu posso ajudar outras mulheres através da informação. A perda gestacional é um evento obscuro e solitário, do qual não se fala, com o qual não sabemos lidar. Percebemos a dimensão quando passamos por isso, e então descobrimos o grande número de mulheres que vivenciam isso sozinhas e o quanto é dolorido. Uma mulher jamais esquece uma perda, que estará sempre ali presente em sua memória e em sua história obstétrica. Além disso, as instituições de saúde não estão preparadas para lidar com estas situações, falta ainda um grande passo para a humanização.

Doula: o meu caminho do coração

O fato é que o luto nos modifica, e muito. Compreendi melhor a dimensão de uma perda e como tudo toca cada um de uma maneira peculiar, que deve ser respeitada e acolhida. Com toda certeza do mundo, ter passado por esses processos pessoais me transformou como pessoa e como profissional. Me trouxeram empatia e muito mais sensibilidade. Eu fui aprendendo caminhos, fui me curando, pois também é preciso estar inteiro pra cuidar do outro. 

Me tornei doula no meio desse caminho tortuoso, mas que é o meu caminho, minha história, onde consigo enxergar muita beleza, pois me permite ser quem sou hoje. Pode soar estranho, mas aprendi que pra lidar com a vida, nós também precisamos aprender a lidar com a morte. Não digo apenas a morte em seu sentido literal, mas no sentido de vivermos um eterno ciclo de construção e desconstrução, onde às vezes precisamos deixar morrer alguma parte, pra renascer outra, muito mais bonita. E eu tenho orgulho de dizer que executo um trabalho que me permite viver em minha essência e estimular em outras mulheres sua própria força, num momento tão especial de suas vidas.

Referências Bibliográficas:

Parto, aborto e puerpério: assistência humanizada à mulher. Ministério da Saúde (2001).

Continuous support for women during childbirth. Cochrane Database Syst Rev. Bohren et al (2017).

Treatment of miscarriage: current practice and rationale. Obstetrics & Gynecology. Hemminki (1998).

Como lidar: luto perinatal. Ema Livros. Heloisa de Oliveira Salgado e Carla Andreucci Polido (2018).

 

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