Da gestação ao parto: Uma experiência extraordinária.

Compartilhe:

Foto de capa Giovana Amâncio/acervo de Débora Lott.

Pensando a minha trajetória, que me trouxe ao momento presente, revisitei o agito, a turbulência da minha gravidez não planejada, mas que logo no primeiro momento tornou-se profundamente desejada. Foram muitos movimentos, internos e externos, para compreender o que estava acontecendo e principalmente para descobrir o que ainda viria pela frente.  E foi a partir destes movimentos que  a doulagem entrou na minha vida.

E na busca de respostas… Encontrei uma Doula.

Bom… Nessa  jornada descobri o poder transformador do ato de gestar e parir.  Vivenciava intensamente cada experiência, cada informação. E quero destacar que logo no início, foi Leboyer com seu Nascer Sorrindo que me despertou para “ vou precisar de ajuda para parir!” Se você leu o livro talvez tenha sentido algo parecido. Mas… cada leitor recebe as palavras de um autor a partir do seu próprio lugar. Então vou contar como foi essa leitura a partir do meu lugar, de profundas dúvidas e contradições.

Para começar aquela tempestade… O que eu poderia fazer para que meu bebê “sorrisse” ao nascer? Era literalmente sorrir que Leboyer queria dizer? Parto normal dói muito! Será mesmo? E se dói, eu vou suportar como minha mãe suportou? E porque tem que ser com dor? Porque Deus quis assim e fim de papo? Sério? Ele quis? Então tá então! Tenho que aceitar que seja assim? Sério? #sóquenãomesmo!

Eu tinha muitos porquês, cada dia que passava eram mais e mais.
Eu precisava de alguém que respondesse minhas perguntas ! Era minha primeira gestação! Eu precisava de respostas.  Como desconstruir, sozinha, tantos paradigmas? Eu busquei, e encontrei…

Na  busca por respostas,  encontrei uma mulher que me mostrou um caminho novo a ser percorrido. Dissipou meus medos, me mostrou o que estava de fato acontecendo comigo, fisiologicamente e emocionalmente.  Que tudo era muito natural e que não havia mistérios, e que poderia ser simples. Que poderia ser com dor, com menos dor ou com mais. Mas que haviam recursos para amenizar caso tivéssemos que lidar com ela.  E que, de repente, Deus não deu ultimato nenhum, que eu poderia entender que Ele, quem sabe, só apresentou a fisiologia?  Na verdade ela percebeu que eu precisava refletir sobre cada uma das minhas dúvidas para então, fazer minhas escolhas.

Fotografia de Aline Brant. Acervo pessoal de Alessandra Paravidino/postagem autorizada

Com a entrada de uma Doula no meu  pré parto , a minha gestação ganhou um novo significado.  A medida que as respostas chegavam, os paradigmas e dogmas eram rompidos,  e a transformação acontecia naturalmente.  Me sentia protagonista de todo aquele processo. Me sentia dona do meu parto, e mais que isso, descobri um poder dentro de mim que estava diretamente relacionado ao fato de ser mulher !

A decisão por um parto respeitoso, humano e seguro

Fotografia de Aline Brant

Encontro após encontro eu fui entendendo que eu poderia sorrir enquanto o meu corpo passava por tudo aquilo, e que eu poderia chorar e gritar, andar, me banhar, e tudo o que eu quisesse para que fosse mágico e real.  Compreendi que nascer sorrindo ou chorando tinha a ver com essa compreensão de que eu, somente eu poderia revelar para mim mesma e para a minha filha esse novo mundo de novas sensações, da gestação ao nascimento. Que seria no tempo dela, para que ela vivenciasse essas novas sensações corajosamente. E que eu estaria ali para recebê-la com tranquilidade, na nossa casa, num parto domiciliar, amparada por profissionais  que, naquele momento, desafiando o modelo tecnocrata vigente,  privilegiavam uma assistência ao parto respeitosa, humanizada e segura. E dessa maneira, possibilitaram que ela, vindo no meio líquido, aquecido como no útero, fosse se acostumando com esse novo ambiente, ainda desconhecido. E, ainda minimizando a hostilidade desse mundo, eu a acalmei levando-a ao peito. E assim foi. E durante  essas dez horas de trabalho de parto, eu tinha o olhar, os toque nas mãos, a massagem na lombar, as gotas do floral, algumas poucas palavras… Eu tinha a presença daquela mulher. Sim, ela estava ali, inteira!

O parto normal já é por si só uma vivência natural, fisiológica. Deixa de ser, portanto, quando as intervenções médicas inadequadas, desnecessárias, se sobrepõem ao protagonismo, que neste processo, pertence unicamente a mulher. Nessa luta pelo poder, que não foi instituída por nós mulheres, mas que vem nos atropelando e nos violentando, o caminho passa por “(re)tomar o que é nosso”, empoderar-se para que, o que deixou de ser, volte a ser Parto Normal!

Em 1990 eu tive que percorrer este caminho de mão dadas com uma “instrutora de curso para gestantes”, na verdade, hoje eu sei que, considerando o significado, ela era mais, ela era uma Doula. Uma mulher que, com seu conhecimento e disponibilidade, me deu o suporte físico e emocional que eu precisava, protegendo a memória da minha experiência de parto e da minha filha, e que até hoje está registrada nos nossos corpos e almas como uma experiência extraordinariamente positiva.

Fotografia de Aline Brant

Nesse momento da vida,  considero fundamental (re)tomar este caminho de luta por mais experiências positivas no parto, por reflexões e atitudes que nos tornem cada vez mais protagonistas do trabalho de parto, do gestar ao parir, e tudo mais que possa vir,  em nome de nós mesmas, de nossas filhas e filhos, e de tantas outras mulheres.

Parto da experiência positiva que vivi e que evidenciou, para mim e para todos os que estavam presentes naquele momento (o pai da minha filha; a minha mãe; a obstetra), a importância da presença e do apoio permanente da Doula em todo processo, contribuindo significativamente para a humanização daquela experiência, que considero  a mais extraordinária da minha vida, tanto, que quis vivenciá-la, mais uma vez, numa segunda gestação.

Hoje, na busca de novos caminhos (e retomando antigos), me reencontro com interesses que  aguardavam por tempos mais livres, que possibilitariam maior dedicação para o exercício dessa nova profissão. Atualmente posso exercer a profissão de Doula de forma  mais consciente e plena, partindo dos  conhecimentos adquiridos através de uma formação específica e reconhecida, garantindo assim orientações fundamentadas em evidências, e  apoio contínuo e seguro às  mulheres que desejarem protagonizar todo esse processo, da  gestação ao parto e pós parto.  Fico por aqui aguardando,  assumindo o compromisso de cuidado com a saúde de cada uma enquanto estivermos juntas. E juntas estamos!!

Um forte abraço, Elô Doula!

Referências:

LEBOYER, Frederik. Nascer Sorrindo . SP. Brasiliense.1974.

Apoio contínuo para mulheres durante o parto https://www.cochrane.org/pt/CD003766/apoio-continuo-para-mulheres-durante-o-parto

Você conhece as recomendações da OMS para o parto normal?https://www.unasus.gov.br/noticia/voce-conhece-recomendacoes-da-oms-para-o-parto-normal

Benefícios e riscos do parto planejado para ocorrer no hospital comparado com o parto planejado para occorrer em casa, para grávidas de baixo risco https://www.cochrane.org/pt/CD000352/beneficios-e-riscos-do-parto-planejado-para-ocorrer-no-hospital-comparado-com-o-parto-planejado-para-occorrer-em-casa-para-gravidas-de-baixo-risco

Compartilhe:

18 respostas para “Da gestação ao parto: Uma experiência extraordinária.”

  1. Linda experiência! Desejo muito sucesso nesta nova etapa! Você se propõe ao carinho e vivência! Parabéns!

  2. Parabéns querida e amada amiga. Sua sensibilidade, amor e carinho pelas pessoas, será fundamental nesta sua nova jornada. Emano todas as energias positivas para esta sua escolha!!!! Sucesso!!!!

  3. Parabéns Eloisa, estou feliz por você ter optado por esta experiência. Fará muito bem para mães e também para os filhos que chegarão de forma mais tranquila a este planeta que é lindo, só né essita que o respeitemos é amemos. ❤ 😍 😘

    1. Sim! Perfeito comentário. Faz toda diferença ir construindo e preparando esse ambiente de amor e respeito para a “chegada”, a entrada do ser humano no planeta! Obrigada!

  4. O mistério da vida e a possibilidade de torná-lo doce. Parabéns! As mulheres agradecem. Sucesso!

  5. Que riqueza sua matéria Eloisa visto que nascimentos ( partos) são raríssimos e quanta consequências ruins para nós mulheres que por falta de informações optam pela cesariana. Minha sobrinha teve dois filhos na Alemanha que incentiva o parto e prepara a mãe com antecedência, deixando-a cada dia mais segura e confiante para ter seu filho.
    Sempre foi meu desejo ter filhos pelo parto normal, mas não tive essa sorte.
    Parabéns pelo seu olhar e interesse minucioso sobre o tema, o cotidiano mascarado de modernidade já tão indiferente às questões naturalistas.
    E você com toda certeza fará a diferença como companheira nesse momento tão marcante na vida de uma mulher!
    Você é um sucesso!!!

    1. Obrigada pelo comentário Marina. Que experiência positiva da sua sobrinha. Aqui no Brasil temos muitas lutas para travar para garantir esse direito das mulheres que assim como você tem o desejo pelo parto normal mas as diversas circunstâncias acabam negando esse direito. Vamos avançando nessa luta! Forte abraço.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.