Posso ver um parto, mãe?

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Muitas vezes me pego pensando: o que teria mudado se aquela garotinha de nove anos tivesse seu pedido atendido?

Uma menina curiosa

Aos oito anos, com medalhinha de boa aluna no peito.

No início dos anos 70, éramos só ela e eu. Uma menina tímida, bem mais nova que meus colegas de escola, imersa em leituras – desde os romances capa-e-espada do meu avô até todo tipo de gibis, tudo era rapidamente consumido. Tinha umas poucas amigas, o mundo dos adultos que me cercavam me interessava mais. Minha mãe era enfermeira  em uma maternidade do exército naqueles anos de chumbo, e viria a se tornar enfermeira-obstetra algum tempo depois. A cada história de plantão seu, minha curiosidade se aguçava, o mundo dos nascimentos me encantava! Toda vez que ela contava um caso eu pedia: me deixa ver um parto!

Rachel (a mais alta) e colegas de   trabalho, em 1962. Eu estava na foto, com cerca de 16 semanas.

Dona Rachel não era de fazer muitas vontades materiais. Mas, quando se tratava de aprendizagens, ela não media esforços. Comprava livros e revistas que eu pedia, me inscrevia em cursos, proporcionava todas as oportunidades ao seu alcance.  Pacientemente recontava a história do seu parto  – cheio de violências  não identificadas – e do meu nascimento. Por isso, quando pedi pela enésima vez para ver um parto, foi até seu chefe e falou do meu desejo. O diretor do hospital e coordenador da maternidade, um coronel obstetra, perguntou minha idade e, ao saber que tinha nove anos, respondeu-lhe que retomasse o pedido daí a mais nove anos…

Profissional de saúde e mãe

Sophia com duas semanas. Um mar de ocitocina – o hormônio dos afetos potentes – nos envolvia.

Talvez tivesse me especializado em obstetrícia caso cursasse medicina? Não sei, fiz odontologia. Aos 22 anos, já dentista, essa história de querer ver parto tinha ficado totalmente esquecida. Entretanto, um evento da vida pessoal traria à tona, como avalanche, os sentimentos e desejos da garotinha curiosa que fui: minha própria gestação, aos 40 anos de idade, e o conturbado nascimento da minha criatura, seguidos de uma poderosa e feliz experiência de aleitamento materno.

Novos rumos

Com muita gente bacana, em passeata pela liberdade de escolher onde parir. Soph junto, claro.

Foi um caminho sem volta. As inquietações iniciais encontraram eco em movimentos sociais de mulheres em busca de nascimentos dignos para suas crias e vivências potentes e promotoras da autonomia em seus partos. Reconhecer-me parte disso tudo, a partir da minha militância em movimentos de saúde, foi arrebatador, transformador, libertador.

Denise Niy, parceira em quatro artigos para Relatórios de Direitos Humanos

Até mesmo minha vida acadêmica passou por mudanças. Minha formação em Saúde Pública, focada na área de Saúde Bucal Coletiva, deu uma guinada – busquei uma orientadora da área de Saúde Materno-Infantil e mergulhei fundo na literatura científica para escrever uma tese sobre conflitos de interesses em decisões por cesarianas. De lá para cá, colaborei em artigos e até mesmo escrevi um livro voltado para o público infanto-juvenil.

Lançamento de A Rainha e os Panos Mágicos no Rio de Janeiro, 2017.

Esse último, sobre direitos reprodutivos das mulheres, é meu “filho” mais recente, em coautoria com Janaína Leslão, e se chama A Rainha e os Panos Mágicos. Ao final deste texto você encontra uma seção em que poderá ter acesso a alguns dos materiais em cuja escrita colaborei.

É possível mudar a história?

Mas… e se o coronel diretor tivesse atendido à solicitação da minha mãe? E se, com aquela idade, eu tivesse sido exposta aos partos mais que violentos que ocorriam naquela instituição? Que impactos poderiam ter acontecido na minha vida, nas minhas escolhas, na minha formação? Nunca saberemos de verdade, mas arrisco dizer, com imensa chance de acerto, que fui protegida de viver, testemunhar e fazer parte de uma cena de violência obstétrica que certamente me marcaria para sempre.

Nascida de uma cesariana desnecessária, minha filha viveu, aos dez anos, uma cena completamente diversa. Segurando um espelho, acompanhou junto da mãe o nascimento de uma família, de um bebê e o parto de uma mulher. Em um cenário suave, com uma assistência respeitosa, ela teve a oportunidade de construir para si mesma sua visão sobre o que é nascer. Sabe que pode escolher ter filhos ou não, a via e o local de parto. Sabe que seu corpo é só seu.

“Nada será como está, amanhã ou depois de amanhã…”

Roda Mamastê de apoio ao parto ativo.

A Educadora Perinatal nasceu em mim em 2007.  A doula viria um pouco mais tarde, em 2012. Entre uma coisa e outra, o aperfeiçoamento em amamentação e muito ativismo:  a atuação em nível local e regional por meio da Parto do Princípio e do Grupo MaternaMente.

Cuidando de uma mulher em trabalho de parto.

Hoje, minha atuação profissional  se dá por meio do Coletivo Mamastê de Doulas. Junto às companheiras, realizo rodas quinzenais de gestantes e acompanhantes, cursos de preparação para o parto e aleitamento materno, consultas coletivas e individuais, além, claro, do acompanhamento de partos.

Pós-parto e aleitamento materno: as visitas que fazem diferença.

Mais de uma década se passou desde minhas primeiras descobertas. Todo dia é dia de cuidar de mulheres. De mim mesma, de minha filha, de minhas manas, das coletivas em que atuo, das gestantes à procura de um parto respeitoso, das puérperas às voltas com os desafios da amamentação, das mães com crias pequenas que retornam ao trabalho. Nem um dia igual ao outro. Nem um dia em que sou a mesma. Nem um dia sem me reconhecer na outra.

 

Referências

Violência obstétrica: “parirás com dor”. https://www.senado.gov.br/comissoes/documentos/SSCEPI/DOC%20VCM%20367.pdf

Violência obstétrica é violência contra a mulher. https://docs.wixstatic.com/ugd/2a51ae_a3a1de1e478b4a8c8127273673074191.pdf

Episiotomia: “é só um cortezinho”. https://docs.wixstatic.com/ugd/2a51ae_eb147c28c9f94840809fa9528485d117.pdf

Hospitais de ensino em obstetrícia: campo de violação dos direitos das mulheres. in Direitos humanos no Brasil 2015
Relatório da Rede Social de Justiça e Direitos Humanos. (pg. 159-168). https://www.social.org.br/Relatorio2015.pdf

É a mulher quem escolhe? Questionamentos sobre direitos, autonomia,
conveniências e interesses nas decisões sobre cesariana . in Direitos humanos no Brasil 2016
Relatório da Rede Social de Justiça e Direitos Humanos. (pg. 159-168). http://www.social.org.br/files/pdf/Relatorio2016.pdf

Acompanhante da parturiente: mais de uma década de violação de uma lei federal. in Direitos humanos no Brasil 2017
Relatório da Rede Social de Justiça e Direitos Humanos. (pg. 241-250). http://www.social.org.br/files/pdf/relatorio_dh_2017.pdf

Midwifery and quality care: findings from a new evidence-informed framework for maternal and newborn care. https://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(14)60789-3/fulltext

 

 

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3 respostas para “Posso ver um parto, mãe?”

  1. A menina prodígio que conheci há 40 (!) anos se tornou uma das mulheres que mais admiro e respeito. Obrigada pela sua amizade. Você nos engrandece a todos❤️

  2. O desejo de menina apenas adormeceu por um breve período, retornando ainda mais potente! Ainda bem!
    Deborah, sua história inspira muitas mulheres!
    Parabéns, querida!

  3. A Deborah é uma inspiração para mim! Tenho a honra e a alegria de trabalhar junto com ela no Coletivo Mamastê, e aprendo constantemente graças à sua generosidade para partilhar o tantão que ela já aprendeu em sua vida.

    Gratidão por existir, persistir e resistir, querida! Vida longa e próspera para você e a nossa amizade!

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