E foi assim que eu vi a flor

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Meu nome é Anna Letycia Ottoni,  nasci na capital de São Paulo, irmã de sangue de quatro homens e quinta filha de um casal de mineiros, cresci num ambiente com muita testosterona, e desde muito nova convivo com a bruxinha interna que me habita e tenho contato próximo com a natureza. Dos meus 4 avós só tive a oportunidade de conhecer a avó paterna viva e por pouco tempo durante a infância, sinto saudade do contato com a ancestralidade que não vivi… E busco essa conexão de outras formas na minha vida. Minhas avós e minha mãe tiveram todos seus filhos por parto normal, mas apenas minha mãe os teve no hospital, com analgesia, em litotomia, com episiotomia; e  durante meu nascimento, além dessas intervenções ainda realizaram o tal do ponto do marido em minha mãe. Aos 11 anos, desceu minha menarca, a primeira fase da minha adolescência eu ainda estava absorta na matrix do feminino e do consumismo que a sociedade e a mídia nos induz, mas aos poucos fui despertando a consciência para estudos de contraculturas, espirituais, esotéricos e holísticos.

“Flor feminina esvoaçante, faceira.”

Quando suspendo meu pensamento e retorno pro início do fio da meada que me fez chegar aonde estou – aqui, no meio do trajeto – entre o início e o fim, pelo menos nessa vida… qual exatamente foi o momento catártico que me lançou para esse universo do parir e do nascer… Sinto como uma faísca, um encontro de gametas, que certeiro plantou em meu útero, que até então só conhecia a ciclicidade menstrual, uma semente fecunda. Aos 17 anos… Ainda tão donzela, o destino me lança para o virar a ser mãe, não que tenha sido aceito de primeiro momento nem facilmente… Equilibrando a razão (sol em capricórnio) e a emoção (ascendente em câncer), fiz uma bendita lista de prós e contras e sem grandes expectativas me entreguei ao fluxo natural do gestar.

O ano era 2013 e enquanto isso ocupava a mente estudando saúde pública na universidade (FSP – USP), e foi na aula de antropologia da saúde, poucos dias após descobrir a gravidez que eu ouvi sobre o parto de cócoras… Após o estorvo do primeiro trimestre, enjôos, sono e obstetra cesarista comecei a pesquisa de cá e acolá, parto ativo, parto em casa, parto natural, a procura por um médico humanizado para o pré-natal e o parto… Enfim me encontrei segura e confiante para passar pela partolândia… E no terceiro trimestre parti pesquisar o encontro com a própria sombra, o puerpério, a lama, a amamentação. E fui até o ponto em que não me sentisse ansiosa ou angustiada já que estava ainda no polo oposto do processo.

“Salva a aurora. Espera pelo Sol.”

No dia da DPP (data prevista de parto), senti febre, fui ao hospital, exames mostraram tudo indo bem, fui liberada à meia noite, senti a primeira contração, não contei pra ninguém, fui para casa dormir, acordei as 4h, a cada 10 min vinha uma contração, ainda conseguia dormir e descansar… Lá pelas 7h, contrações continuavam ritmadas, avisei a equipe e por volta das 10h chegou a obstetriz para me acompanhar, fiquei algumas horas caminhando, vocalizando, no chuveiro, na bola de pilates e por volta das 15h fomos para o hospital, tentei ir para a banheira, não me adaptei, queria era um mar de água para nadar, uma água mais fresca pois estava com muito calor, sai, não encontrei conforto e apoio em quem estava presente no parto, só havia criado vínculo no pré-natal com o médico da equipe, e me falaram ali na hora que ele só chegaria no expulsivo ou se eu pedisse analgesia. Pedi analgesia, a presença do médico me deixou mais centrada e relaxada, me colocaram ocitocina, as contrações ficaram mais doloridas mesmo com a analgesia de baixa dose, tomei mais uma analgesia. No expulsivo, estava semisentada, identificava as contrações e realizava puxos, já que não tinha eles espontaneamente. Minha filha nasceu as 19h28 daquele dia e ficou por 2 horas no meu colo logo após o parto…

“Todas as vidas dentro de mim.”

Continuei os estudos na Saúde Pública e direcionava o foco dos meus estudos para a saúde reprodutiva e sexual da mulher, ia com minha filha no sling para a faculdade, trocava as fraldas da minha filha na sala mesmo porque não tinha fraldário, amamentava durante a aula, no transporte público e em qualquer lugar em livre demanda, também doava leite para o banco de leite humano e ordenhava leite para outros cuidadores oferecerem, em 2015 lutei ativamente pela reabertura de vagas nas creches universitárias da USP que haviam sido fechadas. Em 2016, realizei um estágio pela universidade na Casa Angela, casa de parto natural na zona sul de SP e acompanhei meu primeiro parto, nessa época já estava realizando o curso de doulas pela primeira turma do Multiplicando Doulas.

Assim que me formei, no final de 2016, iniciei meus estudos no sagrado feminino e com a planta expansora da consciência ayahuasca. Comecei a acompanhar gestantes e partos de forma voluntária para adquirir experiência, desde os primeiros acompanhamentos passei a oferecer Chá de Bençãos e Fechamento de Corpo no Pós-Parto junto com minha amiga Danie Sampaio pelo grupo Doulas das 13 Luas, pois me conecto com a sabedoria dos ritos de passagem para marcar as fases de morte e renascimento dos ciclos da mulher. Nos meus atendimentos também utilizo aromaterapia, massagens, rebozo, meditação guiada com tambor, exercícios para o assoalho pélvico, além da escuta empática e ativa para entender as demandas e necessidades da mulher.

Em 2017, participei de outro Curso de Doulas para atualizar meus conhecimentos, o MamaEkos, e cocriei com outras mulheres mães e doulas, a Coletiva Mãe na Roda, de Doulagem Coletiva na Periferia, em que realizamos semanalmente rodas gratuitas de gestantes e de pós-parto e oficinas periódicas que envolvem saúde da mulher, estamos situadas no Jardim São Luís, Zona Sul de São Paulo. Fazemos eventos em espaços públicos, unidades básicas de saúde e em ocupações, também produzimos e doamos slings em nossas ações. Nossa missão é informar, acolher e cuidar de mulheres negras e/ou de baixa renda que vivem em regiões periféricas para expandir o movimento de humanização dos partos e nascimentos para onde ela normalmente não chega, por ser um movimento ainda muito elitizado.

Em 2018, participei do II Encontro de Parteiras, Benzedeiras e Raizeiros da Serra do Araripe em Pernambuco, pois me encanta os saberes tradicionais, me formei Consultora em Aleitamento Materno pela Commadre e iniciei meus estudos no curso de Obstetrícia da EACH-USP, além de continuar trabalhando na Coletiva Mãe na Roda e em atendimentos particulares como doula de parto e consultora em aleitamento materno. Nos atendimentos particulares geralmente realizo 2-3 consultas durante a gestação, o acompanhamento do parto e uma consulta pós-parto. Para cada 2 atendimentos particulares pagos em valor integral, realizo um atendimento voluntário de doulagem e acompanhamento do parto, pois essa também é uma forma de diminuir as iniquidades em saúde.

“Isso de ser exatamente aquilo que a gente é ainda vai nos levar além.”

Sinto que ainda estou em construção nesse caminho, mas posso dizer que hoje eu sinto com firmeza em minhas mãos, em meu coração, em meu útero, em meus ovários, em minha voz e em meus pensamentos que é essa a minha direção, pois me sinto realizada mergulhando na profunda essência do feminino, no parto e no nascimento, pois também é um caminho de autoconhecimento para mim. Poder ajudar o próximo em seus processos também me faz muito feliz, ainda mais aqueles que passam por necessidades biopsicossociais mais urgentes e graves, por um mundo com mais equidade, amor, empatia, respeito e união! Seguimos!

Referências bibliográficas:

Estudos científicos:

O renascimento do parto e do amor http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-026X2002000200022

Que valores escolhemos nesse ritual?  http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-026X2002000200023&lang=pt

Humanização da assistência ao parto no Brasil: os muitos sentidos de um movimento https://www.scielosp.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-81232005000300019&lang=pt

Hierarquias reprodutivas: maternidade e desigualdades no exercício de direitos humanos pelas mulheres http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-32832012000100009&lang=pt

A cor da dor: iniquidades raciais na atenção pré-natal e ao parto no Brasil https://www.scielosp.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-311X2017000405004&lang=pt

Episiotomia: em foco a visão das mulheres http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0034-71672007000200013&lang=pt

Doulas apoiando mulheres durante o trabalho de parto: experiência do Hospital Sofia Feldman http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-11692001000300014&lang=pt

Humanização do parto e do nascimento http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/caderno_humanizasus_v4_humanizacao_parto.pdf

Site:

Spinning Babies https://spinningbabies.com/

Livros:

Parto Ativo: Guia prática para o parto natural. Janet Balaskas. Editora Ground.

Yoga para gestantes: método personalizado. Fadynha. Editora Ground.

Nascer Sorrindo. Frederick Leboyer. Editora Brasiliense.

A maternidade e o encontro com a própria sombra. Laura Gutman. Editora BestSeller.

O camponês e a parteira. Michel Odent. Editora Ground.

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Uma resposta para “E foi assim que eu vi a flor”

  1. Letícia Ottoni menina mulher grande guerreira com alma e espírito que vem de longas vidas passadas trilhando um caminho lindo que se eleva a ser pura de coração bom e forte do qual só tem muito amor e carinho pra passar pra tdos que a conhecem mãe e amiga da filha maravilhosa e inteligente Tarsila que amo com maior amor do mundo a vcs mãe e filha tda luz amor do universo 😙😙

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