Doular é a minha revolução: como a luta pela vida das mulheres me fez doula

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Sou Elis Teixeira, tenho 34 anos e há 3 anos renasci após um parto domiciliar que mudou completamente a minha vida. Sou formada em História e especialista em Gestão de Bens Culturais, há quase 10 anos trabalho em comunidades periféricas da cidade de São Paulo, desenvolvendo projetos que envolvem economia solidária, o protagonismo feminino e valores das culturas negras e indígenas. Apesar de já atuar com varias paixões antes da gestação da minha filha, com o nascimento dela e com o meu renascimento, minha vida ganha um novo sentido e muito mais especial: apoiar o protagonismo das mulheres.

Durante a minha gravidez, passei meses buscando informações, dialogando com outras gestantes, doulas e parteiras, participando de rodas de casais grávidos em busca de um nascimento respeitoso para a minha filha. Logo no comecinho da minha gestação eu e meu companheiro assistimos ao filme “O Renascimento do Parto”  que expõe o cenário obstétrico brasileiro enfatizando a epidemia das cesáreas e suas consequências traumáticas na vida de milhões de brasileiras. Chorei litros e desde então eu tinha certeza absoluta que eu iria lutar com todas as minhas forças para que a minha experiência de parto não fosse estraçalhada pela indústria das cesarianas tão predominante no Brasil. E consegui!!! É essa história que vou contar pra vocês, como parir em casa me transformou completamente e me fez a doula que sou hoje.

Mergulhando no cenário obstétrico brasileiro

 

Iniciei o ano de 2015 gravidíssima, em janeiro estava chegando no terceiro mês de gestação. Nesse momento eu já havia me conscientizado que parir a minha filha, Aisha, num ambiente calmo e tranquilo, sem intervenções desnecessárias, do jeito mais natural possível como aconteceu com a minha mãe, com as minhas avós e com todas as minhas ancestrais era quase um sonho, pensando nos dias de hoje em que as taxas de cesáreas de alguns hospitais  brasileiros, principalmente das redes privadas, chegam a mais de 95%. Me deparei com o cenário obstétrico brasileiro e o histórico de violência que tanto marca o pré-natal de grande parte das brasileiras, especialmente as mulheres negras e pobres.

Elis gestando Aisha em meados de 2015

Eu como mulher negra, moradora da periferia olhei para a minha situação e não me rendi ao que a grande maioria das mulheres na minha condição tem como destino: um parto vaginal cheio de intervenções ou uma cesárea desnecessária. No Brasil 1 em cada 4 mulheres é vítima de violência obstétrica durante o pré natal, o parto e o pós parto e dentre as mulheres que são violentadas a maior parte delas são negras e pardas. As mulheres negras apresentam maiores índices de morte materna, tem menos acesso à pré natal, menos anestesia, menos orientação sobre a amamentação.

Diante da informação de tantos abusos, desrespeitos, o meu medo de passar qualquer tipo de violência e o meu enorme desejo de viver um parto natural eu conheço a Casa Angela, uma casa de parto localizada na periferia da zona sul de São Paulo. Que lugar maravilhoso! Me encantei desde a primeira visita e comecei a fazer o pré natal lá e sonhava em ganhar a minha filha naquele pedacinho do paraíso. Mas algo estava reservado pra mim e eu nem fazia ideia.

Foto de Cátia Carvalho – Doula Elis Teixeira e Bruna Camilo na Casa Angela – maio 2018

“Os planos de Jah para mim são maiores que os meus próprios planos pra mim”

Na consulta de pré natal de 37 semanas na Casa Angela eu tive uma surpresa bastante desagradável. Minha altura uterina estava mais elevada do que é permitido para gestantes que desejam parir em casas de parto e eu não poderia ter a minha filha na Casa Angela. Essa foi uma das notícias mais difíceis da minha vida, fiquei muito mal. No entanto, não me permiti abater naquele momento, eu precisaria rapidamente conseguir outra alternativa para ganhar a minha filha como eu sonhava, e foi então que eu vi uma rede muito poderosa de mulheres em ação. Dialoguei com gestantes, doulas, obstetrízes e parteiras tradicionais, contei a minha história e os meus desejos e com 38 semanas eu encontrei uma parteira que mudaria a minha vida, Mayara Custódio, que pegou nas minhas mãos e aceitou me acompanhar de um forma muito generosa e acessível.

Aisha nasceu no quarto onde foi concebida, nas mãos do pai, num parto domiciliar planejado, com o auxílio de duas parteiras, obstetrizes, e uma doula. No país campeão de cesarianas, em que violência obstétrica é rotina, parir naturalmente no conforto de casa com poucos recursos financeiros disponíveis é revolucionário. Foram muitas batalhas, mas desistir nunca foi uma opção pra mim. Parir me transformou numa “mulher super poderosa”, o dia do nascimento da minha filha foi o dia mais emocionante e mais feliz da minha vida, ser protagonista nesse momento tão único me transformou na doula que sou hoje.

Depois do nascimento da Aisha, mergulhei cada vez mais nesse universo de gestar, parir e cuidar. Tornei-me doula e placenteira. Quando decidi ser doula profissional estavam entre as motivações o desejo enorme em contribuir com o protagonismo feminino, minha luta é para que as mulheres vivam experiências positivas em seus partos, independente de suas condições raciais, sociais e econômicas. Me esforço para amparar todas as mulheres que buscam o meu trabalho mas, tenho uma preocupação ainda maior com as mulheres menos privilegiadas, especialmente, as não brancas e periféricas, pois estatísticas mostram que são essas as que mais sofrem abusos e violências institucionais. 

Atualmente atendo como doula e acolhedora de bebês e crianças na grande São Paulo. Sou guardiã de medicina placentária, tenho trabalhado com ações que envolvem o respeito e a valorização da placenta, o órgão mais generoso, existe para nutrir outro ser humano. Estou trabalhando com uma fotógrafa incrível, Sheila Signário, que eu doulei e que juntas estamos descobrindo arte,  cura e empoderamento a partir de vivências com a placenta.
A Placenta, por Sheila Signário
Faço parte da Ayê Coletiva: Saúde, Acolhimento, Cultura e Educação que surgiu a partir da força de quatro doulas, que atuam na fisioterapia, saúde da mulher e artes do corpo, pedagogia e dança, cultura e história, fotografia e audiovisual, com intuito de integrar cuidados que promovam saúde e bem estar não só para as mulheres como também o acolhimento de toda a sua família se assim desejarem, respeitando identidades, individualidades e coletividades, personalizando cada atendimento, de acordo com as especificidades de cada contexto. 
Ayê Coletiva: Saúde, Acolhimento, Cultura e Educação

“Enquanto houver uma mulher encarcerada, eu não sou livre”

No início de 2018 me envolvi num projeto de rodas de acolhimento a gestantes e puérperas no Centro de Progressão Penitenciária do Butantã, zona oeste de São Paulo. Foi uma experiência absolutamente visceral acompanhar um pouco do cotidiano das mães encarceradas. Olhar para o sistema penitenciário brasileiro é observar como ele é marcado principalmente pelo racismo, por violações de direitos humanos e pela lógica da criminalização da pobreza me faz agir, me faz resistir e lutar para conseguir transformar essas vidas que são muitas vezes destruídas por tantas opressões e violências. A minha trajetória de vida não me permite que eu me sinta livre enquanto existem mulheres encarceradas com suas crias num regime absolutamente injusto e desumano. Doular e acolher bebês em situações tão adversas quanto a do cárcere no Brasil é combustível para o meu cotidiano de luta. Para difundir essa experiência, eu fui convidada para palestrar no SIAPARTO 2018 com o seguinte tema “O nascer em situação de cárcere”. Foi um momento muito importante na minha história, fui a um simpósio internacional de assistência ao parto defender o olhar para as mulheres que são oprimidas cotidianamente, que vivenciam violências dos mais diversos tipos e são a maioria da população brasileira.Falar sobre o genocídio da população preta e pobre num contexto majoritariamente branco foi libertador. E hoje em dia estou estruturando um projeto para continuar ações de acolhimentos em presídios da zona oeste de São Paulo.

“O nascer em situação de cárcere” Siaparto 2018
 
Sigo, com a herança das minhas ancestrais, com a luta das mulheres negras e periféricas, com a resistência das quilombolas e com a força das mulheres encarceradas.O poema abaixo eu pari logo depois do meu primeiro acompanhamento de parto como doula:
 
“No mundo dos homens,

Eu sou a mulher empoderada.
No mundo dos brancos,
Eu sou a mulher preta.
No mundo das cesáreas,
Eu sou o parir natural.
No mundo da indústria,
Eu sou a artesã.
No mundo do fast food,
Eu sou o almoço de domingo na casa da vó.
No mundo do “não tenho tempo”,
Eu sou a calma e a paciência.
No mundo do Tinder,
Eu sou a troca de olhares no busão.
No mundo do ter,
Eu sou o ser.
No mundo dos padrões
Eu sou a liberdade
Sou Dandara, Sou Frida, Sou Maria Bonita, Sou Rainha N’Zinga, SouJoana d’Arc, Sou Violeta Parra, Sou Assata Shakur, Sou Angela Davis, Sou Rosa Luxemburgo, Sou Elis Teixeira, Sou Aisha Shabazz”   
Resistências por Elis Teixeira

Referencias bibliográficas

A Situação dos Direitos humanos das mulheres negras no Brasil – Direitos e Violações. Geledés, Instituto da Mulher Negra e Criola Organização das Mulheres Negras.

Ayê Coletiva: Saúde, Acolhimento, Cultura e Educação.

https://www.facebook.com/AYEColetiva/

Dossiê mulheres negras : retrato das condições de vida  das mulheres negras no Brasil. Organizadoras: Mariana  Mazzini Marcondes … [et al.].- Brasília : Ipea, 2013.  160 p.

Nascer no Brasil – Inquérito sobre Parto e Nascimento.Fundação Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, 2014.   http://www6.ensp.fiocruz.br/nascerbrasil/

Não à Violência Obstétrica. https://universa.uol.com.br/especiais/violencia-obstetricia/index.htm?fbclid=IwAR2se40QYgD6vPznzeurVUvE_eGXknEFq8vh1P5Bxrc5VUBXFoYgtXHmx2w

Parto, Aborto e Puerpério – Assistência Humanizada à Mulher, 2001.

http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/cd04_13.pdf

Por que mulheres negras são as que mais morrem na gravidez e no parto?

https://www.geledes.org.br/por-que-mulheres-negras-sao-as-que-mais-morrem-na-gravidez-e-no-parto/

Raça e violência obstétrica no Brasil. Kelly Diogo de Lima, Recife. 2016.

O que é encarceramento em massa? Juliana Borges, Feminismos Plurais. São Paulo, 2018.

O Renascimento do Parto – o filme

Os planos de Jah para mim são maiores que os meus próprios planos pra mim.  Trecho da música Terra de Black Alien.

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