Acredito no corpo da mulher e no protagonismo no parto.

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Nasci em Araraquara de parto normal, hospitalar e violento, minha irmã  nasceu eu tinha 11 anos e participei de perto e atenta do processo da gestação ao nascimento, foi um parto normal ainda com violência, minha mãe sofreu com os pontos infeccionados da episiotomia.

Lembro também de todo o processo da  amamentação, foi minha primeira experiência de gestação, parto e amamentação de perto.

Me mudei para São José do Rio Preto aos 20 anos de idade, conheci meu companheiro Márcio,  me formei em Publicidade e Propaganda em 2012, (nunca trabalhei na área) trabalhei como atendente em comercio e em prestação de serviços.

Era uma vida sempre muito agitada, com  trabalho, estudos, exercícios físicos, passeios, barzinhos e festas e algumas pequenas viagens. Fazia uso de pílulas anticoncepcional a doze anos e por motivos de saúde parei o uso por aproximadamente um ano.

Foi no retorno de uma dessas viagens em março de 2015 que descobri a gestação.

O que me levou a ser Doula

Foi uma gravidez tranquila, e claro já de cara bateu a questão do parto, sempre tive comigo que parto vaginal seria a minha escolha, porém  não tinha conhecimento da realidade obstétrica brasileira, não fazia ideia do que iria encontrar pela frente, pois bem fui dar GOOGLE (quem nunca né?) e com pouco tempo tive a certeza que o parto normal seria o melhor.

Conversando com a minha mãe, ela me indicou uma amiga da família a Rosângela Coutinho (Doula) que na época residia em São Carlos -SP, eu não sabia o que  era uma doula, mesmo distante a  Rô me mandou uma caixa com materiais para estudo com livros, vídeos, filmes e estudos científicos, com uma lista de cronograma.

Conforme ia estudando fui notando e sentindo na pele a dificuldade de ser respeitada na decisão do parto e na hora do parto, tanto pelos profissionais, quanto pelos familiares.

Tentei trocar de obstetra, pesquisei o seu índice de parto e claro que deu   mais de 95% de cesárea, decidi fazer o pré natal com o meu obstetra e o parto seria com o plantonista da Santa Casa da cidade.

Não busquei grupo de apoio, rodas e encontro de gestantes, talvez teria me fortalecido de uma outra forma.

Por mais que eu tenha estudado e identificado alguns sinais, não foi o suficiente para garantir os meus direitos e para garantir o meu protagonismo no parto, estava sozinha enfrentando o sistema de saúde, sem apoio e sem uma doula.

Com uma doula ao meu lado me orientando e me apoiando minha história teria sido diferente.

Pensei que me informar era o suficiente, mas hoje sei que a informação sem apoio, sem direcionamento e sem empoderamento é apenas uma das ferramentas necessária para garantir um parto com respeito, independente da via de parto.

O Manual do Parto, Aborto e Puerpério, publicado pelo Ministério da Saúde, reforça que a opinião das mulheres no parto deve ser respeitada. Para que isso aconteça de forma consciente, a mulher deve receber informações no pré-natal, o que poderá favorecê-la nas escolhas nesse momento tão importante de sua vida.
Outro fato que chama bastante atenção é que os trabalhadores parecem desconsiderar os direitos das pacientes. De acordo com a Carta dos Diretos dos Usuários da Saúde, elaborada pelo Ministério da Saúde, todo paciente tem direito a consentir ou recusar procedimentos nele executados, devendo consentir de forma livre, voluntária e esclarecida, com adequada informação.

Meu filho (Otávio) nasceu dia 16 de novembro de 2015 de uma cesárea, meu corpo entrou em trabalho de parto.

Sofri algumas violências obstetra como ser negado o uso da sala de parto (PPP), não pude escolher a melhor posição pra mim, ouvi piadas e conversas paralelas, foi feito anestesia para a episiotomia sem meu consentimento, foi dado um tempo para o Otávio nascer (15 minutos) e ele não nasceu, fui para o centro cirúrgico para uma cesárea de “emergência”, grosseiramente mandavam eu ficar quieta na maca de cirurgia, pois as contrações estavam intensas e me mexia muito.

O meu marido estava comigo o tempo todo, mas não pode entra comigo na sala de cirurgia, fiquei sozinha e sozinha por mais 4 horas na sala de recuperação.

Os resultados da pesquisa Nascer no Brasil (Leal et al., 2014), realizada entre 2011 e 2012, que teve como um de seus objetivos analisar as intervenções obstétricas em mulheres de risco habitual.

As intervenções realizadas durante o parto como a posição de litotomia (deitada com a face para cima e joelhos flexionados) foi utilizada em 92% dos casos, a manobra de Kristeller (aplicação de pressão na parte superior do útero) teve uma ocorrência de 37% e a episiotomia (corte na região do períneo) ocorreu em 56% dos partos. Esse número de intervenções foi considerado excessivo e não encontra respaldo científico em estudos internacionais (Leal et al., 2014). Além disso, muitas dessas práticas são associadas a risco de complicações, são dolorosas e seu uso é considerado desnecessário, como é o caso da episiotomia.

Muitas técnicas consideradas pelo Ministério da Saúde como prejudiciais ao parto continuam sendo utilizadas rotineiramente nos hospitais, caracterizando uma assistência desvinculada das evidências científicas.

Durante 1 ano e meio após o nascimento do Otávio não consegui ouvir e nem falar sobre parto, não lia noticias, não assistia nada sobre o assunto.

Com o tempo o interesse foi voltando, senti que tinha o dever de tocar o coração de uma mulher que fosse, que meu sofrimento não foi em vão, até que surgiu a oportunidade de fazer o curso.

Durante curso fui me curando de muitos traumas e feridas, após a conclusão do curso escrevi meu relato de parto e ao escrever o relato ressignifiquei alguns sentimentos.

Eu acredito.

Acredito na natureza feminina, no corpo da mulher, no parto com respeito e no protagonismo da parturiente. Entendo também que não é um caminho a ser percorrido sozinha e sim com uma doula, companheiro(a), família ou uma amiga.

Estudos internacionais apontaram os benefícios do suporte da doula, demonstrando que as mulheres acompanhadas aumentam duas vezes a chance de ter parto vaginal, comparadas ao grupo que não recebeu este suporte, além de apresentarem melhoria no pós-parto, avaliados por meio de características físicas e emocionais. Outro estudo mencionou que a presença contínua desse gênero feminino reduziu significativamente o uso de analgesia, ocitocina, fórceps e cesariana.

A presença de um acompanhante, seja membro da família, estranho, amigo, ou mesmo um profissional que acompanhe a mulher no pré-parto e no parto, diminui significativamente o sofrimento da parturiente, as dores e o uso de procedimentos desnecessários.

Hoje eu atuo na cidade de São José do Rio Preto-SP, faço arte gestacional e também faço parte do Coletivo Bem Nascer, com as parceiras Karol Dias e Maria Angélica Lima, juntas promovemos encontro de gestantes e Circulo de Bençãos com informação de qualidade e acolhimento, com o propósito de contribuir para o crescimento da assistência humanizada na cidade e a favor de que todas as mães tenham o direito de receber seus bebês em um ambiente respeitoso e aconchegante.

Temos o programa Parto Acessível.

O objetivo do programa é tornar o atendimento da doula acessível as gestantes que se encontram em vulnerabilidade social.

É necessário que a gestante preencha o formulário do link abaixo http://forms.gle/2jGpCMsf9XESzbhC6 e iremos avaliar os critérios que correspondem ao nosso programa, em seguida entraremos em contato.

Disponibilizamos :
● 4 módulos preparatórios
– Doula e o parto
– Fisiologia e a Dor
– Intervenções maternas e pediátricas
– Puerpério e Amamentação
● Disponibilidade para o parto
● 1 visita pós parto

Contato  (17) 996725427

@talita_doulando    

@coletivo.bemnascer

Referencias

VIOLÊNCIA OBSTÉTRICA NO BRASIL: UMA REVISÃO NARRATIVA

https://www.redalyc.org/pdf/3093/309350113018.pdf

Como os trabalhadores de um Centro Obstétrico  justificam a utilização de
práticas prejudiciais ao parto normal*

http://www.scielo.br/pdf/reeusp/v46n1/v46n1a04

Evidências qualitativas sobre o acompanhamento por doulas no trabalho de parto e no parto

https://www.scielosp.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-81232012001000026

Circulo de Bençãos  é um evento gratuito e aberto a mulheres e gestantes para celebrarmos juntas a chegada de um novo ser.

A gestante recebe muito acolhimento e positividade para a hora do parto e uma linda pintura gestacional. Resignificando toda potência do nosso sagrado feminino.

 

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