Os riscos da cesariana eletiva

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No Brasil, a maioria dos bebês tanto na rede pública quanto na particular ainda nasce por cesariana. A cesárea é uma cirurgia de grande porte que salva vidas quando realizada quando há real indicação. O maior problema é o crescente número de cesáreas eletivas – a cirurgia é agendada antes de a gestante ter qualquer sinal de trabalho de parto (o que acontece para cerca de um milhão de mulheres, todos os anos, somente no Brasil – assustador esse número, não é?). Quando realizada em gestantes de baixo risco pode acarretar uma série de problemas para a saúde da mãe e do bebê, os quais serão abordados mais adiante neste post.

No setor privado, a proporção de cesarianas é bem maior, chegando a 88% dos nascimentos. No setor publico, as cesarianas chegam a 46%. Dois indicadores muito distantes ainda dos 15% recomendados pela OMS.

Sejamos francos: o assunto é pertinente – e polêmico. Em tempos de resgate ao parto natural e respeitoso, é esperado que a mulher que se descobre grávida pare e pense pelo menos uma vez como essa gestação termina: em parto normal ou cesariana? E quando se fala nessas possibilidades, também deveria ser natural pensar nos prós e contras de cada uma. E será que realmente temos essas informações acessíveis? O que se leva em consideração para se fazer essa escolha? O que se vê na prática é que geralmente as gestantes acabam tendo a visão fornecida pelo profissional médico que as assiste – e este muitas vezes expõe somente o lado bom da cirurgia, algo como: “Você não vai sentir nada!”; “É um procedimento controlado e seguro” – entre muitas outras explicações nem sempre reais. Por questões culturais, somos levados a pensar que o médico estudou muito para poder orientar e não consideramos que essa indicação possa ser em benefício próprio: a agenda e consultório cheios que se encaixam redondinho com a cirurgia agendada. Se você ficou em dúvida e quer descobrir se esse é o perfil do seu médico obstetra, clique aqui.

Existem inclusive dados científicos que comprovam essa teoria. A pesquisa Nascer no Brasil, realizada entre 2011 e 2012, foi a primeira pesquisa a oferecer um panorama nacional sobre a situação da atenção ao parto e nascimento no Brasil. Foram ouvidas 23.894 mulheres, atendidas em hospitais públicos, privados e mistos (confira os resultados da pesquisa aqui). Nesta pesquisa, cerca de 70% dessas mulheres desejava um parto vaginal no início da gravidez. As que optaram por cesariana atribuíram sua escolha ao medo da dor do parto. Observou-se uma mudança na preferência pelo tipo de parto durante a evolução da gestação, que não pode ser atribuída a ocorrência de problemas ou complicações, mas possivelmente à orientação que é dada no pré-natal, induzindo à mudança. E olha outro dado que comprova a importância do preparo da mulher para o parto: as mulheres que se mantiveram firmes na decisão pelo parto normal foram as que tiveram o menor índice de cesarianas (20%).

Então quais os riscos da cesária eletiva?

Parto cesariana – Por Salim Fadhley

Se pensarmos racionalmente, deveria ser natural a preocupação em sabermos os riscos do procedimento que estamos prestes a fazer, certo? Querer saber quais as vantagens e qual o “preço a ser pago” por essa escolha. No caso da cesárea, aí estão:

Maior índice de prematuridade

Vou te contar um segredo que provavelmente passou batido pelo seu obstetra: a idade gestacional só pode ser confirmada após o nascimento do bebê, e não por aquele ultrassom feito lá pelas 37 ou 38 semanas. Mesmo que você tenha um ciclo menstrual super regular, mesmo que saiba exatamente o dia da concepção… Nenhuma dessas informações é precisa o suficiente para predizer a idade gestacional, pois a fecundação e a nidação (que é quando o óvulo fecundado se implanta na parede do útero e começa a cascata hormonal gestacional na mulher) têm uma janela de tempo que vai de 7 a 15 dias. Traduzindo: a idade gestacional constatada em exames clínicos tem uma margem de erro de 2 semanas, para mais e para menos. Olha o susto com essa informação: você agenda sua cesariana com 39 semanas e a idade gestacional real após o nascimento dá 37 – embora não sejam considerados prematuros esses bebês poderiam ganhar mais peso e maturidade se tivessem a chance de chegar a 39 semanas ou mais de gestação; também já se comprovou em diversos estudos que essas crianças são mais frequentemente internadas em UTIs, necessitam de maior suporte ventilatório para respirar, além de maior risco de morbidade (surgimento de doenças e estudo do seu comportamento em uma população) e mortalidade (risco de óbito). Não parece tão seguro, não é mesmo?

– Maior chance de problemas respiratórios:

Duas diferenças básicas entre a cesariana eletiva e o parto normal são decisivas aqui: primeiro, o pulmão do bebê é o último órgão a amadurecer e deixa-lo pronto. Entende agora aquela história de que o parto foi prematuro e tiveram que injetar uma substância para amadurecer os pulmões do bebê? Pois é, sem pulmões prontos, o bebê não inicia o trabalho de parto – porque quem dá o start é ele! Segundo, no parto normal a pelve da mãe abraça o tórax do bebê, na sua saída. Esse apertão auxilia na retirada de grande parte do líquido amniótico que estava nos seus pulmões, facilitando também a entrada do ar e o processo respiratório acontecer naturalmente. Na cesariana esse líquido tende a ficar em maior quantidade nos pulmões, retardando o estabelecimento da respiração. Sem contar a questão hormonal: a adrenalina liberada pelo corpo da mãe durante a fase final do trabalho de parto “acorda” esse bebê, deixando-o mais atento e reativo para essa transição.

 

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– Bebê sob efeitos da anestesia:

Os anestésicos aplicados na mãe durante a cesárea podem surtir efeito no bebê, que pode ter redução dos reflexos nas primeiras horas após o nascimento. E pra quem já ouviu o termo “hora dourada” (entenda  aqui), sabe que as consequências podem ser bem ruins: a primeira hora de vida do bebê é importante para que ele reconheça a mãe e entre em contato com a sua microbiota, para que se estabeleça a amamentação, entre outras vantagens. Mas se esse bebê está sob o efeito de sedativos, essa interação pode ser prejudicada. Esse bebê inclusive pode ser afastado da mãe para observar suas respostas, retardando a amamentação na primeira hora de vida e o estabelecimento do vínculo.

– Maior risco de morte e infecção da mãe:

Dados do Ministério da Saúde (2000-2011) apontam o risco de morte materna cerca de 3,5 vezes maior nas cesarianas quando comparado ao parto normal. Quanto à infecção, por ser um procedimento cirúrgico, a cesariana leva a um risco 5 vezes maior de contraí-la.

­- Descida do leite tardia:

A mulher que passa pelo trabalho de parto libera uma cascata de hormônios que favorecem a descida e a saída do leite da mama. Nas cesárias eletivas, não há essa liberação hormonal. A descida do leite – mais conhecida como apojadura, pode levar mais dias para acontecer, pois dependerá somente do estímulo de sucção do bebê.

– Recuperação materna mais lenta:

Esse é um dos principais motivos pelos quais as mulheres escolhem inicialmente o parto normal. E sim, convenhamos que é muito mais fácil cuidar de um recém-nascido sem cortes para cuidar, posições a se evitar, esforços a se fazer. Já ouvi algumas mulheres compararem o cuidado com o corte da cesárea com o da episiotomia: “prefiro cuidar de um corte em cima que de um corte embaixo”. Aqui entram algumas questões: já se comprovou que episiotomia não deve ser feita de rotina; e mesmo que você sofra alguma laceração, a sutura muito provavelmente será bem menor que de uma cesariana. O edema na região do períneo pode causar certo desconforto nos primeiros dias, mas se resolve muito mais rapidamente que uma incisão que envolve sete camadas do corpo como acontece na cesárea.

– Maior risco de obesidade nos bebês

Esse é um dado de uma pesquisa da USP, comprovando o aumento do risco de obesidade em adultos jovens. Isso acontece em função das mudanças na microbiota intestinal dos bebês, por não terem passado pelo canal vaginal.

Fonte: ANS

E quando a cesárea é realmente necessária? 

Sabendo dos riscos, agora podemos conhecer as indicações absolutas da cirurgia:

– Quando a placenta cobre parcial ou totalmente o colo do útero, impedindo a saída do bebê, a chamada placenta prévia;
– Caso a mãe tenha herpes genital com lesão ativa no momento do parto;
– Se o bebê está atravessado, mas antes é possível tentar ajudá-lo a ficar na posição correta;
– Nos casos em que a gestante tenha AIDS com carga viral muito alta ou desconhecida;
– Quando há descolamento prematuro de placenta;
– Nas situações em que o cordão umbilical penetra no canal de parto antes do bebê.

Aqui você encontra uma lista com todas as indicações reais e fictícias de cesariana.

E o que eu faço com meu medo de parir?

Créditos – Alex Hockett

O medo da dor ainda é um dos principais fatores que determinam a escolha da mulher pela cesariana. E o que a gente faz com o medo? Põe informação pra ele ir embora! É trabalho em conjunto, mana! Você entra com a busca pela informação (começando pela minha humilde ajudinha aqui!) e a ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar) também já fez sua parte lançando o Projeto Parto Adequado.  Iniciado em 2015, os benefícios do parto normal são abordados de forma explicativa na campanha, destacando-se: menor risco de complicações para a mãe e o bebê decorrentes da cirurgia; indução ao aleitamento materno, devido à liberação de hormônios que facilitam o início da amamentação;  contato imediato entre mãe e bebê, estimulando a interação materna; preparação do bebê para o ambiente externo, com maior amadurecimento do pulmão  e contato com as bactérias benéficas da mãe, reduzindo a incidência de doenças infantis; recuperação mais rápida do útero e do corpo da mulher.

O projeto está em sua Fase 2, a ser concluída em maio de 2019. Nesta etapa, participam hospitais e operadoras de todo o país. Foram selecionadas 136 maternidades e 68 operadoras de planos de saúde que manifestaram interesse em atuar como apoiadoras do projeto (confira se as da sua região participam clicando aqui).

Sobre os resultados já comprovados, a 1ª Fase provou que a alarmante escalada de cesáreas no Brasil pode ser revertida. O balanço de conclusões, apresentado em novembro de 2016, mostrou que a taxa de partos vaginais nos hospitais que fizeram parte do projeto piloto – ou seja, que participaram de todas as estratégias adotadas – cresceu em média 76%, saindo de 21% em 2014 para 37% em 2016. A Fase 2 do projeto está acontecendo e terá seus primeiros resultados divulgados no primeiro semestre de 2018.

O projeto fará a diferença na conscientização das mulheres para o parto normal, já que as histórias de partos sofridos e mal sucedidos geralmente são resultado da má assistência prestada. Afinal, ninguém quer passar por uma experiência traumática em um momento tão único na vida, certo? Fazemos a nossa parte, oferecendo informação que confere poder de escolha à mulher e as instituições assistem a ela de forma respeitosa. Quanto mais essa combinação acontecer para as mulheres, menor a chance de cair no conto do médico cesarista, com certeza!

Fonte: ANS

Informe-se!

Até a próxima!

 

 

Para saber mais:

Projeto Parto Adequado. http://www.ans.gov.br/gestao-em-saude/projeto-parto-adequado

Os riscos de agendar um parto cesárea sem necessidade. http://revistacrescer.globo.com/Revista/Crescer/0,,EMI21536-10584,00-PARTO+CESAREA+OS+RISCOS+DE+UMA+CIRURGIA+AGENDADA+SEM+NECESSIDADE.html

Os riscos da cesárea agendada. https://bebemamae.com/gravidez/os-riscos-da-cesarea-agendada

Indicações reais e fictícias de cesariana. http://estudamelania.blogspot.com.br/2012/08/indicacoes-reais-e-ficticias-de.html

Pesquisa Nascer no Brasil. http://www.ensp.fiocruz.br/portal-ensp/informe/site/arquivos/anexos/nascerweb.pdf

Nascer no Brasil: Cesárea, mitos e riscos. https://www.youtube.com/watch?v=kNZQnYn7PkE

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