A jornada de uma doula…

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Juliana Moraes e Silva, nasceu em São Paulo, em uma madrugada de inverno no início da década de oitenta. Tem um pouquinho de “filha de vó” e um pouquinho de filha mais velha. Dividiu suas brincadeiras de infância com seu irmão mais novo e com um monte de primos. É cristã de berço apaixonada por Deus, suas maravilhas e impossíveis e, ao longo da adolescência, dentro da sua jornada cristã, aceitou um novo olhar e um novo convite para uma mais plena comunhão com Deus e, dentro dessa nova comunidade conheceu seu primeiro namorado e hoje, marido.

Foi na adolescência também que iniciou o curso técnico em nutrição e dietética em Santo André/SP, e aprendeu muito sobre as maravilhas e impossíveis do corpo humano. E lá, sentiu-se muito atraída pela beleza do estudo de nutrição materno infantil. Nesse curso mesmo brotou em seu coração uma sementinha que ela mal sabia que se tornaria algo maior e mais belo pois todo conhecimento que ali estava sendo adquirido também cruzaria com a história de sua vida.

Ao longo de muitos anos, crescera ouvindo a história de sua chegada, onde após longas horas de trabalho de parto sua mãe acabou sendo submetida a uma cirurgia cesárea por falta de dilatação. Hoje ela sabe que esse é um dos mitos que rodeiam o parto, e que praticamente toda a mulher que está amparada por uma equipe paciente, com métodos de alívio da dor adequados, atinge a dilatação, porém isso ficará para outro papo.*

E essa história de não conseguir por isso ou aquilo não estava em seus planos. Como uma boa adolescente apaixonada pela genialidade do corpo humano, pelos estudos recentemente aprendidos sobre mãe e bebê, ela só tinha em mente que quando se tornasse mãe ia parir. E lá na sua adolescência aonde o termo parto humanizado estava longe de aparecer, ela sabia que iria parir e que iria assistir ao próprio parto por um espelho, para diversão de suas colegas de classe.  E dela mesma! Rsrs

Aquele primeiro namorado, alguns anos depois, tornou-se seu marido. Concluíram graduação juntos, seguiram-se duas pós graduações, lutaram bastante para começar a vida a dois quando de repente, começaram a sentir falta de algo… ou melhor, de uma pessoinha em suas vidas. Decidiram que era o momento de dividir o amor e planejaram um bebê. Seria a grande realização. E mal sabia ela que a semente que havia brotado ali na adolescência, há anos atrás, agora começaria a crescer e desenvolver-se.

Agora começa a história do meu presente,
não mais do meu passado.

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Aquela gestação e o desejo de parir me levou à muita leitura e uma busca incessante por informação. Eu deveria parir. Não poderia ser diferente. E se você puder acreditar, eu li muito. Mas ainda faltou muita informação e, ao final das 40 semanas lá estava eu preparada para parir, mas não preparada para lutar por isso.

Quando entrei em trabalho de parto (e foi muito rápido, foram 5 horas da primeira contração até a dilatação total), chorei ao ser examinada no hospital e ver que estava quase pronta para receber meu bebezinho.

Fui para uma sala apropriada para o parto normal, fiquei na banheira vencendo cada contração de mãos dadas com uma moça da enfermagem que me enchia de força e positividade e, sob o olhar do meu marido, tão assustado com o desconhecido quanto eu. 

Todo esse esforço e determinação foram validados quando a médica chegou e disse que eu estava em dilatação total, mas paralelamente fomos golpeados com a informação de que o “bebê estava alto demais e que o parto seria conduzido no centro cirúrgico para evitar problemas”.

Assim fui. Bem informada, mas não tanto o quanto deveria.

A bolsa foi rompida mecanicamente e o mecônio presente ali me fez ser submetida a uma “cesárea de emergência” pois o caso era “muito grave” na argumentação da médica.

Anos depois, ao resgatar e ler meu prontuário, a fim de elaborar melhor a história do nascimento do meu primeiro filho, notei que nem consta nele a informação dessa cena tão grave de um mecônio que me levou a uma “cesárea de emergência” para salvar nossas vidas. Sabemos que o mecônio por si só não é indicativo para cesárea. E que em muitos casos o parto natural ajuda a expelir o mecônio que exista no bebê através de um mecanismo natural quando o bebê passa pelo canal de parto.* 

Fui golpeada, fui vencida, fui roubada.

Nessa busca de entender realmente o que havia acontecido comigo li mais, busquei mais, chorei, escrevi, falei pra todo mundo e assim conheci o mundo do parto humanizado, do parto com respeito e meu coração se derreteu de desejo de amparar mulheres que como eu, tinham um desejo e precisavam ser respeitadas. Mas não era o momento ainda. 

Nova chance

Juliana Moraes e Silva, segunda gestação Foto: Mari Almeida Fotografia

Muito trabalho, filho pequeno, muita coisa acontecendo e o projeto foi sendo adiado até que, engravidei pela segunda vez quase três anos depois e, de tanto me preparar e estudar não pude resistir ao chamado de cuidar das outras mulheres, de ser doula*. 

Concluí minha formação, que veio somar com tudo o que eu lia, vivia e aprendia de forma autodidata nos quatro anos anteriores.

Desde a descoberta da segunda gestação informei ao meu marido meus planos e ele abraçou o sonho junto comigo. Porém, dessa vez neguei-me a ir a um hospital ,pois me fazia chorar a ideia de sucumbir novamente ao comportamento obstétrico cadenciado que encontramos em nosso país. Queria estar em um ambiente seguro: Meu lar.

Meu marido pesquisou junto comigo, encontramos uma boa equipe que nos assistisse em um parto domiciliar. Decidimos que isso ficaria entre nós e poucas pessoas de nossa confiança que saberiam de nosso plano. Assisti junto com meu filho praticamente todos os vídeos disponíveis sobre parto, e que ele pudesse assimilar. Sem saber que assim seria, pari igualzinho eu prometi às minhas colegas na adolescência: olhando minha filha chegar por um espelho, pegando-a ao nascer, no chão do meu quarto, com o mega bônus de ter meu marido, meu filho e minha gata ao meu lado, “parindo” junto comigo. Dando as boas vindas em família à nossa menina!

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O parto não aconteceu na banheira como havíamos planejado, mas um segundo bônus ganhei assim que pari minha filha. Ouvi meu filho me perguntando:
– Mamãe, que horas “ele” vai entrar na banheira pra gente nadar ?? (rsrs)

Nova jornada

Daí em diante venho me aprimorando com cursos, leituras, grupos de doulas onde as trocas são riquíssimas e entregando meu conhecimento e experiência adquiridos ao longo dos seis últimos anos a cada mulher que tenho oportunidade de participar deste momento único que é receber uma nova vida. 

Juliana Moraes e Silva e a gestante Renata Foto: Gabi Bacelar Fotografia

Todos os atendimentos que tenho feito individualmente ou projetos coletivos tem me transformado e preparado um pouco mais para a próxima mulher a cruzar meu caminho.

Seja como doula que acompanha, acolhe e orienta uma gestante e seu companheiro, seja como doula de um coletivo que abraçou algumas gestantes em situação carcerárea, seja como facilitadora em aleitamento quando a mãe já perdeu as esperanças e consegue retomar o brilho no olhar ao amamentar seu filho ou com uma simples massagem quando a barriga já pesa bastante e, tudo o que a gente precisa é relaxar… Cada história tem me trazido a oportunidade de aprender, me transformar e me ressignificar.

Sei que minha jornada ainda está no início. Mas para ela eu abro meu coração e meus braços todos os dias. Certa de que ainda há alguém de quem eu precise muito, e que ainda há alguém que precisa de mim. 

 

 

 

*Referências:
“Eu não tive dilatação” https://www.maternidadeativa.com.br/artigo6.html
“Mecônio é indicativo de Cesárea?”  http://www.brauliozorzella.com/o-parto-que-pariu/mec%C3%B4nio-%C3%A9-indicativo-de-ces%C3%A1rea
“O que uma doula faz e como ela atua” http://www.maesaudavel.com.br/parto/o-que-faz-uma-doula-e-como-ela-atua

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26 respostas para “A jornada de uma doula…”

  1. Orgulhosa de você amiga. Parabéns pelo seu crescimento pessoal e profissional nessa linda jornada na busca do entendimento de uma das obras mais perfeitas do criado que é o corpo humano.

  2. Que linda a sua História Juliana! Tenho certeza que com esse lindo propósito vc vai impactar muitas famílias! Bjs!

  3. Que linda sua história!
    Parabéns pela atitude e dedicação…Que através dessa jornada você consiga ajudar muitas e muitas guerreiras como você.

  4. Poxa que relato bonito Jú!
    Sua paixão pela humanização deste período tão incrível e especial na vida das mulheres é realmente algo inspirador.
    Vai pra cima!!!

  5. Parabens minha eterna doula, voce merece todo o susseso …
    Voce me disse uma vez que tem muito orgulho de mim, pois “pari igual uma rainha”, hoje digo que tenho orgulho de voce pela pessoa que es e que esta lutando para melhorar e ajudar maes como eu a lutar por um parto respeitoso.
    Eu te amo minha linda Parabens

  6. Ju que linda história ❤️
    Emocionante vê sua garra em realizar seu sonho de adolescente e ele se concretizando… E hoje vc em busca de ajudar outras mulheres neste momento encantador e fascinante que é o momento de pari…. Deus lhe abençoe minha linda??

  7. Parabéns Ju…linda história contada de uma forma tão rica e inteligente. Q essa sua nova fase seja repleta de nascimentos lindos e abençoados. Bjs Claudinha……

  8. Oie Juju que linda abraçando uma profissao tao delicada e linda que e dar suporte para as futuras Mamaes. Voce que e tao meiga, delicada, estudiosa, dedicada e uma pessoa do bem e de Deus. Ahh.. e Maezona tambem.Orgulho de voce Juju. Siga seu caminho auxiliando as novas Maezinhas e Bebezinhos. Deus te abencoe e seja feliz. Bjs e abracos carinhosos. Tia Su

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