Doula: um modo de apoiar mulheres à se redescobrir

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De menina a mulher, mãe e doula.
Após gestar, parir e nutrir duas meninas, a vida me ofereceu novos caminhos.
Mudei completamente meu ser, minhas prioridades e comecei a trilhar o caminho na luz do partejar.

Como tudo começou
Em meados de 2010, vivenciando uma relação estável, meu companheiro na época e eu resolvemos ter uma criança. Sou natural de Botucatu/SP, mas naquele momento morávamos em Campinas/SP. Já havíamos passado por um aborto, o que aumentou ainda mais nossa vontade de gestar.

Vivíamos juntos há dois anos e sabíamos que, para as famílias de ambos, seria mais confortável que nos casássemos antes. Pois bem, casamos; bem rápido, inclusive.

Dois meses após o casamento viajamos em “lua de mel”. Lembro de ter relaxado um pouco sobre a ideia de engravidar, até porque queria curtir a viagem, tomar uns drinques, etc. Mas durante a viagem veio a confirmação: sim, eu estava grávida.

A descoberta da gestação foi muito engraçada e feliz. Fiz ao todo quatro testes; três de farmácia deram negativos, mas o de sangue confirmou.

Gestação & parto: primeira experiência

Já no expulsivo, última ausculta fetal antes de parir

Como a maioria das gestantes de primeira viagem, além de iniciar o pré-natal, comecei a me debruçar em diversas leituras sobre gestação e parto. O que esperar de mudanças no corpo, como é o desenvolvimento do bebê e, claro, o parto em si. Amamentação não era algo tão preocupante pra mim, o que depois vim a descobrir que foi um erro, pois a amamentação é muito importante SIM (em outro post falaremos sobre isso também).

O que eu sabia era que cesárea não era uma opção, apenas em caso de emergência. Inocente, mesmo me debruçado em leituras, pensava que era só ir ao hospital quando chegasse a hora e tudo seria tranquilo. Ledo engano…

Com 35 semanas de gestação conheci um grupo de gestantes conduzido por doulas e obstetrizes, Grupo Samaúma. Além de frequentar as rodas de gestantes semanalmente, descobri as intervenções obstétricas e seu uso desnecessário; descobri os mitos da cesárea e que, para parir, precisamos nos informar. Também descobri que poderia parir em casa e a partir daí nossos planos se voltaram pra essa escolha. Equipe contratada me acompanhando e pronto, só aguardar.

Com 37 semanas ainda fazia o pré-natal pelo plano de saúde (era só pra ter os exames mesmo). O médico, que fez exame de toque a gestação inteira, me tocou, disse que eu não tinha dilatação e, se eu não tinha até agora, provavelmente não dilataria para parir.

Saí de lá com uma carta de encaminhamento pra cesárea e muitas lágrimas nos olhos. Minha mãe estava com aquela cara me dizendo coisas do tipo “Vamos já pegar as coisas e ir pro hospital”.

Não deixei o nervosismo bater e liguei pra minha parteira. De prontidão ela disse pra eu não ligar pro médico, o bebê estava bem e era normal não ter dilatação antes do trabalho de parto — afinal, ele serve justamente para dilatar.
Confiei nela, em mim e no processo natural da vida.

Com 41 semanas e 6 dias, depois de muita ansiedade e família apavorada que o bebê ia “passar da hora”, o trabalho de parto começou. Liguei pra doula, avisei a parteira e após seis horas de livre movimentação, sexo pra estimular a ocitocina e afinar o colo do útero e muito chuveiro, escolhi parir de cócoras na banqueta. Marrie chega ao mundo  junto com o sol, eu renasço como mulher e uma doula nasce.

Início da caminhada como doula

Encerramento das atividades anuais do Grupo Sagrado Feminino


Parir foi transformador pra mim e eu queria muito que as mulheres pudessem sentir isso. Queria que elas tivessem a oportunidade de se informar com qualidade, escolher e propiciar um parto/nascimento digno, cheio de liberdade, amor e potência, tanto faz se em casa ou no hospital.

Muitas coisas nos levaram a mudar pra Manaus/AM no início de 2013. Marrie tinha um ano e meio. Meses depois eu engravidei de novo.

Cidade nova, clima novo (lá é bem úmido e quente). Iniciei a busca por mais um parto com respeito e me envolvi com diversas pessoas interessadas no assunto: enfermeiros obstetras, obstetrizes, doulas, grupo de gestantes. Surge então o curso de doulas pelo projeto de extensão na UEA (Universidade Estadual do Amazonas).

Neste projeto me formei doula e nas edições seguintes eu mesma conduzi alguns temas. Foi também participando desse projeto que conheci meu parteiro (sim, foi um homem!) e minhas companheiras de caminhada na humanização do parto, com as quais fundei o Sagrado Feminino  Maternidade consciente, através do qual oferecíamos rodas de gestantes, cursos e oficinas, além de acompanhamento particular e voluntariado nas maternidades públicas de Manaus.

Gestação & parto: segunda experiência

Amamentação e contato pele a pele no primeiro minuto de vida (notem que o cordão ainda está conectado a placenta que ainda não tinha “nascido”)

Mesmo tendo enjoos e azia ao longo dos nove meses, fui muito ativa durante minha segunda gestação. Além disso, tinha a pequena Marrie pra cuidar, o que foi bem desgastante.

Acompanhei gestantes e seus partos até minha 35ª semana, quando descobrimos que meu índice de líquido amniótico (ILA) estava muito baixo (4cm), caracterizando oligodrâmnio. Por conta disso precisei desacelerar, me poupar e tomar mais líquido, pois a causa era desidratação e não rompimento de bolsa ou  problemas fetais e de placenta que podem afetar a quantidade de líquido amniótico (podemos conversar mais sobre isso em outro post).
Consegui recuperar um pouco de líquido e chegar ao mínimo aceitável (8cm).

Tive sorte de ser acompanhada por uma equipe humanizada, que teve a cautela e a paciência necessárias para averiguar o caso sem falsos alardes.

Com 39 semanas, mais uma vez muito chuveiro. Após três horas de trabalho de parto Deziree (o sexo dela foi surpresa) nasce no conforto do nosso lar, com a presença da irmã mais velha, pai e avó (que também participou do primeiro).

A doula que em mim habita

O tal parto que durou 3 dias, essa foto foi do primeiro dia e meio


Não preciso nem comentar que durante o primeiro ano não consegui dar conta de cuidar de duas, amamentar em livre demanda e acompanhar gestantes — acompanhei apenas o parto de uma amiga querida, que durou 3 dias, quando Dezi tinha apenas 2 meses.

Após esse período de recolhimento algo novo surgiu em mim. Uma vontade de aliar meu trabalho como doula e educação perinatal aos cuidados e terapias naturais se acendeu em mim (nesse meio tempo fiz mais um curso imersivo de doula e outro de educadora perinatal).

Morei 3 anos em Manaus e em minha volta havia muitos saberes ancestrais de parteria tradicional. Nesses anos lá ouvi, vi e aprendi muita coisa do tipo: chá de samaúma é bom pra aumentar líquido, banho de folha de bananeira pra ajudar na dilatação, café com manteiga no expulsivo pro bebê “escorregar”, como era o parto das nativas e que posições usavam pra facilitar; que meu queridinho Crajiru , planta amazônica que ajuda a recuperação pós-parto e, principalmente, como é naturalizado por elas o processo de parir. Tanto aprendi e me identifiquei com estes ensinamentos que comecei a fazer sabonetes naturais e saquinhos de ervas para auxiliar na gestação, parto e pós-parto das mulheres que acompanhei.

Algum tempo depois me separei do pai das meninas e, entre sair de Manaus e voltar para minha cidade natal fiz algumas paradas em Curitiba (PR), Porto Alegre e Santa Maria/RS. Nestas andanças reuni mais saberes através das rodas de gestantes que participei, dos cursos e oficinas que ofereci e da convivência com mulheres maravilhosas abertas ao compartilhar.

Hoje em dia

Parto domiciliar planejado em Dez/17

Em 2016 voltei para Botucatu, aonde continuo morando. Junto a uma grande parceira aprimorei o feitio de cosméticos naturais e criamos a SEŸVA  Alquimia Caseira, oferecendo produtos para mulheres em todas as fases (jovem, mãe e anciã), assim como para nossos queridos homens que buscam descontruir padrões e bebês/crianças, ou seja, produtos de higiene natural para todas as fases e idades.

Em 2017, com uma amiga (também doula), fundei o Gestar Botucatu  Grupo de apoio à gestação. Começamos pequenas, oferecendo acompanhamento como doula, promovendo rodas de gestantes, cursos e oficinas. Hoje contamos com parcerias da Secretaria Municipal de Saúde e da LIGOM (Liga de Ginecologia, Obstetrícia e Mastologia da UNESP Botucatu) no trabalho de informar, baseado em evidências científicas, toda população de Botucatu e região.

No momento estou finalizando o curso de Naturopatia e sigo trilhando, construindo e cocriando nesse caminho, aliando ciência à sabedoria ancestral e natural.

Em breve trarei novidades sobre novos projetos e parcerias, até porque ainda há muito para se aprender e fazer para apoiar mulheres e famílias na busca pela construção de uma maternidade ativa.

Até o próximo post!

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