‘Doulalista’: como uma jornalista se tornou doula

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Com a boneca nos braços, a menina embala e canta uma canção de ninar. A mãe observa o cuidado da filha e diz:

– Nunca vou esquecer o dia em que você nasceu.

– Eu era bem pequena, né? Igual a minha boneca? – sussurra a pequena.

– Você cabia em uma caixa de sapatos e estava bem roxinha. Deu um susto na mamãe!

– E eu nem chorei! – afirma, com um sorriso no cantinho da boca.

– Quando a médica te tirou, você só deu um gritinho. Ela te colocou na minha barriga e você foi subindo, se arrastando bem devagarzinho, como uma ‘minhoquinha’. – lembra saudosa.

– Eca… Minhoca é feia! – murmura, fazendo careta e tentando não “acordar” a boneca.

– Mas você era linda e, quando chegou perto do meu rosto, ficou com olhos arregalados me olhando, como se dissesse “Oi, mamãe! Cheguei!”.

Minha mãe, em foto tirada poucos dias antes de eu nascer (Álbum de Família)

Você sabe como foi o seu nascimento?

Era assim que minha mãe contava como foi o meu nascimento, às 18h14 de 27 de outubro de 1985, na Vila Mariana, em São Paulo. Acredito que essa história foi um incentivo ao meu sonho de ter filhos e a paixão por bebês e grávidas desde que “me conheço por gente”. Porém, já adulta, descobri detalhes nada felizes daquele momento que ela recordava com carinho.

Minha irmã nasceu em uma cesárea de emergência, por conta de descolamento de placenta, quando eu tinha 5 anos de idade. Ambas quase morreram na mesa de cirurgia. Entretanto, ao revelar que gostaria de parir naturalmente – os planos são 3 filhos, mas vamos ver, rs! –, minha mãe disse: “Você não vai agüentar; é horrível. Melhor cesárea”.

Ué, como ela sempre contou sobre meu parto com alegria e, de repente, ele se tornou motivo de tristeza?

Eu recém-nascida e, segundo minha mãe, “tão pequena que cabia em uma caixa de sapatos” (Álbum de Família)

Parto ‘anormal’

Sou jornalista, com gosto pela leitura. Em 2012, comecei a ler sobre assuntos relacionados ao parto, nascimento e amamentação, em preparação para gerar, parir e nutrir meus futuros filhos. Descobri, não um mundo, mas um universo! E a primeira lição foi a mais surpreendente: parto natural e parto normal não-são-a-mesma-coisa.

Agora, eu estava munida de informações suficientes para desvendar o mistério que envolvia o dia em que eu nasci. Pedi a minha mãe para contar exatamente o que aconteceu durante as 27 horas desde o rompimento da bolsa até o meu nascimento. Qual foi minha surpresa ao, enfim, entender que ela não teve nem um, nem outro. Foi um parto “anormal”.

Entre as intervenções para acelerar o processo, ela recebeu ocitocina sintética, sofreu duas episiotomias (uma de cada lado!) e ainda ouviu a obstetra falar em tom de deboche: “na hora de fazer não doeu”, “entrou, vai ter que sair”. Fui retirada com fórceps e, nas palavras da minha mãe, “era tão pequena que cabia em uma caixa de sapatos”.

Eu mal tinha nascido e já senti, na pele, a dor nua e crua da violência obstétrica.

Estudar sobre o que amamos é prazeroso (Apostilas do Instituto Ser e Saber Consciente)

De vítima à testemunha

Saber a história completa foi um choque e um estímulo. Como Manaus (AM) não tinha opções, estudava sozinha e acompanhava profissionais da humanização nas redes sociais. Mas eu precisava fazer a diferença na prática! E, no meu aniversário de 28 anos, em 2015, ganhei o melhor presente do meu marido: dois cursos de Doula.

Fiz parte da primeira turma da Arcos – Assessoria e Serviço em Saúde, reconhecida Conselho Regional de Enfermagem (Coren-AM); e me aprimorei à distância, com o material do Instituto Internacional Aella – Ser&Saber Consciente. Em fevereiro de 2016, comecei a “servir mulheres” na capital amazonense, onde morei até novembro passado.

Eu estava ansiosa para colocar em prática o que aprendi na teoria. Porém, a primeira experiência foi traumática. No estágio supervisionado em uma maternidade pública conhecida, vi uma médica transformar o exame de toque em um “estupro”. E o desfecho foi trágico: o bebê dessa mulher veio a óbito por negligência.

Mãe Kácia, pai Tiago e eu na chegada da Letícia, um parto inesquecível e cheio de amor (Foto Autorizada)

‘Doula a quem doer’

Fui tomada por pesadelos horrorosos por uma semana, culpa e impotência devastadoras. Quase desisti. Mas quantas mulheres passariam por aquilo se não houvesse alguém para informá-las de seus direitos? Quem ficaria ao lado delas? Enxuguei as lágrimas e tomei uma decisão: não posso mudar o sistema, mas vou fazer parte da mudança.

Desde então, acompanhei a chegada de muitos bebês, seja em Parto Domiciliar Planejado (PDP), ou em ambiente hospitalar. Participei de oficinas e palestras no Simpósio Internacional de Assistência ao Parto (Siaparto), criei um blog e administro um grupo de apoio no WhatsApp chamado “Mães Empoderadas”.

Parto Domiciliar Planejado da Klicyane, nascimento do Bernardo (Érica Melo)

Por que ter uma Doula?

Entre alguns dos benefícios cientificamente comprovados, a presença da Doula proporciona à mulher:

  • Maior chance de parto vaginal espontâneo;
  • Menor necessidade de analgesia farmacológica e maior satisfação com o parto;
  • Menor duração do trabalho de parto;
  • Menor taxa de cesariana ou parto instrumental;

Como cristã, tenho fé na criação do corpo feminino para dar à luz e respeito à crença de cada pessoa. Como mulher, acredito na força e potencial que todas temos para gerar, parir e nutrir. Como jornalista, sou a favor da autonomia com base em informações de qualidade. Como Doula, sei também que o ser humano tem limites e a Ciência é bem-vinda para ajudar no que for necessário.

Deseja ter uma Doula? Estou à disposição para servir.

Glossário e referências bibliográficas

Cesárea/Cesariana: Operação cirúrgica que consiste em extrair um feto por meio de uma incisão no ventre e no útero da mãe, geralmente quando o parto natural não é possível.

Descolamento de placenta: quando a placenta se desprende da parede interna do útero antes do parto, podendo privar o bebê de oxigênio e nutrientes. É indicação para cesárea.

Parto Natural: ato fisiológico e espontâneo, sem intervenções médicas; a mulher é apenas observada pelos profissionais de saúde.

Parto Normal: quando há algum tipo de intervenção médica durante o trabalho de parto, como punção para colocar soro, uso de ocitocina sintética, entre outras práticas.

Ocitocina: é um hormônio natural que estimula as contrações do colo do útero; a forma sintética é utilizada para a indução do trabalho de parto, ou quando as contrações se tornam espaçadas.

Episiotomia: corte no períneo para aumentar o canal de parto; não existem estudos que comprovem a eficácia da intervenção no período expulsivo, considerada mutilação genital.

Fórceps: instrumento cirúrgico de dois ramos articulados para extração do feto do útero.

Violência Obstétrica: é caracterizada pela apropriação do corpo e processos reprodutivos das mulheres pelos profissionais de saúde, por meio do tratamento desumanizado, abuso da medicalização e “patologização” dos processos naturais, causando a perda da autonomia e capacidade de decidir livremente sobre seus corpos e sexualidade, impactando negativamente na qualidade de vidas das mulheres.

Doula: do grego “mulher que serve”; mulheres que dão suporte físico e emocional a outras mulheres antes, durante e após o parto.

Exame de Toque: avaliação do colo do útero durante o trabalho de parto, inserindo o dedo médico e o indicador para saber a dilatação.

Parto Domiciliar Planejado (PDP): parto realizado em casa, com uma equipe qualificada/especializada.

Diploma do curso presencial em Manaus, da Arcos Saúde

Cursos/Formação: Arcos SaúdeInstituto Internacional Aella Ser&Saber ConscienteSiaparto;

Cidade: São Paulo (SP), com atendimento na Zona Norte

Contato: (11) 97965-4689 (TIM)

E-mail: caplan.natalia@gmail.com

Facebook: www.facebook.com/doulanataliacaplan/

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3 respostas para “‘Doulalista’: como uma jornalista se tornou doula”

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