Uso de plantas medicinais na gestação – riscos e benefícios

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Nas buscas, nos caminhos, reencontramos pessoas, lugares, sonhos, que nos fazem revisitar as experiências positivas e negativas da nossa vida. Unindo  as experiências significativas, da gestação,  parto,  pós-parto e o uso de plantas medicinais (em pesquisas atuais, acabei reencontrando ) , quero fazer uma reflexão sobre a utilização deste recurso terapêutico no período gestacional, seus benefícios, suas implicações e riscos para a saúde da mulher gestante e consequentemente para o seu bebê.

Durante toda a gravidez ouvimos (e repetimos insistentemente para nós mesmas) que “gravidez não é doença!” De fato não é! Mas durante a gestação as modificações físicas e emocionais são tão intensas… Sensações de enjoos; náuseas; dores na coluna; flatulências; azia; prisão de ventre; varizes; insônia, além da possibilidade de depressão, ansiedade. Muitas vezes alguns desses sintomas perduram até o final da gestação e por esse motivo, apesar da necessidade de tratamento, há muitas restrições para o uso de medicamentos no período gestacional e, para atenuar tais problemas, é comum a gestante buscar tratamentos naturais, acreditando que os mesmos não farão mal a sua saúde e de seu bebê.

Devido a essas preocupações geradas pelo uso de medicamentos durante a gestação, tornou-se comum o uso de plantas medicinais acreditando-se que esta terapia não ofereceria maiores riscos por ser considerada natural e, portanto, mais segura. Outro aspecto que reforça esta crença é o fato do uso de plantas medicinais fazer parte do nosso cotidiano.

por fao.org
OrganicsNet

Usadas há milênios, as plantas medicinais só passaram a ser objeto de estudo da comunidade científica há poucas décadas, e aliado a isto houve o aumento do consumo pela população. Foi só a partir desse momento que os órgãos responsáveis pela regulamentação dos medicamentos e alimentos (Ministério da Saúde /Vigilância sanitária), criaram uma lei específica para o uso de plantas medicinais e fitoterápicos no Brasil. A Portaria n.º 6 de 1995 da SVS/MS, substituída pela RDC n.º 48 de 16 de março de 2004 exige a comprovação da eficácia e segurança para a comercialização de tais produtos, inclusive com indicação específica de utilização dos mesmos nos períodos da gestação, parto, pós parto e lactação.

Até aqui praticamente não havia informações científicas  sobre o uso seguro das plantas medicinais pelas gestantes, e hoje sabemos que a maior preocupação é justamente o uso indiscriminado dessas plantas no período gestacional, pois muitas delas podem provocar efeito abortivo, entre outros, apresentando riscos graves quando usadas indiscriminadamente. É de grande importância que profissionais da área de saúde, Doulas, educadoras/consultoras de aleitamento materno, bem como as próprias gestantes busquem tais informações para que possam fazer a relação risco-benefício da utilização deste tratamento e possam reconhecer a exposição a esses riscos. 

Nossa relação com as plantas medicinais – Racionalidade e Subjetividade

Porém vale lembrar que o uso de plantas medicinais está diretamente relacionado a singularidades culturais, sociais e até econômicas. Um dos motivos da sua utilização é o seu baixo custo para a população.

É inevitável o reconhecimento de que todas as práticas de saúde devem ser baseadas em evidências. No entanto, a excessiva valorização da racionalidade, que leva, portanto,  ao uso racional destas plantas,  muitas vezes se torna limitante quando pensamos a complexidade da utilização de medicamentos, e mais especificamente das plantas medicinais. Os/as profissionais devem intervir nas condições de saúde das gestantes identificando que este é um momento complexo, na maioria das vezes instável, e, portanto, valores culturais e sociais, a subjetividade, os significados e a crença, de que o uso de uma terapia pode melhorar suas condições de saúde, devem ser considerados para se estabelecer uma relação que reconhecerá que o cuidado com a saúde dessa mulher deve se dar de forma integral, levando-se em conta essa multifatorialidade.

Dá para afirmar que a confiança que depositamos no uso das plantas medicinais está diretamente relacionada aos aspectos já levantados, como por exemplo, o preço acessível. Mas essa confiança também se dá, e de maneira significativa, devido ao impacto que as mesmas exercem sobre o nosso organismo quando as experimentamos, sejam esses impactos positivos ou não.  A experiência do uso também nos remete a lembranças carregadas de afeto, cuidados, ou outras emoções. Quantas de nós tomaram aquele chazinho oferecido por nossas avós e/ou mães para acalmar a dor, seja ela do corpo ou da alma?  Reconhecer a subjetividade desta prática não impede o reconhecimento de que, para que sejam consideradas agentes terapêuticos, as plantas medicinais devem ser recomendadas ou prescritas as gestantes a partir de indicações, dosagem e preparos adequados, identificados a partir de evidências.

Como profissionais que lidam cotidianamente com as inúmeras sensações vivenciadas na gestação, no parto e pós-parto, precisamos sempre levar em consideração os valores culturais, as experiências subjetivas acumuladas por esta gestante quando na busca por recursos terapêuticos, naturais ou não, com os quais pretende amenizar incômodos e garantir seu bem estar. Nessa prática do cuidado na qual nos envolvemos e com a qual temos enorme responsabilidade é imprescindível que a prioridade seja a “escuta” desta mulher para que possamos acolher as experiências que influenciam suas escolhas. Porém, nesse processo é fundamental o estudo contínuo e aprofundado, e a busca investigativa sobre as espécies/plantas mais utilizadas, os riscos e benefícios desse consumo.

Dessa forma, importa destacar que este período da vida da mulher exige cuidados especiais e que, portanto, o uso indiscriminado das plantas medicinais pelas gestantes, deve ser considerado um problema de saúde pública pelo qual somos todas/todos responsáveis.

Referências

PERCEPCAO DE RISCO E CONCEITOS SOBRE PLANTAS MEDICINAIS FITOTERAPICOS E MEDICAMENTOS ALOPATICOS ENTRE GESTANTES https://www.researchgate.net/publication/277842307

RISCO DAS PLANTAS MEDICINAIS NA GESTAÇÃO: UMA REVISÃO DOS
DADOS DE ACESSO LIVRE EM LÍNGUA PORTUGUESA http://revistas.unipar.br/index.php/saude/article/view/5515

PLANTAS MEDICINAIS PARA USO NA GRAVIDEZ, PARTO E DURANTE A AMAMENTAÇÃO.  http://www.saude.sc.gov.br/index.php/documentos/atencao-basica/rede-cegonha/eventos-2/oficina-de-fortalecimendo-do-pre-natal/modulo-ii/9309-4-plantas-na-gestacao-qualisus-rede-cegonha/file

HIRSCH, Sônia. SÓ PARA MULHERES, ed. Prensa Ltda, 1994.

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