Amamentação sem grilos

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Gabrielle Gimenez, pesquisadora em amamentação, afirma que a recomendação médica de complementação com leite artificial deveria estar para a amamentação como a cesárea está para a via de nascimento, ou seja, como última opção, indicada apenas para preservar a vida em caso de risco real e iminente. Infelizmente, a sociedade atual não contribui para que isso seja uma realidade. A indústria do leite investe pesado para que a qualquer sinal de dificuldade as mulheres usem fórmula; as sogras, avós e maridos estão cheios de mitos sobre o leite materno (que ele não sustenta, é fraco, insuficiente ou substituível), nossas leis trabalhistas e o mercado de trabalho praticamente inviabilizam a amamentação após os 4 meses de vida, prejudicando o desenvolvimento das crianças que serão o futuro da sociedade e que portanto deveriam ser responsabilidade de todos. Neste artigo falaremos um pouco do que é necessário para levar esse processo com mais leveza e driblar as maiores dificuldades e armadilhas que se apresentam para o aleitamento materno no atual cenário.

Uma cultura construída ao redor de fórmulas lácteas

O leite materno é de longe o melhor e mais completo alimento durante os primeiros 6 meses de vida, deve ser o principal alimento até o 1º ano de vida, e apresenta benefícios para criança até 2 anos ou mais. A amamentação fornece nutrição e proteção imunológica especialmente adequadas para a criança que está sendo amamentada, pois a produção do tipo de leite muda de acordo com as necessidades do bebê, sua idade e fases de desenvolvimento. Estudos mostram que o mamilo da mulher capta substâncias da saliva do bebê que indicam ao seu corpo que tipo de leite produzir. (Sintonia incrível, não?!).

Ao contrário do que se imagina, amamentar não é tão natural para as mães como é para os bebês. O bebê, como bom mamífero, procura instintivamente o seio materno ao nascer e, se não tiver o contato com sua mãe atrapalhado, geralmente conseguirá estimular o seio materno para uma boa produção. Nós mulheres, por outro lado, nos baseamos em referências culturais e sociais na hora de alimentar nossas crias, por isso temos muita dificuldade em amamentar quando pessoas ao nosso redor pensam que o leite materno é fraco, insuficiente e substituível. O desestímulo começa e, ao primeiro sinal de dificuldade, o pediatra receita uma milagrosa fórmula láctea! Muitas vezes antes de sequer sugerir caminhos para superação de dificuldades comuns na amamentação ou de avaliar a rotina da família, a pega do bebê no seio, os freios da língua e da boca da criança.

Como bem coloca Bela Gil no livro Bela Maternidade, a cultura de criação de um bebê está permeada de recomendações que não fazem o menor sentido para quem amamenta: amamentar de 3 em 3 horas, não amamentar deitada, esperar que o bebê durma a noite toda, etc. Coisas que valem para bebês que usam fórmula, mas que são arbitrárias e frustrantes para mulheres que amamentam exclusivo. Vejo muitas mulheres aflitas tentando seguir essas e outras recomendações absurdas recebidas por profissionais de saúde que pouco conhecem sobre amamentação em livre demanda. Em um caso que atendi, a mulher tinha sido instruída a tirar a roupinha do bebê para que ele sentisse frio e acordasse para mamar a cada 3 horas. Uma dor no coração dela e no meu.

O que acontece é que sofremos com anos de campanhas comerciais de valorização de fórmulas lácteas em detrimento do precioso ato de amamentar, que é natural e gratuito. Existem anúncios que datam de desde o séc. XIX apresentando marcas de leite condensado (que antigamente não tinha açúcar) como substituto adequado para o leite materno de mães e amas de leite.

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Trecho de periódico que circulava entre os anos 1879 a 1888 no Rio de Janeiro. Fonte: Blog Neto Geraldes.

 

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Propaganda de leite condensado – 1949. Fonte: Propagandas Históricas.

Os profissionais de saúde também não ficam imunes ao deslumbramento pelas fórmulas lácteas, uma rápida pesquisa no Google pode mostrar o patrocínio de empresas que produzem leite artificial a congressos de pediatria pelo Brasil.

Recentemente o The New York Times vazou informações sobre ameaças feitas pelos Estados Unidos a países menos poderosos durante assembleia da Organização Mundial da Saúde sobre aleitamento materno. O objetivo do país era derrubar a aprovação de uma recomendação, fruto de anos de estudos aprofundados, que continha disposições de incentívo ao aleitamento materno, como a restrição de estratégias de marketing agressivas por empresas fabricantes de fórmulas lácteas, como por exemplo a distribuição de leite artificial dentro de instituições de saúde. Nos Estados Unidos, país com baixa taxa de amamentação exclusiva, é comum que as mulheres saiam da maternidade com amostras grátis de leite artificial. Uma forte tentativa da indústria de leite para continuar prejudicando o aleitamento materno gratuito, que conseguiu ser bloqueada pelo esforço de delegações diplomáticas de países como o Brasil. Ufa!

Amamentar é um processo emocional

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Fonte: Eveline Dias

O parto normal em seu estado mais natural favorece a amamentação, pois o corpo da mulher recebe grandes quantidades de hormônios que estimulam a produção de leite. A prolactina, hormônio da maternagem carinhosa, é produzida durante a gestação e logo após o nascimento com o papel de estimular a produção de leite pelas glândulas mamárias. Já a ocitocina, hormônio do amor, é responsável pelas contrações uterinas no trabalho de parto e, na amamentação, será responsável pela ejeção do leite. Mulheres que não tiveram a oportunidade de entrar em trabalho de parto podem apresentar dificuldades no início da amamentação, pois corpo e mente demoram mais tempo para entender que existe um bebê que é nosso e que amamos muito fora da barriga. Mas com um pouco de tempo essa percepção chega.

A maneira que o bebê é recepcionado também é muito importante para o sucesso da amamentação. Seja no parto normal, seja na cesárea, o bebê que nasce saudável deve sair do útero da mãe e ir diretamente para o seu colo em contato pele-a-pele (nada de panos entre os dois), onde deve permanecer por pelo menos uma hora; não vale só uma breve apresentação! Durante esse tempo, mãe e bebê devem ser estimulados a amamentar; nesse primeiro momento o reflexo de sucção do bebê é mais forte, o bebê está mais atento e procura o seio materno com mais vigor. O alojamento conjunto também favorece a amamentação, nesse sistema mãe e bebê permanecem 24 horas juntos no hospital (Xô berçário). Essas questões são importantes para que a conexão entre mãe e bebê se estabeleça de maneira profunda e prazerosa, proporcionando a liberação de altas doses daqueles hormônios de amor e carinho tão fundamentais para a produção e ejeção do leite materno. Não é para menos que esses procedimentos estão contidos em normativas no MS e da OMS, por isso pense em inclui-los no seu plano de parto.

Os hormônios prolactina e ocitocina continuam sendo produzidos no puerpério durante os momentos de amor e carinho entre mãe e bebê, por isso é importante que nessa fase a mulher tenha paz e tranquilidade para estar com a criança. Segundo a psicóloga Laura Gutman, num cenário ideal a mulher consegue ter privacidade suficiente para estar o máximo de tempo com os seios à vontade, em contato pele a pele com o bebê, sem a necessidade de elaborar muitos pensamentos complexos, nem de se defender de nada nem ninguém. Uma mãe em sua lua de leite com o bebê não deveria ser incomodada por visitas nas primeiras semanas. Também é interessante que a família se organize na medida do possível para que nesse período a mãe não tenha qualquer responsabilidade além de maternar sua nova cria. A organização da casa, das roupas e da comida deve ser feita por outras pessoas para que a mulher e bebê possam se conhecer ao máximo.

Amamentar é um ato de amor e por isso precisa acontecer fora de um exercício excessivo da razão. Preocupações com intervalo e duração das mamadas geralmente mais atrapalham do que ajudam. Laura Gutman coloca a preocupação com horários como a maior inimiga da amamentação, fruto da ignorância e desrespeito aos ritmos internos da espécie humana. Ao contrário, a mãe deve ser ensinada a reconhecer os primeiros sinais de que o bebê quer o seio, para que, tão logo apareçam, o bebê seja amamentado e acalentado. Não é bom esperar o bebê virar uma pequena fera de tanta fome ou desconforto, pois nessa situação a amamentação se torna impraticável e será necessário primeiro acalmar o bebê. Ademais, quanto mais mamar, maior será a produção de leite da mãe; ou seja, o objetivo é que o bebê faça de chupeta o seio materno, mesmo porque a chupeta (como a mamadeira) é inimiga da amamentação.

Como ato de amor que é, a amamentação será beneficiada tanto quanto houver contato físico entre mãe e cria, preferencialmente em contato pele a pele (mais urgente que carrinho de bebê, comprem seus slings!), inclusive durante a noite. A amamentação noturna é muito importante para a produção de leite e para a regulação do sono do bebê. Durante a noite a mulher está mais sonolenta e relaxada e por isso produz mais leite, também é nesse período que o leite contém mais triptofano, aminoácido precursor do hormônio da regulação do sono, que com o tempo ajudará o bebê a ter um período de sono mais definido. Portanto, é uma boa considerar a possibilidade de cama compartilhada, berço acoplado, etc, além de deixar irem em paz as noites de sono bem dormidas. Desapego!

É muito comum que as mulheres desconheçam a rotina de criação de um bebê e fiquem bastante aflitas ou assustadas nos primeiros dias. Como na barriga da mãe os bebês recebiam alimento de maneira contínua, é normal que nos primeiros meses os bebês queiram o seio materno com grande frequência durante dia e noite. A princípio pode parecer para algumas mães que algo está errado, que o leite não está sendo suficiente ou que é fraco, mas geralmente o que acontece é nada mais que o esperado, mesmo porque a amamentação não é só alimento, é também segurança e amor. Os bebês precisam de colo e seio materno para se sentirem seguros num mundo tão novo e para superar os picos de crescimento e desenvolvimento que volta e meia surgem; consolar os bebês com colo e mamá garante o adequado desenvolvimento e amadurecimento do sistema nervoso. É preciso não se afligir com o choro do bebê, cantando o melô da maternidade de Marisa Monte: “eu te amo tanto que seu pranto fez-se canto pra mim”.

Uma vez entendidas questões da ordem do amor, e descomplicadas questões comuns à cabeça de mulher urbana, que é apresentada à fórmula láctea em toda esquina, é interessante pesquisar materiais sobre temas básicos para uma amamentação bem-sucedida como, em ordem de importância: pega correta, ingurgitamento mamário, picos de desenvolvimento e confusão de bicos, ter algum conhecimento básico sobre esses temas evitará maiores problemas. Em caso de maiores questões recorra a um banco de leite humano ou a consultoras em amamentação. Acredite, você pode prover todo o alimento necessário para o seu bebê!

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Mamãe gata livre e desempedida amamentando deitada. Achado no Instagram de Gabrielle Gimenez (@gabicbs)

Referências

Entrevista sobre a atuação do governo norte-americano contra recomendações pró-amamentação. What’s Behind The U.S. Opposition To Pro-Breastfeeding Language: https://www.npr.org/2018/07/09/627417362/whats-behind-the-u-s-opposition-to-pro-breastfeeding-languageLinke

Por que os EUA se posicionaram contra a ONU sobre amamentação: https://www.nexojornal.com.br/expresso/2018/07/12/Por-que-os-EUA-se-posicionaram-contra-a-ONU-sobre-amamenta%C3%A7%C3%A3o?utm_campaign=Echobox&utm_medium=Social&utm_source=Facebook#Echobox=1531404033

Golden hour ou hora de ouro, a primeira hora de vida do bebê – Doula Julia Agnes:  http://blog.casadadoula.com.br/2018/07/03/golden-hour-ou-hora-de-ouro-a-primeira-hora-de-vida-do-bebe/

Portaria nº 371, de 7 de maio de 2014 – Institui diretrizes para a organização da atenção integral e humanizada ao recémnascido (RN) no Sistema Único de Saúde (SUS): http://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/sas/2014/prt0371_07_05_2014.html

Recomendações OMS 2018. WHO Recommendations: Intrapartum care for a positive childbirth experience: http://apps.who.int/iris/bitstream/handle/10665/260178/9789241550215-eng.pdf;jsessionid=7B26A8AD00FE73C75861A2B77EE63B72?sequence=1

Texto de Gabrielle Costa Gimenezhttps://www.facebook.com/photo.php?fbid=10160920532510122&set=a.10152711100870122.1073741825.901475121&type=3&theater 

Livros

A maternidade e o encontro com própria sombra, o resgate do relacionamento entre mães e filhos. Laura Gutman, 2017.

Bela Maternidade: Meu jeito simples e natural de ser mãe. Bela Gil, 2018.

Parto Ativo, Guia Prático para o Parto Natural. Janet Balaskas, 2017.

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