A menina que queria nascer diferente

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É possível que o nascimento tenha influência na vida prática, emocional e relacional de um adulto?

Foto: Angel Lovera, Free Images.

Alguns autores, teóricos da Psicologia, acreditam que sim. Otto Rank afirma que o nascimento é o primeiro grande trauma do ser humano e que a experiência de nascer fica gravada de tal forma em nossa psique que há grandes chances de que os registros criados no nascimento reapareçam de forma simbólica na vida adulta. O psiquiatra Thomas R. Verny e a jornalista Pamela Weintraub dizem que a forma de nascer, o tipo de parto, tem influência sobre a forma como o adulto age diante da vida, ou seja, o nascimento tem influência na formação da personalidade da criança. Na história que eu conto hoje, foi mais ou menos assim:

A história de um nascimento 

Era 06 de Setembro de 1989, véspera de feriado. Minha mãe trabalhava em seu comércio enquanto meu irmão brincava na calçada. Ele escorregou, caiu e um dos clientes disse para minha mãe: “Ih, esse aí!? Morreu!”. Eu estava dentro da barriga dela. A bolsa estourou! Era pra nascer depois do dia 05 de Outubro! Meu irmão levantou e continuou brincando.

Minha mãe eu fomos ao hospital, lá chegando o médico disse a ela, que não precisava se preocupar, nem internar. Ele estava indo viajar e ela só precisaria voltar pra casa e ficar bem quietinha, “deitadinha com um travesseiro embaixo do bumbum” até segunda-feira quando ele  estaria de volta.

Arquivo Pessoal

Santo André – SP, 11 de Setembro de 1989, 10:10 da manhã, através de uma cesariana, eu nascia. 49 cm, 2 kilos e 900 gramas. 5 dias de bolsa rota! Saudável, minha mãe me amamentou até 1 ano e 8 meses. Eu gostava só do peito, não queria outros alimentos. A médica pediu pra que minha mãe parasse de me oferecer seu leite porque se não eu ficaria fraca demais e morreria. Fiquei sem o peito, mas sobrevivi. E cresci ouvindo minha mãe contar estas histórias.

Corta pra vida adulta 

Em 2009 tive a oportunidade de participar de um lindo processo de autoconhecimento que envolvia técnicas de rebirthing e o estudo do que havia de informações sobre a própria gestação, parto e primeira infância.

Foi naquele fim de semana que eu descobri que os registros emocionais e inconscientes que uma pessoa acessa para ter certos tipos de ações, reações e sentimentos, ao longo de toda a vida, tem forte influência de acontecimentos da gestação, do nascimento e da primeira infância. E, claro, comigo não era diferente.

Foto: Bruno Sersocima, Free Images.

Foi assustador perceber que os acontecimentos da minha gestação e  do meu nascimento ainda tinham consequências tão marcantes em minha vida. Mas não tinha volta! Por mais que eu quisesse, não era possível nascer diferente. Mas era possível renascer!

Então eu tomei duas decisões: precisava compreender como era possível que o nascimento tivesse tanta força na vida de um adulto; queria construir as habilidades necessárias para me transformar; e por fim, eu ia aprender o suficiente para ensinar para outras pessoas que só se vive no útero e só se nasce uma vez na vida. E que estes são dois dos maiores marcos pra nossa vida inconsciente.

O meu contínuo Renascer

Em 2015 me formei Psicóloga e em 2017 me tornei Doula. O trabalho com a psicologia clínica é incrível, eu o amo, o respeito e o realizo com alegria, mas é um trabalho, quase sempre, remediador. Quase ninguém procura a terapia porque está tudo bem e quer apenas pensar em como tornar a vida ainda melhor (mas deveriam!).

Ser doula é preventivo. É ter a chance de informar famílias inteiras sobre a importância de cuidar da saúde emocional daquela criança desde sua concepção.

Tive a chance de trabalhar com crianças na educação infantil durante cinco anos e pude perceber o quanto as histórias de gestação e nascimento, que algumas mães contavam, tinham tudo a ver com a personalidade e atitudes daquelas crianças, tanto de forma positiva quanto de forma negativa.

Arquivo Pessoal

Hoje acredito que é necessário transformar a forma como mãe, bebê e família vivem todo este processo, como se relacionam desde o começo. Para isso é necessário informação de qualidade, segurança, escolhas conscientes e embasadas, e toda a afetividade possível. É desta forma que ajudaremos nossas crianças a criar registros emocionais mais saudáveis, e assim, elas poderão conhecer o mundo fora da barriga de forma respeitosa e amável, tendo estas experiências como referências positivas para a vida desde os primeiros instantes!

Saiba mais sobre as referências que usei para este texto:

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