O nascer é sagrado: ser Doula e cristã

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A descoberta da vocação 

Sou fruto do amor de um casal cristão, católicos, praticantes e fiéis, casados há 38 anos e pais de cinco filhos. O amor, a providência divina, o respeito, o zelo e a obediência ao primeiro “sim” diante do altar, é a principal fonte de inspiração para o meu Ser Doula.

Quarta filha de cinco, vi sempre na família o meu referencial de vida. O nascimento do meus sobrinhos, aflorou a vocação materna que sempre tive no íntimo do meu coração, fez nascer também a Tia Alyne, nome que me acompanha e hoje me identifica como pessoa e profissional.

A minha fé e caminhada espiritual sempre me levaram a ser “destemida”, ouvir e seguir a voz de Deus. Há nove anos senti o Amor de Deus me arrebatar e convocar para Ser inteiramente Dele, não pensei duas vezes e fui. Me “entreguei” a vida religiosa, vivi como vocacionada durante três lindos, ricos e incomparáveis meses. Após esse tempo vivido, Deus me mostrou que ele tinha planos maiores para minha vida, pedi permissão para sair e novamente ser obediente á vontade Dele.

Nessa época, também já tinha iniciado a graduação em direito e era como aquele barco que você vai remando sem saber onde vai chegar, mas que sempre ao avistar alguém no caminho para cuidar, ensinar, amar, fazia o vento cessar, tornando minha a dor do outro. Tranquei a faculdade durante a experiência religiosa e me lancei.

Sobre a faculdade, sou bacharel em direito a quase quatro anos, formada pela UNIFOR , com direito a colação de grau, baile de formatura, fotos e etc. Mas cadê a essência da Alyne em tudo isso? Em meio a todos esses acontecimentos, vinha sofrendo e me martirizando por uma “vaidade” que era passar no tão falado, sonhado e desejado Exame da Ordem dos Advogados (OAB). Tinha a desculpa para mim mesma, que precisava encerrar esse ciclo. Encerrar para quê? Seria feliz todos os dias na mesma coisa, no escritório, muitas vezes lidando só com papéis? Encerrar só por vaidade de ter uma “carteirinha vermelha” e ser identificada por um número de ordem? Para resolver problemas que nunca dependeriam exclusivamente de mim, exclusivamente do meu cuidado, amor e zelo? Em resposta a todos esses questionamentos, entendi que não era esse caminho que eu tinha que seguir. No final de todo esse período, descobri que precisava passar por todas essas experiências vividas para  hoje formar a pessoa e a profissional que sou!

O dom de SERVIR

A realidade do serviço já era viva no meu coração, mas o meu despertar real,  aconteceu quando uma prima, com 36 anos, grávida do primeiro filho, já com 37 semanas de gestação inicia picos de pressão alta e inchaço. A obstetra avisa logo que vai marcar a cesárea por conta desses “fatores de risco”, minha prima aceita sem reclamar, confiante que esse seria o melhor. Já eu como “doula” dela, sem nem saber que já era, fico angustiada com aquela situação e “justificativa” de cesárea. Mesmo assim, acompanho tudo, arrumo as malinhas da maternidade, vou junto para internação do parto com data e hora marcada.  Assim que a Marina nasceu, sem o contato pele a pele com a mãe, cansadinha, foi logo para o oxigênio e só foi para o quarto “conhecer” a mãe depois de mais de 12 horas.

Como ficou o coração dessa mãe? Angustiada, sem informação e passando várias coisas na cabeça, que provavelmente devem ter ocorrido. Como não podia intervir nisso, fui o suporte da mãe puérpera, emocionalmente abalada e preocupada, perguntando de instante em instante por sua filha. Mesmo sem nenhuma “técnica”, ajudei elas em tudo. Da amamentação aos cuidados das duas, tudo ela me perguntava se estava certo e eu ficava emocionada e me esforçava para servir e dar o meu melhor. O Dom de servir e amar já estava impresso no meu ser. É a chamada empatia, vínculo, segurança, pessoalidade, que só a sua Doula tem.

Ter a presença de uma doula no trabalho de parto é classificado por estudos científicos e pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como nível de evidência A, ou seja, nível de excelência e eficácia. A mulher que tem uma doula se sente capaz, apoiada fisicamente, psicologicamente e espiritualmente para a transição, o novo que vai passar. Dos relatos de mulheres que tiveram doulas posso tirar uma conclusão que após o parto são mais felizes e se sentem emocionalmente equilibradas.

Minha capacitação

Fui em busca de profissionalização, me capacitar no meu sonho. Hoje sou Doula e estudante de enfermagem, tendo a missão de levar a humanização para todos os profissionais envolvidos na assistência ao parto. As confirmações de Deus vem na leveza do meu agir e no brilho dos olhos de quem me escolhe, me contrata e me quer ter junto nesse momento único e especial da VIDA.

Sou Doula de famílias. Tenho como foco central do meu trabalho a espiritualidade cristã. Procuro sempre priorizar a qualidade e pessoalidade do meu servir e não a quantidade. Cada família é uma família, e todas elas são únicas. Tenho também por objetivo centrar a mulher, o casal, na sacralidade da gestação ao nascer, do filhos gerados no Amor. Do nascer como imagem e semelhança de Deus. Da permissão Divina de gerarem vida. Do servir um ao outro por inteiro. Do amor esponsal. Dos olhares voltados para o Sagrado, que lá se encontra, se faz um e gera vida. Da cura dos medos, da dor do parto para mulher, que levo a se concentrar nas dores de Jesus, dores que nos deram vida e que está Vivo dentro delas, para também serem capazes. Do olhar forte e penetrante de Maria que alcança e cura. Do anjo da guarda, que se adianta e envia sinais de confirmação que é possível e que a família é o maior e mais lindo projeto Dele.

Ademais, também conduzo um dos momentos que antecede o parto, mas não menos importante, que é o Chá de Benção.

O Chá de Benção 

Fotógrafo: Tiago Campos Lima

Inquietava-me os chás de fralda ou chá de baby não ter um significado, ao alcance do que é a vida gerada. De momentos que não ficavam eternizados e brincadeiras muitas vezes sem sentido e sem graça. Comecei a pesquisar e encontrei em Vitória/ES, uma doula, Aline Gusmão, que me apresentou o chá de bênção, fiz uma consultoria online com ela que me passou todo passo a passo desse momento. Então, introduzindo a minha identidade me inspirei e hoje realizo lindos chás.

No chá, fazemos a benção do sapatinho do bebê, a coroação da nova mãe, mensagens para o casal, momento de oração com velas, dinâmicas para a gestação em Deus que só terminam no dia do nascimento do bebê, dentre tantos outros momentos de espiritualidade, que só quem está presente pode sentir o amor que transborda.

O objetivo central  desse momento é amar, zelar pelo Sagrado que carregam com o matrimônio e a construção da família. É preparar as pessoas convidadas para o puerpério da mulher, para servi-la, amá-la, deixá-la feliz e emocionalmente equilibrada. É informar que ela também vai nascer como mãe, que ela precisa ser cuidada para ser a mãe do seu bebê e é ela que quer cuidar dele, que ela vai “errar”, chorar, “sair da casinha” com as oscilações de hormônio e que com o amor voltará a se encontrar, sorrir e ser feliz.

É nessa montanha de hormônios do amor que a família se encontra como plano perfeito do amor de Deus. Que Ele mesmo a sonhou como mãe, esposa, filha, profissional, e que a capacitou e capacitará para tudo isso. Que fundamental mesmo é Amar. A arquitetura do nosso Criador é perfeita e sem defeitos e a cada dia, me apaixono mais por esse universo de Amor.

Essa sou eu, minha história, minha essência, o meu Ser Tia Alyne Doula (mulher que serve) para você.

Referências:

Evidências qualitativas sobre o acompanhamento por doulas
no trabalho de parto e no parto: http://www.scielo.br/pdf/csc/v17n10/26.pdf

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