Como assim, “mudou de área”?

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Sou de uma geração afetada pela pressa em definir a vida.

Escolha sua carreira aos 15, para poder prestar vestibular aos 17, mestrar aos 22, doutorar aos 35, depois de duas outras pós graduações, viagem ao exterior, fluência em 3 idiomas, carreira sólida, namoro de 10 anos, noivado de 2, apartamento comprado, bebê planejado, cruzeiro em família nas bodas de algodão.

Só que não. Grande parte dos meus colegas de faculdade não trabalha na área de formação, muitas amigas deixaram qualquer plano inicial de lado para se dedicarem aos filhos, além daquela parcela que tornou-se, enfim, o que a gente decidiu chamar, romanticamente, de “empreendedora materna”, mas poderia muito bem se chamar “foi o jeito”.

E dessas pessoas, quem é que pode, verdadeiramente, dizer que faz o que ama, é realizada, seguiu o coração, vive do que gosta?

Arrisco dizer que são poucas.

Mas, e eu? Estou para completar 20 anos de ingresso na Universidade de São Paulo, no curso de Geografia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, e afirmo que sim, vivo do que gosto fazendo… nada relacionado ao meu diploma de graduação.

Formatura do curso de doula. Clínica Mátria, 2018. Foto: Dadá Salomão

Pois é. Mudei de área.

Esoterismo à parte, atendi a um “chamado”. Mais de 6 anos atrás, ainda enfiada em um relacionamento abusivo de quase 12, nascia minha filha Iolanda. De cesariana. A segunda cirurgia desnecessária da minha vida. Francisco também nasceu assim, quase 9 anos antes dela, então eu estava fadada a deitar em uma mesa cirúrgica sempre que quisesse ser mãe. “Uma vez cesárea, sempre cesárea”. Eu não concordava, mas não sabia onde buscar quem me respaldasse.

Não tive apoio, não tive informação, tive um médico que me deixou de molho por quase 8 meses na promessa de um parto normal, mas que no final fez como quase todo médico de convênio (1) e me convenceu a uma outra cirurgia com qualquer desculpa bizarra (2).

Não. Aquilo não digeriu. Então descobri grupos e textos, outras mulheres na mesma situação que eu, profissionais comprometidas com estudos sérios sobre concepção, gestação e parto informados. Descobri as evidências científicas.

Mas, trabalho é trabalho. Continuei em sala de aula, cada dia menos convencida de que era isso que eu deveria estar fazendo.

E continuei estudando, me tornei uma ativista. Juntei meu conhecimento sobre geografia humana com minha paixão pela humanização. Temperei com feminismo. Com socialismo. Com muito amor.

Comecei minha mudança pelo único lugar possível: dentro de mim.

Divorciada, casei novamente com um homem que honra a palavra “companheiro”. Terceira filha à caminho. Jamais outra cesárea. Estudei mais, muito mais.

Faltava apenas um empurrãozinho para me jogar de vez nesse mundo ocitocinado.

Em Setembro de 2017 uma amiga me colocou de frente com o Siaparto (3). Me rendi. Era isso.

O renascimento. Foto: Marina Pedrosa

 

Chegou Dezembro e com ele veio minha flor, minha Madalena, de parto natural domiciliar planejado, em uma noite de chuva torrencial, que lavou a minha alma e me deu a coragem que faltava para dar o salto.

 

 

 

A “nova” eu. Professor a da Dança Materna , mãe de três, doula, feliz. Foto: Tiago Silva

 

2018 abriu cheio de planos. Comecei pela carreira. Juntei um hobby com uma profissão e com a maternidade: me formei professora da Dança Materna, emaranhada em barrigas de gestantes, puérperas, mulheres amamentando entre fitas de cetim, passos de dança e bebês em slings. Primeiro etapa, concluída.

Na sequência obedeci àquela voz interior, e me tornei doula. Segui com cursos na área, mergulhando de cabeça no que deveria ter sido minha vida desde sempre.

Hoje estou aqui, aberta e decidida a ser a mão que segura às de outras mulheres, ajudando com o que fazemos de melhor: dar suporte, oferecer acolhimento, fornecer informação. Respeitar a história e o protagonismo da mulher à minha frente.

Técnica de rebozo na gestação. Foto: Dadá Salomão

Se meus antigos colegas são realizados, não sei. Se conseguiram se encontrar, não posso afirmar. Só tem uma pessoa pela qual tenho o direito de responder.

E sim, sou feliz como nunca fui. Sou doula.

(1) Porcentagem de cesarianas no Brasil

https://noticias.r7.com/saude/quase-60-dos-partos-no-brasil-sao-cesareas-maior-percentual-ocorre-em-regioes-mais-desenvolvidas-19042017?amp

(2) Indicações Reais e Fictícias de Cesariana

http://estudamelania.blogspot.com/2012/08/indicacoes-reais-e-ficticias-de.html?m=1

(3) Simpósio Internacional  de Assistência ao Parto

https://www.siaparto.com.br/

 

 

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